Ministro da Educação defende cobrança de mensalidade na pós-graduação

Natália Cancian - Folhapress

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse nesta quarta-feira (22) ser contra cobrança de mensalidade de alunos na graduação, mas defendeu que isso ocorra para a pós-graduação, como em alguns cursos de mestrado.

“Cobrar dos alunos de graduação eu sou contra, porque é uma discussão que vai ser muito acalorada e a gente vai gastar uma energia gigantesca para poucos alunos que são de famílias ricas, mas que as vezes é de família rica e tem pai desnaturado”, disse.

“Mas eu acho que se a gente focar na cobrança de pós-graduação, você não tem que discordar. Está lá o bonitão com o diploma de advogado querendo fazer o mestrado. E aí tem que pensar em pagar. O aluno de graduação, acho que não, esse a gente poderia postergar. Mas o de pós, esse tem condição de pagar.”

Segundo o ministro, no entanto, a cobrança não valeria para todos os cursos. “Não é para toda pós-graduação, mas para algumas que têm visão de mercado, a gente aí poderia cobrar e daria mais receita em relação ao custo, energia e retorno financeiro.”


A afirmação ocorreu durante audiência em comissão Câmara dos Deputados. Mais cedo, o ministro já havia dito ser contra a cobrança de mensalidade na graduação, mas disse que alunos dessa etapa estariam em situação mais privilegiada em relação aos de outros níveis.

“Somos contra a cobrança de alunos na graduação. Não é nosso projeto. Mas a verdade é que esse aluno mesmo sendo pobre e humilde está numa situação melhor socialmente do que uma criança que não consegue entrar na escola ou em uma creche”, disse.

Ainda no encontro, o ministro buscou tentar minimizar o impacto do contingenciamento de verbas para as universidades. “Não adianta a gente achar que os recursos são infinitos. Nossos desejos são finitos”, disse.

Em nova tentativa de rebater críticas, Weintraub disse que universidades “não são um país à parte”.  “Sou 100% a favor da autonomia universitária. Acho inclusive que tem que dar mais. Mas autonomia não é soberania. [A universidade] É de quem paga imposto. Ela não é um país a parte”, afirmou.

Também voltou a defender que haja maior incentivo à produção científica de algumas áreas, como medicina e odontologia, em detrimento de outras, como as ciências humanas.

“Não adianta produzir um paper que ninguém vai utilizar”, disse. “Onde estão as bolsas e os recursos? Nas ciências humanas, aqui em cima”, disse mostrando gráficos. “A gente gasta, mas não tem resultado.”

Em meio ao debate, parlamentares da oposição contestaram as declarações e saíram em defesa das universidades.

“Não vou dizer que o senhor é um cretino. Mas que algumas das suas declarações são cretinas”, afirmou o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ), em referência à afirmação do ministro de que as universidades fazem “balbúrdia”.

Em seguida, exigiu que ministro pedisse desculpas à sociedade por suas declarações à imprensa. Outros deputados também questionaram dados apresentados pelo ministro e sua preparação para exercer o cargo.

O ministro rebateu. Em resposta a deputados da Bahia, estado com governo do PT, disse que universidades estaduais do estado também estão “em situação muito mais dramática do que qualquer coisa parecida que está acontecendo no governo federal”.

Houve bate-boca e tumulto entre parlamentares por alguns minutos. A sessão foi retomada minutos depois.

Ao retomar a palavra, Weintraub disse que estuda apresentar, até o fim deste mês, medidas em apoio às universidades, como projetos de incubadoras de empresas dentro das instituições e fundos imobiliários.

Ele não detalhou as ações. Para ele,  há pessoas que impedem a produção nesses locais. “Tem gente que quer produzir, quer trabalhar e não consegue. Não é 100% de anjo que está nas universidades”, disse.”Optei por dar aula em uma universidade federal, não para playboy, me identifico com o povo. Tem gente de partido da oposição que dá aula em universidade de rico. Eu prefiro estar com o povo com quem me identifico, com o povo moreno como eu, que sou moreno também”, disse.

Convocada para explicar os cortes nas verbas de educação, a audiência terminou em tumulto entre parlamentares e representantes do movimento estudantil.

A confusão começou após a presidente da mesa, a deputada Professora Marcivânia (PCdoB-AP) abrir espaço para que representantes dos estudantes pudessem falar durante a audiência. A abertura foi contestada por alguns deputados aliados do governo, que alegaram não terem tido espaço para fazer perguntas ao ministro. Houve tumulto.

Estudantes se aproximaram da mesa e foram empurrados por seguranças, que tentaram retirá-los do local. Minutos depois, o ministro saiu escoltado da comissão e a audiência foi encerrada em meio a vaias e protestos. “Para falar com o ministro da educação, onde mais temos que estar?”, questionou a presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), Mariana Dias. “Botar estudante para fora é postura de casa democrática? A partir de hoje, Bolsonaro e seu ministro não dormem mais em paz porque é estudante na rua. Se eles querem balbúrdia, a gente faz em defesa dos nossos direitos.”

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