Marcelo Belinati: “quero acabar com as muralhas de Londrina”

Roger Pereira


Prefeito eleito já no primeiro turno das eleições municipais de Londrina, o deputado federal Marcelo Belinati (PP) diz que quer marcar sua gestão na segunda maior cidade do estado pela abertura econômica. Para ele, Londrina deixou de crescer nos últimos anos por estar fechada a novos investimentos e esta abertura seria, na sua visão, a solução para o desenvolvimento econômico da cidade e a consequente melhoria da qualidade dos serviços públicos. Em entrevista ao Paraná Portal, Marcelo evitou comparações com seu tio, ex-prefeito da cidade pro três mandatos, Antonio Belinati e disse ser apenas uma infeliz coincidência dois dos principais casos de corrupção do pais, as operações Lava Jato e Publicano, terem origem na cidade. Ele ainda explicou o processo seletivo que lançou para a escolha do secretário de Educação e disse como pretende atuar diante da crise financeira que atinge os município.

Confira a íntegra da entrevista:

Paraná Portal – Numa eleição em que muitas cidades rejeitaram os políticos profissionais, elegendo nomes que nunca haviam disputado uma eleição para comandar suas prefeituras, o senhor, que é de uma família tradicional da política, que tem uma carreira pública, tendo sido vereador e deputado federal, venceu a disputa em Londrina com relativa facilidade. Por quê?

Marcelo Belinati – Mas eu sou o grande exemplo da pessoa que não é político profissional. Eu sou médico. Sou médico concursado do Samu, sou médico concursado do INSS, sou médico da Unimed, sou médico dos hospitais de Londrina. Então, independente de estar exercendo função na vida pública, eu nunca deixei de trabalhar e atuar na medicina. Eu creio que isso é o maior exemplo de que as pessoas sabem reconhecer quando está sendo feito um trabalho diferenciado. Acabou a eleição de prefeito em 2012 no domingo, na segunda-feira de manhã eu estava de plantão. Acabou a eleição de 2014, fui o deputado mais votado de Londrina, mas na segunda-feira, estava de plantão novamente. E o trabalho desenvolvido, também, na vida pública. E eu credito a isso. E muito me honra ganhar uma eleição, pela primeira vez na história no primeiro turno. Eu fico muito honrado, mas sei o tamanho da responsabilidade.

PP – Mas o sobrenome Belinati, não é um nome tradicional da política da cidade. Qual o legado que esse nome carrega. E as comparações com seu tio, o ex-prefeito Antonio Belinati?

MB – Já estou na vida pública há mais de 10 anos. Fui o vereador mais votado por duas oportunidades, fui o deputado federal mais votado de Londrina, e, agora, fui eleito prefeito. Cada pesso é uma pessoa e tem sua história. É claro que você ter um sobrenome reconhecido é bom, mas também você fica mais exposto, as pessoas olham com mais atenção para você. Mas o que importa é o seu trabalho. Você fica em evidência, para o bem e para o mal. A repercussão de seus atos é maior. Nossa família toda tem uma história de muita identidade com Londrina. Cada pessoa tem sua forma de agir e pensar. Minha mãe é irmã do Belinati, mas eles são em 11 irmãos, tem médicos, advogados, juízes, comerciantes e professores, como minha mãe. E, com todos eles, eu aprendi o que fazer e o que evitar. Formei minhas convicções e são elas que sigo. As comparações são naturais, mas eu procuro construir a minha história. O Belinati, como prefeito, teve experiências muito positivas, e experiências também negativas. Eu tiro lições desses dois lados.

PP – Antes mesmo da posse, o senhor está conduzindo uma espécie de concurso público para definir o seu secretário de Educação. Como isso vai funcionar?

MB – É um processo seletivo. A ideia é usar o cargo que é de indicação política para colocar uma pessoa técnica. Que o secretário de educação seja escolhido por meritocracia. Por capacidade, por discernimento, por amor à educação. Então, vai ser feito um processo seletivo pelo Instituto Vetor, que é uma instituição sem fins lucrativo, ou seja, não vai ter custo para a prefeitura. É uma instituição que busca talentos na iniciativa privada e na academia para o serviço público. Então, vai ser feita uma ampla avaliação, como se fosse escolher um diretor executivo de uma grande multinacional. E a ideia central é mudar a lógica. Os últimos cinco secretários foram indicados por vereador. Eu quero indicar por capacidade, por conhecimento. Por isso essa atitude inovadora do processo seletivo.

PP – E por que só na educação?

MB – Vamos fazer em outras áreas também. Mas é um processo muito elaborado, que demanda tempo. Eles vão analisar tudo. Vai ter análise curricular, vai ter análise da capacidade de liderança, se é uma pessoa agregadora. Vai ter banca, vai ter sabatina. Os educadores de Londrina nunca foram ouvidos sobre as políticas de educação e, agora, além de serem ouvidos têm a oportunidade de serem o secretário de Educação. Começamos por essa pasta exatamente pela importância que vejo na educação. A educação tem capacidade de mudar a história de uma comunidade. E ela precisa sair dos discursos de campanha e se tornar uma prioridade efetiva dos governos.

PP – Não há o risco de o senhor acabar nomeando um secretário sem afinidade ideológica com o prefeito ou com pensamentos incompatíveis com seu programa de governo, por exemplo?

MB – Por isso que eles não vão escolher o nome. Vão me passar de três a cinco nomes que julgarem, por critérios objetivos, terem capacidade de ser um bom secretário. Mas a última etapa será passar por uma entrevista comigo. E eu que vou definir esse nome. E também não existe uma obrigatoriedade. Se eu entender que nenhum dos indicados se encaixa, buscarei uma outra alternativa.

