Política
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Morre de Covid o ex-deputado Tilden Santiago, um dos fundadores do PT

Nascido em Nova Era (MG), Tilden Santiago foi um dos fundadores do PT, partido pelo qual exerceu três mandatos na Câmara dos Deputados

Cristina Camargo - Folhapress - 03 de fevereiro de 2022, 08:29

Reprodução Youtube/Assembleia de Minas Gerais
Reprodução Youtube/Assembleia de Minas Gerais

O ex-deputado federal Tilden Santiago morreu nesta quarta-feira (2), aos 81 anos, vítima de Covid. Em nota, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, lamentou a morte e lembrou a longa e diversa trajetória do político. "Foi padre-operário, administrador, filósofo, professor, jornalista, deputado federal e militante da causa ambiental", diz a nota. "Tilden deixa uma grande contribuição para as lutas do povo brasileiro, a quem dedicou sua luta e sua vida."

Nascido em Nova Era (MG), foi um dos fundadores do PT, partido pelo qual exerceu três mandatos na Câmara dos Deputados (1991-1995, 1995-1999 e 1999-2003). Também foi um dos fundadores da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e, no primeiro governo do ex-presidente Lula, atuou como embaixador do Brasil em Cuba. Tilden estudou humanidades no seminário de Mariana (MG) e teologia em Roma.

No seminário de Mariana, aprendeu a tocar saxofone, instrumento musical que marcou sua passagem por Cuba, onde costumava se apresentar em jantares e festas. Em Roma, acompanhou o Concílio Vaticano 2º e passou a fazer parte do movimento religioso em favor dos pobres. Na década de 1960, viveu um ano em um kibutz de Israel, trabalhando como serralheiro. Em entrevista à Assembleia Legislativa de Minas Gerais, ele contou que descobriu a política ao entrar na serralheria.

"No dia em que comecei a trabalhar com as minhas mãos, o ideal da política se fez presente em mim", disse. No kibutz, viveu na prática a ideologia socialista e praticou seu estilo conciliador, pois defendia os palestinos, mas tinha diálogo aberto com os judeus. De volta ao Brasil, em plena ditadura militar, foi militante da AP (Ação Popular) e da ALN (Aliança Libertadora Nacional), liderada por Carlos Mariguella. Quando o líder revolucionário escreveu uma carta a Dom Hélder Câmara, arcebispo emérito de Olinda e do Recife, Tilden foi o portador.

"Agradecemos o papel que o senhor exerce na caminhada do povo brasileiro e queremos prevenir que vai estourar a guerrilha rural e queremos ter o seu apoio", teria escrito Mariguella. "Dom Helder leu, dobrou a carta e comentou: hoje o tempo está chuvoso", lembrou o ex-padre, na entrevista à Assembleia. Depois das organizações clandestinas, Tilden filiou-se ao PC do B, foi preso político e trabalhou como jornalista após deixar o cárcere. Na prisão, escutou os gritos do líder estudantil Alexandre Vannucchi, morto sob tortura no DOI-Codi, em São Paulo.

Como padre-operário, viveu no Espírito Santo, na Paraíba, em Pernambuco e em São Paulo. Foi soldador, mecânico, trabalhador rural, jornalista e professor. Formado em filosofia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), teve carreira como professor universitário e fundou o Jornal dos Bairros, um marco da imprensa popular em Belo Horizonte. Ainda na década de 1970, filiou-se ao MDB para reforçar a oposição do partido à ditadura militar. No início da década seguinte, participou da fundação do PT e foi presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais.

Como parlamentar, assinou o projeto de lei que prevê a guarda compartilhada para filhos de pais separados. Foi embaixador do Brasil em Cuba de 2003 a 2007, em uma indicação política de Lula. Sem experiência diplomática e sacerdote, a indicação foi precedida de uma negociação com o líder cubano Fidel Castro. A proximidade com Marighella teria ajudado na empreitada.

Apesar da ligação de 28 anos com o PT, em 2007 o ex-embaixador aceitou convite do então governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), para ser assessor para assuntos ambientais da Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais). A decisão custou uma suspensão partidária, ameaça de expulsão e, no ano seguinte, a desfiliação.

"Depois de quatro anos de diplomacia, não vivo mais a luta interna. Meu gosto é pelo pluripartidarismo e pelo ecumenismo", ele disse na ocasião. Mais tarde, ao falar sobre o ex-partido, declarava ter ficado decepcionado com o mensalão, mas afirmava manter boas lembranças de ex-companheiros petistas.

Depois do PT, Tilden filiou-se ao PSB, ao PSOL e desde dezembro do ano passado estava no Cidadania. Morava em Contagem (MG). "Tilden teve relevantes serviços prestados ao nosso estado e ao nosso país. Com toda certeza fará muita falta. Deixo os meus sentimentos a toda a sua família e amigos", disse, em nota, o presidente do Cidadania em Minas Gerais, João Vítor Xavier. Ex-padre, ele deixa três filhos.