Política
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Lula diz a senadores que vitória em 1º turno é essencial contra golpismo

Para isso, Lula afirmou que ele e o PT estão em busca do apoio formal no primeiro turno de quase toda a chamada terceira via.

Folhapress - 14 de julho de 2022, 08:29

Fernando Frazão/Agência Brasil
Fernando Frazão/Agência Brasil

RANIER BRAGON, DANIELLE BRANT, JOÃO GABRIEL, THAÍSA OLIVEIRA E JULIA CHAIB
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - No almoço com parlamentares aliados e com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse na quarta-feira (13) ser essencial haver uma vitória sua já no primeiro turno para que não prosperem ameaças de ruptura democrática estimuladas por Jair Bolsonaro (PL) e aliados.

Para isso, segundo relatos de pessoas que participaram da conversa, Lula afirmou que ele e o PT estão em busca do apoio formal no primeiro turno de quase toda a chamada terceira via –não só do PSD de Gilberto Kassab e do MDB de Simone Tebet, mas também da União Brasil de Luciano Bivar.

Lula esteve nesta terça (12) e quarta em Brasília e participou de diversos encontros políticos, sendo o principal um almoço com Pacheco e parlamentares aliados, na residência oficial da presidência do Senado.

A avaliação de Lula a senadores ocorreu após o almoço, em uma roda de conversa em que estavam presentes, além de Pacheco, os senadores Humberto Costa (PT-PE), Jean Paul Prates (PT-RN), Paulo Rocha (PT-PA), Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e Alexandre Silveira (PSD-MG), além do deputado federal Reginaldo Lopes (MG), líder da bancada do PT na Câmara.

A reportagem obteve o relato da fala de Lula com três dos participantes dessa conversa. Segundo todos eles, o ex-presidente afirmou ter certeza de que obterá o apoio de MDB –sob o argumento de que o PT cedeu ao partido em dez arranjos políticos estaduais sem pedir nada em troca– e que tem mantido pontes com Bivar, que, segundo ele, "odeia" Bolsonaro.

A União Brasil é fruto da fusão do DEM, adversário histórico do PT, e do PSL, nanico que abrigou a eleição de Bolsonaro em 2018. Lula teria sublinhado aos participantes da conversa que, no sentido de evitar arestas com os adversários históricos, não falou uma palavra crítica em relação a ACM Neto, ex-DEM e secretário-geral da União, na visita recente que fez à Bahia.

O MDB tenta emplacar a candidatura de Tebet, mas está rachado internamente e é alvo de ofensiva do PT.

Na última pesquisa do Datafolha, de 22 e 23 de junho, Lula tinha 53% dos votos válidos. Para ganhar no primeiro turno, é necessário que o candidato some 50% dos votos válidos mais um.

Nessa pesquisa Tebet teve 1% das intenções de voto. Bivar não chegou a pontuar. O cálculo político do PT, porém, parte de duas lógicas. MDB e União Brasil terão razoável tempo de propaganda eleitoral na TV e rádio, o que tende a ampliar a fatia de votos de eventuais candidatos, seja quais forem.

Embora não tenha sido citado no almoço, o PT também tenta obter o apoio do Avante de André Janones, que teve 2% das intenções de voto no último Datafolha.

O PT também pressiona, por meio das bancadas na Câmara e no Senado, uma adesão de Ciro Gomes (PDT), mas o candidato e a cúpula do partido descartam desistência.

Estava também no almoço desta quarta o pré-candidato a vice, Geraldo Alckmin (PSB), ex-tucano que representa o principal símbolo da movimentação de Lula no sentido de ampliar o seu arco de alianças para além da esquerda tradicional.

Ainda de acordo com relato dos parlamentares que participaram da conversa com Lula, o petista disse que em um cenário normal ele até preferiria uma disputa com dois turnos, o que permite aos dois candidatos da reta final mais oportunidades de debate e de discussão de seus programas. Dessa vez, porém, uma vitória no primeiro turno seria crucial.

A possibilidade de ameaça de ruptura democrática foi o tema central do almoço em si.

O objetivo formal do encontro foi obter de Pacheco uma garantia política de que ele se colocará na linha de frente da defesa de que as eleições serão realizadas sem percalços e que os eleitos serão empossados.

Bolsonaro tem feito reiterados ataques golpistas contra o sistema eleitoral e já deixou claro, assim como aliados, que pode questionar resultado que não seja a sua vitória.

"Nós todos saímos daqui com a garantia de que o presidente do Congresso Nacional, que, como nós temos dito, é a última ratio [último recurso] de defesa da democracia, dará posse aos eleitos no dia 1° de janeiro", afirmou o líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues.

Lula manifestou a Pacheco ter absoluta confiança de que o presidente do Senado é a pessoa ideal para conter eventuais avanços golpistas e garantir a normalidade democrática e cumprimento sem ressalvas do resultado eleitoral.

Pacheco prometeu que o Congresso Nacional atuará para garantir o respeito ao resultado, disseram senadores, segundo quem o senador afirmou que, na condição de presidente do Congresso, vai reagir diante de qualquer tentativa de ruptura democrática e que vai garantir a posse do ganhador das eleições de outubro.

A posição de Pacheco tem, desde muito, destoado da do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), aliado de Bolsonaro e ativo apoiador da reeleição do presidente.
Lira foi alvo de críticas de Lula na roda em que falou da necessidade de sua vitória sem necessidade de uma segunda etapa. O petista teria dito que nunca viu um presidente da Câmara com tanto poder nem mesmo na época de Ulysses Guimarães, que comandou o Congresso Constituinte após a ditadura militar.
Para o petista, Lira teria o objetivo de "acabar" com a oposição.

Lira tem grande influência no Congresso e no governo por meio do controle da distribuição entre os parlamentares das bilionárias emendas orçamentárias da rubrica RP-9.

Segundo o ex-ministro Aloizio Mercadante, que esteve no almoço, Lula afirmou que Bolsonaro e os filhos dele foram eleitos pelas urnas eletrônicas e é importante que o Senado se posicione diante dos ataques ao sistema eleitoral e dialogue com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para fortalecer a corte.

Lula, relatou Mercadante, afirmou que o presidente busca repetir no Brasil o roteiro do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump –que está sendo investigado por insuflar a invasão do congresso americano, o Capitólio, após a derrota para Joe Biden.

"Nós não podemos aceitar. Esse foi o diálogo, foi muito importante. O Senado é uma instituição democrática, o presidente Rodrigo Pacheco disse que está totalmente comprometido, que é um valor inegociável da democracia o resultado dos votos", disse Mercadante.