PP – Um mês e meio já se passou da sua eleição. Como está sendo a transição?

MB – Está sendo feito todo o levantamento da situação financeira da prefeitura. Agora estamos na fase de levantamento por secretaria, uma a uma. Os projetos em andamento, a situação do RH, se está faltando ou sobrando funcionário. Está caminhando bem e, quando concluirmos esses trabalhos, vamos dar publicidade para que a população saiba a real situação de nosso município

PP – E qual o diagnóstico inicial da situação financeira do município? Londrina enfrenta o mesmo problema que a maioria das cidades brasileiras?

MB – É uma situação muito delicada. Vamos ter muitos desafios. A previsão de deficit do que vai ficar de 2016 para 2017, o que seria necessário para manter programas em andamento, está na ordem de R$ 300 milhões. Até fizemos um esforço na Câmara dos Deputados para destinar mais emendas parlamentares aos municípios. Mas as emendas são destinadas a investimentos e o grande problema das prefeituras, hoje, é o custeio. Agora, você não pode parar. Não pode ficar apenas vendo e lamentando o problema. Tem que buscar soluções para esses problemas e ter um trabalho proativo para desenvolver projetos e obras que possam nos ajudar a buscar a melhoria da qualidade dos serviços prestados à população.

PP – Na campanha, o senhor prometeu investimentos pesados em saúde e na redução do déficit de vagas em creches na cidade, que chegam a 7 mil crianças na fila. Como resolver essas questões emergenciais sem recursos?

MB – Vamos ter que cortar na própria carne. Fazer a lição de casa. Reduzir secretarias, cortar cargos em comissão, fechar o ralo da perda de recursos públicos pela incompetência de gestão, buscar a eficiência administrativa, para que a gente possa ter um refresco para buscar a melhoria dos serviços. De que maneira atuar? Mudando procedimentos, buscando a modernização e a eficiência da gestão da máquina pública. De imediato, não é fácil solucionar problemas históricos. Vamos estabelecer um planejamento com metas claras. Não tenho dúvida que vamos melhorar muito a qualidade do atendimento de saúde à população de Londrina, buscar uma solução para a demanda de vagas em creches, mas tudo com planejamento e com meta. Não será do dia para a noite

PP – Quantas e quais secretarias serão cortadas?

MB – Hoje temos 29 órgão e secretarias em Londrina. A ideia não é cortar nenhum tipo de serviço, de programa ou de projeto, mas readequar a máquina administrativa de uma maneira que se possa ter uma diminuição de custos de manutenção junto com a melhora na efetividade da prestação de serviços. Tem muitas secretarias com vários cargos de indicação política, que poderiam funcionar com mais efetividade em uma estrutura só, mas ainda estamos estudando quais estruturas modificaremos.

PP – Londrina ganhou destaque no noticiário nacional por recentes casos de corrupção. Foi onde estourou a Operação Lava Jato e a Operação Publicano (cobrança de propina por auditores da Receita Estadual). Como senhor pretende lidar com essa questão?

MB – A corrupção é inerente do ser humano. Não tem relação com partido político, cidade ou estado. É uma questão de cada um. Caráter, ou se tem, ou não tem. Em Londrina, nós vamos fazer o enfrentamento desta questão. Não existe mais espaço para a corrupção no serviço público. E de que maneira atuar? Com transparência total dos atos da prefeitura, reforçando os órgãos internos de controle, dar autonomia e condições para que a controladoria atue com efetividade e as parcerias com órgãos externos, como o observatório de gestão e o ministério público. A nossa meta é ser o município mais transparente do Brasil. Mas eu rejeito totalmente essa relação de Londrina com esses casos. Londrina é a cidade mais maravilhosa do Brasil, formada por pessoas honestas, corretas, decentes e trabalhadoras. Houve essa infeliz coincidência de personagens. E houve também mérito do Ministério Público de Londrina, que é um dos mais atuantes do Brasil, que investigou uma situação que pode se repetir em diversas outras regionais, mas não foi investigada com o rigor que foi feito pelo Ministério Público daqui. O fato de esse caso de fraude na Receita Estadual ter sido descoberto aqui deve ser motivo de orgulho para a cidade, pois mostra que temos o melhor Ministério Público do Brasil.

PP – daqui a quatro anos, quando estiver fazendo uma avaliação de seu mandato, qual a grande mudança que quer ter visto na cidade?

MB – São muitas, Mas a principal é que eu quero acabar com as muralhas existentes na cidade. Londrina deixou de crescer e se desenvolver, atraindo novas empresas, porque a cidade estava um tanto quanto fechada. Essa visão, nós vamos mudar. Queremos uma Londrina globalizada. Que a cidade cresça e se desenvolva valorizando o empresariado local, mas aberta a investimentos de fora da cidade também. Então essa vai ser a grande marca da nossa administração: o crescimento e desenvolvimento econômico. Porque a partir do momento em que a cidade se desenvolve, ela arrecada muito mais recursos para investir em saúde, educação e segurança. Então, a meta da nossa gestão será essa: crescimento econômico para melhorar a qualidade dos serviços públicos de nossa cidade.

Previous ArticleNext Article
Repórter do Paraná Portal
[post_explorer post_id="398214" target="#post-wrapper" type="infinite" loader="standard" scroll_distance="0" taxonomy="category" transition="fade:350" scroll="false:0:0"]