Política
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Motivação política de crime não é prevista em lei específica

A motivação política de um crime não está prevista em lei específica, mas pode ser um elemento para aumentar a pena, segundo especialistas.

Renata Galf - Folhapress - Flávio Ferreira - Folhapress - 17 de julho de 2022, 08:52

Arquivo/Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Arquivo/Marcello Casal Jr/Agência Brasil

A Polícia Civil do Paraná concluiu que o assassinato do guarda municipal petista Marcelo de Arruda pelo policial penal bolsonarista Jorge Guaranho teve motivo torpe e, tecnicamente, não será enquadrado como crime de ódio, político ou contra o Estado democrático de Direito, por falta de elementos.

A motivação política de um crime não está prevista em lei específica, mas pode ser um elemento para aumentar a pena, segundo especialistas.

Eles apontam que a motivação política de um crime é diferente de um crime político - que poderia ser aplicável no caso de crimes contra o Estado democrático de Direito.

Em relação aos crimes de ódio, eles são entendidos como aqueles que envolvem a aversão a determinados grupos e segmentos da população. Não existe na legislação brasileira, contudo, a previsão específica para isso.

A presidente nacional do PT e deputada federal Gleisi Hoffmann (PR) afirmou que "ficou evidente que a Polícia Civil do Paraná não quer reconhecer que foi cometido um crime de ódio com evidente motivação política que tem que ser investigada na alçada da Justiça Federal como requisitamos à Procuradoria-Geral da República".

A polícia diz que o crime ocorrido no último sábado (9) em Foz do Iguaçu teve início a partir de uma provocação do bolsonarista seguida de discussão por questões políticas. Mas diz que, para enquadrá-lo como um crime político, seriam necessários requisitos como o de tentar impedir ou dificultar outra pessoa de exercer direitos políticos.

A adoção da tese de homicídio qualificado também ocorreu no caso do mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, que foi morto a facadas após uma discussão política em Salvador em 2018. O autor do crime, o barbeiro Paulo Sérgio Ferreira de Santana, foi condenado em 2019 a 22 anos de prisão por homicídio duplamente qualificado: por motivo fútil e impossibilidade de defesa da vítima.

Conhecido como Moa do Katendê, Costa estava em um bar no bairro do Engenho Velho da Federação, periferia de Salvador, quando discutiu com Santana sobre a eleição presidencial. O capoeirista defendeu o voto em Fernando Haddad (PT) enquanto o agressor, aos gritos, defendia o apoio a Jair Bolsonaro, então no PSL -ambos disputaram o segundo turno.

Mas há uma diferença técnica entre os casos de Marcelo e Moa do Katendê: no primeiro o enquadramento foi por motivo torpe, e no segundo por motivo fútil.

A advogada criminalista Ana Carolina Moreira Santos explica que o conceito de motivo torpe está mais ligado a condutas imorais e o de motivo fútil se aproxima mais da ideia de banalidade, insignificância e desproporção entre o crime e a causa.

Ambas situações qualificadoras estão previstas no artigo 121 do Código Penal. A pena do homicídio simples vai de 6 a 20 anos de prisão, mas se praticado com motivo torpe a punição sobe para 12 a 30 anos.

CRIME DE ÓDIO

Em geral, crimes de ódio são entendidos como aqueles que envolvem a aversão a determinados grupos e segmentos da população. Não existe na legislação brasileira, contudo, a previsão específica de crime de ódio. Assim, não há um tipo penal expresso denominado crime de ódio com motivação política.

"Apesar da ausência desse rótulo específico, há normas no direito brasileiro que se enquadram ou podem incidir nesses casos", explica o advogado criminalista Vinícius Assumpção

Ele aponta que o homicídio praticado com base em ódio a determinado grupo politico pode ser considerado como crime qualificado. Isso porque, neste caso, o ódio político seria considerado como motivo fútil ou torpe.

Para Samuel Vida, professor de direito constitucional da UFBA (Universidade Federal da Bahia), falar em motivação política do crime é diferente de crime político - o que ele considera que se aplicaria no caso de crimes contra o Estado democrático de Direito. "Motivação política é diferente de crime político. Nós estamos falando da qualificação que dá o sentido ao crime e que portanto explica e serve de parâmetro interpretativo para avaliar a gravidade do crime", disse.

