No Senado, Ana Júlia volta a usar expressão “mãos sujas”

Narley Resende


Em pronunciamento na Comissão dos Direitos Humanos do Senado, na manhã desta segunda-feira (31), a estudante Ana Júlia Ribeiro, de 16 anos, criticou movimentos contrários aos estudantes de ocupações em escolas públicas, por ‘métodos que atacam pessoas e não os ideais’.

A estudante do Colégio Estadual Senador Alencar Guimarães, que está ocupado em Curitiba, voltou a usar a expressão “mãos sujas”, agora em referência aos senadores que podem aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabelece um teto para os gastos públicos federais nas próximas duas décadas.

A reunião em que Ana Júlia participou na Comissão foi convocada para debater impactos da PEC na área de educação. A audiência contou com a presença de senadores do PT, representantes de associações da área da educação e estudantes.

Visivelmente nervosa, mas sorridente, Ana Júlia disse que os estudantes vão desenvolver métodos de desobediência civil, permanecer pacíficos e provar que estão no caminho certo.

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A estudante paranaense que chegou a ser comparada com Malala Yousafzai, ativista paquistanesa que se tornou a pessoa mais jovem a ganhar um Nobel da Paz pela sua defesa à educação de meninas no Paquistão, usou seu espaço no Senado para defender a derrubada da Medida Provisória 746, que propõe mudanças no Ensino Médio, e da PEC 55 (antiga PEC 241), que estabelece um limite para os gastos públicos pelos próximos 20 anos.

A PEC 241 foi aprovada na Câmara e agora tramita no Senado com nova numeração, o que não implica necessariamente em uma mudança no conteúdo da proposta.

“Só temos a dizer que até o dia 20 de janeiro de 2017, nós esperamos e acreditamos que ela (MP 746) não se concretiza em lei”, disse a estudante.

Ana Júlia fez referência ao ponto mais dramático de sua fala na Tribuna da Assembleia Legislativa do Paraná, quando disse que os deputados “têm as mãos sujas de sangue”, em referência à morte de Lucas Eduardo Araújo Mota, um estudante de 16 anos que foi morto em uma escola ocupada em Santa Felicidade, também em Curitiba.

“Em relação à PEC 55, a antiga PEC 241, nós estudantes só temos de dizer uma coisa: aqueles que votarem contra a educação estarão com suas mãos sujas por 20 anos”, disse em referências aos senadores que analisarão a proposta.

Seu discurso na Assembleia do Paraná virou um sucesso nas redes sociais e repercutiu na imprensa nacional e internacional. A revista Forbes, por exemplo, chegou a chamá-la de “futuro da juventude brasileira“.

A estudante improvisou no discurso aos senadores, olhando eventualmente para um papel. Leia a transcrição:

Excelentíssima presidenta senadora Fátima Bezerra, excelentíssimos senadores e senadoras aqui presentes, aos colegas de luta, e aos demais presentes, bom dia.

Devido aos acontecimentos da última semana, acredito que todos vocês já saibam que eu sou Ana Júlia, estudante secundarista, do Colégio Estadual Senador Alencar Guimarães localizado em Curitiba, tenho 16 anos. Na última quarta-feira fiz uma fala na qual eu não entendi porquê tamanha repercussão, já que ela se trata de algo tão básico, ou que pelo menos deveria.

Eu já peço desculpas se eu vos decepcionar hoje, mas eu peço que lembrem que eu sou estudante de escola pública. Tanto em toda minha trajetória estudantil, quanto ontem visitando as escolas em Brasília, eu percebi a precaridade do ensino público. Percebi como nós precisamos dar enfase nisso, como nós precisamos melhorar a educação pública, como temos falta de infraestrutura, e como precisamos realmente voltar nossos olhares a isso.

Nós estudantes, em relação à Medida Provisória 746, só temos a dizer que até o dia 20 de janeiro de 2017, nós esperamos e acreditamos que ela não se concretiza em lei. Nós esperamos que aproveitem essa oportunidade de levar ela aos profissionais da Educação, que ela seja debatida, que a sociedade possa debater sobre ela. Que a voz dos estudantes sobre ela possa ser escutada. Que a voz do movimento estudantil seja ouvida. Que os profissionais da área tenham espaço e tenham como debatê-la, tenham como estudá-la.

Nas nossas ocupações nós frisamos muito o ensino público de qualidade. Nós frisamos a importância dele, nós frisamos a legitimidade do nosso movimento. Nós frisamos que estamos lá porque acreditamos no futuro do Brasil. E, infelizmente, nós temos sofrido repressão de movimentos contrários. Infelizmente a repressão tem sido violenta. Repressão essa, a qual na calada da noite, passa nas escolas. Repressão essa que na calada da noite passa o som alto do hino nacional, como se nós não respeitássemos o hino. Repressão essa que olha para nós e nos desmoraliza. Desmoraliza para o nosso pessoal. que usa de táticas abusivas, que usa para falar da nossa pessoa e não dos nossos ideais.

Sem sombra de dúvida, somos contra essa repressão agressiva. Nós defendemos o direito que eles têm de serem contrários. Nós vivemos em uma democracia e sabemos que é importante ter os dois lados. Só que a repressão violenta nós abominamos e vamos continuar abominando porque nós estamos lá pacificamente, nós estamos lá lutando por uma educação pública de qualidade, e estamos lá na paz, e estamos lá conversando. Estamos lá priorizando o diálogo aberto. E por isso que vamos abominar essa violência que está sendo feita contra nós estudantes e contra a educação.

Nesse período de ocupação que eu presenciei em Curitiba na minha escola e ontem aqui em Brasília, eu aprendi, não só eu mas todos os estudantes, aprendemos um novo significado de resistência. Aprendemos que a resistência não acaba quando a gente sai do portão da escola. A gente aprendeu que a resistência é quando olham para nós e falam ‘larga isso, larga porque vocês não vão conseguir nada, que vocês estão do lado errado’ a gente olha para eles, ergue a cabeça e fala ‘não’, ‘eu não vou largar’. É quando a gente ergue a cabeça e fala ‘eu acredito na educação pública’. ‘Eu acredito no futuro do Brasil’e ‘eu vou continuar lutando’.

E vamos continuar lutando da mesma maneira: pacificamente. Nós vamos desenvolver métodos de resistência, pacíficos e que valorizem o movimento estudantil, que provem tudo isso que estamos falando: que nós somos estudantes pelos estudantes, que nós somos pacíficos, e que nós vamos continuar pacíficos. Nós vamos desenvolver métodos de desobediência civil. Nós vamos levar a luta estudantil para frente Nós vamos mostrar que não estamos aqui de brincadeira, e que o Brasil vai ser um país de todos.

Em relação à PEC 55, a antiga PEC 241, nós estudantes só temos de dizer uma coisa: aqueles que votarem contra a educação estarão com suas mãos sujas por 20 anos.

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