Mandetta minimiza ‘tensões’ com Bolsonaro em meio à crise do coronavírus

Vinicius Cordeiro

Entrevista coletiva foi interrompida pela assessoria durante a segunda pergunta ao ministro da Saúde sobre o presidente.
mandetta bolsonaro

Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, minimizou os conflitos com o presidente Jair Bolsonaro na crise do coronavírus. Na visão do médico, as discussões que existem dentro do governo federal não são o grande foco do atual momento.

Mandetta foi questionado sobre uma possível preocupação de ser demitido, mas viu o colega Walter Souza Braga Netto, ministro da Casa Civil, interromper: “isso não existe no momento”, declarou.

Contudo, ao tomar a palavra, Mandetta reconheceu os atritos.

“Os processos em andamento, as tensões, são normais pelo tamanho desta crise. Enquanto eu estiver nominado vou trabalhar com ciência, técnica e planejamento. O instinto pela vida é mais forte que o instinto econômico”, declarou Mandetta.

Apesar disso, o ministro disse que o foco é a luta contra o coronavírus, algo “mais dramático que as guerras mundiais”.

A assessoria do Planalto encerrou a entrevista coletiva durante outra pergunta sobre Jair Bolsonaro. O jornalista perguntou se o presidente poderia ter visitado a Ceilândia e Taguatinga ontem (29). Os outros ministros que estavam no local se levantaram e saíram enquanto Mandetta abriu um sorriso e permaneceu sentado.

MANDETTA: DESCULPAS À IMPRENSA E MOSTRA APOIO AOS GOVERNADORES

Durante a coletiva, Mandetta ainda pediu desculpas à Rede Globo e revelou que viu o ‘puxão de orelha’ que tomou da emissora ao criticar a imprensa. “É estarrecedor que ele não reconheça que o nosso trabalho, o trabalho de todos os colegas jornalistas, daqui da Globo, mas também de todos os veículos, é um remédio poderoso”, disse Ana Paula Araújo na edição do Jornal Nacional de sábado (28).

Contudo, o ministro disse que foi mal interpretado e revelou que assistiu o Manhattan Connection, da Globo News, e elogiou uma reportagem do Fantástico.

“Naquele momento, quis dizer [à população]: escuta um livro, ouve música, procure outras possibilidades. Poltrona, sofá e televisão ligada é muito estresse. É nesse sentido”, disse.

Por fim, Mandetta também alegou que mantém contato direto com secretários estaduais e governadores e aprovou as medidas tomadas pelas autoridades regionais.

“Por enquanto, mantenha as recomendações dos estados. Porque ainda temos deficiências nos sistema”, finalizou.

BOLSONARO QUER DEMITIR MINISTRO DA SAÚDE

Mais cedo, o colunista Tales Faria, do UOL, relatou que Bolsonaro está de “saco cheio” e gostaria de demitir Mandetta. Contudo, o presidente teme que a exoneração do ministro seja um rompimento com o empresariado que o ajudou a eleger em 2018.

A relação ficou estremecida após o pronunciamento oficial de Jair Bolsonaro na semana passada. O presidente voltou a declarar que o coronavírus é uma “gripezinha” e apenas as pessoas do grupo de risco devem ficar em casa – contrariando as recomendações da OMS (Organização Mundial de Saúde) e do próprio Ministério da Saúde.

Por causa dessa postura, as especulações da saída de Mandetta começaram a surgir. Contudo, o atual ministro deixou claro que só sairá do cargo caso “o presidente queira” ou caso adoeça, impedindo de realizar sua função.

Estado de S. Paulo noticiou que uma reunião entre ambos foi um divisor de águas. Segundo a reportagem de Eliane Cantanhêde, Mandetta apelou para Bolsonaro criar um ambiente favorável entre o governo federal e os Estados. Além disso, também pediu para não menosprezar o coronavírus nas suas manifestações. Para completar, o ministro deixou claro que criticará o presidente caso Bolsonaro se aventure em ir a um metrô, por exemplo. A resposta de Bolsonaro foi que iria exonera-lo caso isso acontecesse.

Por fim, Mandetta também deixou claro que ele e sua equipe não vão pedir demissão durante a crise, mas podem sair depois que ela passar. “Ele [Mandetta], inclusive, se colocou à disposição para assumir a função de ‘bode expiatório’, em caso de fracasso, e se comprometeu a não capitalizar politicamente, em caso de sucesso. Disse que não tem ambições políticas nem reivindica nenhuma posição de destaque”, completa a reportagem.

Hoje (30), Bolsonaro está avaliando um novo decreto para mudar as regras do isolamento social. A medida elevaria um novo embate com os governadores e prefeitos, colocando todas as ações regionais em xeque.

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