Depoimento começa com bate-boca entre Lula e juíza

Andreza Rossini


O ex-presidente Lula prestou depoimento à juíza substituta Gabriela Hardt, da 13ª Vara Federal de Curitiba, que está conduzindo os processos da Operação Lava Jato. O interrogatório é referente ao processo do Sítio de Atibaia, que teria sido reformado pela Odebrecht para o ex-presidente e durou três horas.

Logo no início do depoimento, Lula afirmou à Gabriela não sabia por quais crimes estava respondendo no processo e pediu esclarecimentos. Gabriela afirmou que as acusações eram de lavagem de dinheiro e corrupção. Lula ironizou “eu achei que estavam me acusando de ser dono do sítio”, disse. “Eu preciso que você me responda, eu sou dono do sítio ou não?”, questionou o ex-presidente.

Gabriela foi taxativa. “Isso é o senhor que tem que responder, não eu. Eu não estou sendo interrogada, nesse momento. Isso é um interrogatório, se usar esse tom comigo você terá problemas, então vamos começar de novo”, disse. “Eu sou a juizá do caso e vou fazer as perguntas que eu preciso para que eu ou algum colega possa sentenciá-lo”, afirmou.

A juíza foi interrompida pelo advogado do ex-presidente, José Batochio. “O interrogatório é o ato em que o acusado exerce a auto-defesa e precisa ter a maior absoluta liberdade para expor os fatos e indagar a respeito do que está sendo acusado”, afirmou.

Após questionar se o advogado precisava deixar a sala para orientações à Lula, Gabriela disse: “Ele tem total liberdade para falar, sem me responder com perguntas os acusações”. O ex-presidente se apresentou como “desconfortável”, mas preferiu não ficar em silêncio.

Os enfrentamentos continuaram durante o depoimento. Batochio pediu para que a juíza permitisse que Lula concluísse seu raciocínio. “Eu vou permitir que ele conclua para responder os meus questionamentos. Mas se ele desviar do assunto, vou interromper”, disse Gabriela.

A magistrada exigiu que Lula fosse específico nas respostas às questões durante o depoimento. Essa não é a primeira vez que houve discussão em audiências de Lula. Veja: Audiência de Lula começa com bate-boca sobre celulares em audiência

O processo

De acordo com a denúncia do MPF, o ex-presidente Lula seria responsável por comandar “uma sofisticada estrutura ilícita para captação de apoio parlamentar, assentada na distribuição de cargos públicos na Administração Pública Federal” e teria recebido cerca de R$ 870 mil em vantagens indevidas em forma de reformas, construção de anexos e outras benfeitorias no Sítio de Atibaia.

A denúncia foi elaborada com base em depoimentos, documentos apreendidos, dados bancários e fiscais bem como outras informações colhidas ao longo da investigação, todas disponíveis nos anexos juntados aos autos.

Após ouvir os réus, a juíza responsável recebe as alegações finais e aplica a sentença, sem um prazo definido.

Outras 12 pessoas são rés na ação. Já foram ouvidos Emílio e Marcelo Odebrecht. Marcelo afirmou que as obras foram realizadas para “pessoa física” do ex-presidente e que toda família Odebrecht sabia que o sítio era do petista. Também já prestou depoimento o empresário Fernando Bittar, um dos donos do sítio, que disse que não achou que havia algo de ilícito nas obras. Ele as classificou as como “obras simples, que foram superdimensionadas”.

Lula está preso por corrupção e lavagem de dinheiro na sede da Polícia Federal, em Curitiba, desde 7 de abril. Esta é a primeira vez que ele deixa a carceragem.

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