Além disso, o exemplo mais evidente dentro do guarda-chuva dos crimes de ódio são as condutas previstas na Lei Caó, também conhecida como Lei do Racismo e que pune com pena de prisão o ódio racial, religioso ou de procedência nacional, diz Assumpção.

Por decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), também a homofobia e da transfobia foram equiparadas ao crime de racismo até que o Congresso Nacional aprove uma legislação a respeito.

Outro exemplo é o feminicídio, em que a pena do crime de homicídio é aumentada quando o crime envolve violência doméstica e familiar ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher.

VIOLÊNCIA POLÍTICA

Desde o ano passado, o Brasil possui em sua legislação os crimes contra o Estado democrático de Direito. Eles foram aprovados no mesmo projeto que revogou a antiga Lei de Segurança Nacional, que era considerada um resquício autoritário da ditadura no ordenamento jurídico do país.

Um dos ilícitos previstos foi o crime de violência política, que consiste em restringir, impedir ou dificultar "o exercício de direitos políticos a qualquer pessoa em razão de seu sexo, raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional", com emprego de violência física, sexual ou psicológica. A pena é de três a seis anos de reclusão e multa.

O texto aprovado pelo Congresso também criminalizava o atentado a direito de manifestação, porém, este item foi vetado pelo presidente.

Ele consistiria no ato de "impedir, mediante violência ou grave ameaça, o livre e pacífico exercício de manifestação de partidos políticos, de movimentos sociais, de sindicatos, de órgãos de classe ou de demais grupos políticos, associativos, étnicos, raciais, culturais ou religiosos".

Adélio Bispo de Oliveira, autor da facada em Bolsonaro na campanha de 2018, foi denunciado e se tornou réu por um dos crimes previstos na agora revogada Lei de Segurança Nacional. No caso, no artigo 20, que definia o crime de "atentado pessoal por inconformismo político". A pena era de 3 a 10 anos de prisão, que poderia ser dobrada em caso de lesão corporal grave.

De acordo com a investigação, isso ocorreu porque o agressor disse que o que o motivou a cometer o atentado foi sua discordância das posições políticas de Bolsonaro.

VEJA O QUE SE SABE DO CASO DE PETISTA MORTO

COMO E ONDE OCORREU O CRIME?

O ataque aconteceu durante o aniversário de 50 anos de Marcelo de Arruda, comemorado com uma festa temática do PT.

Segundo relatos à polícia, Jorge José da Rocha Guaranho passou de carro em frente ao salão de festas dizendo "aqui é Bolsonaro" e "Lula ladrão", além de proferir xingamentos. Saiu após rápida discussão e disse que retornaria.

De acordo com as testemunhas, Arruda foi a seu carro e pegou uma arma para se defender.

Guaranho voltou, invadiu o salão de festas e atirou em Arruda. O petista, já ferido no chão, também baleou o bolsonarista. Uma câmera de segurança registrou o crime. Ele foi velado e enterrado na segunda (11).

O QUE A POLÍCIA SABE SOBRE O CASO?

A Polícia Civil do Paraná anunciou na sexta (15) a conclusão do inquérito que investigou em menos de uma semana o assassinato de Marcelo Arruda pelo policial penal bolsonarista Jorge Guaranho.

Segundo a polícia, o crime teve motivo torpe e, tecnicamente, não será enquadrado como crime de ódio, político ou contra o Estado democrático de Direito, por falta de elementos.

A polícia admite que tudo começou com uma provocação do bolsonarista seguida de discussão por questões políticas e ideológicas. Mas diz que, para enquadrá-lo como crime político, seriam necessários requisitos para como o tentar impedir ou dificultar outra pessoa de exercer direitos políticos.

Jorge foi indiciado sob suspeita de homicídio duplamente qualificado. Segundo a polícia, na tarde de sábado, Jorge estava em um churrasco regado a bebidas, ficou sabendo da festa temática do PT e decidiu agir -outro convidado do churrasco era funcionário do clube no qual Marcelo havia alugado o salão e, por isso, tinha acesso às câmeras de segurança.

A pena de homicídio simples prevista na legislação vai de 6 a 20 anos de prisão. Com motivo torpe, pode ir de 12 a 30 anos.

QUAL A LIGAÇÃO DO MILITANTE MORTO COM O PT?

Arruda era tesoureiro do PT municipal em Foz do Iguaçú (PR). No partido havia mais de dez anos, concorreu a vereador e a vice-prefeito em eleições recentes.

O Partido dos Trabalhadores divulgou nota lamentando a morte e afirmando que ela se deu por crime de ódio por um bolsonarista.

A presidente nacional do partido, deputada federal Gleisi Hoffmann (PR), divulgou fotografias do militante em sua festa de aniversário. Ele aparece posando ao lado de decorações temáticas em homenagem ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao partido.

QUEM É O ASSASSINO DO POLÍTICO PETISTA?

O policial penal [trabalha em unidades prisionais] bolsonarista Jorge José da Rocha Guaranho, que matou o guarda municipal petista Marcelo de Arruda, é um dos diretores da associação onde o crime aconteceu, segundo a Polícia Civil do Paraná. Guaranho, que foi baleado, se define como conservador e cristão. Ele usa as redes sociais principalmente para defender Bolsonaro, se diz contra o aborto e as drogas e considera arma sinônimo de defesa.

O CASO PODE SER FEDERALIZADO?

A PGR (Procuradoria-Geral da República) disse que compete à Justiça estadual no Paraná a investigação sobre o assassinato de Marcelo Arruda pelo bolsonarista Jorge José da Rocha Guaranho.

Na segunda (11), a cúpula do PT anunciou pedido ao órgão para federalização do caso. Mas, para a PGR, as apurações seguem curso normal no estado, sem indícios, até o momento, de omissão por parte das autoridades locais.

O PT defende que até hoje não houve conclusão das investigações estaduais sobre um ataque a tiros contra ônibus da caravana do ex-presidente Lula no interior paranaense, em 2018, e que o caso de Foz do Iguaçu não é uma situação isolada.

O QUE ACONTECEU COM O AGRESSOR?

Na segunda-feira, a Justiça decretou a prisão preventiva de Guaranho. A decisão veio após a prisão em flagrante do atirador, no domingo e pedido do Ministério Público do Paraná e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), que acompanha as investigações.

De acordo com o MP-PR, a Justiça entendeu que o policial penal coloca em risco a ordem social, "se revelando necessária a contenção cautelar para evitar a reiteração criminosa".

Ele segue internado em estado grave.

LULA SE MANIFESTOU SOBRE O CASO?

Sim. O ex-presidente comentou o caso em suas redes sociais e afirmou que Arruda "evitou uma tragédia maior".

O ex-presidente disse que o brasileiro é "um povo de paz" e que é preciso "recuperar a normalidade" no país.

O CRIME PODE ACIRRAR AINDA MAIS A DISPUTA ELEITORAL?

Sim. Outros episódios de violência contra o PT têm sido registrados nos últimos dias.

Na quinta-feira (7), um evento com apoiadores do petista na Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, foi alvo de um artefato explosivo.

A bomba caseira, aparentemente feita de garrafa PET, foi lançada do lado de fora da área isolada em frente ao palanque, antes da chegada de Lula.

No último dia 15, apoiadores do ex-presidente foram alvo de drone com um líquido antes de um ato com a presença de Lula em Uberlândia, Minas Gerais.

Como a Folha de S.Paulo mostrou, a Polícia Federal decidiu antecipar e reforçar o aparato de segurança do ex-presidente Lula.

O que o presidente Bolsonaro disse sobre o crime?

Em sua primeira manifestação sobre o assassinato do militante petista Marcelo Arruda por um bolsonarista, o presidente Jair Bolsonaro (PL) disse que dispensa o "apoio de quem pratica violência contra opositores", mas, no mesmo pronunciamento, atacou a esquerda.

"Dispensamos qualquer tipo de apoio de quem pratica violência contra opositores. A esse tipo de gente, peço que por coerência mude de lado e apoie a esquerda, que acumula um histórico inegável de episódios violentos", escreveu.

A maioria dos aliados do presidente, geralmente ativa nas redes sociais, preferiu o silêncio, nas horas após a morte.