Operação Lava Jato
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Minha nomeação nada tem a ver com o Lula

Sergio Moro precisou, em boa parte de sua entrevista coletiva desta terça-feira, explicar os motivos que o levaram a ace..

Roger Pereira - 06 de novembro de 2018, 17:11

CURITIBA, PR - 06.11.2018: COLETIVA SERGIO MORO - O juiz federal, Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava-Jato, concedeu nesta terça-feira (06) uma entrevista coletiva na sede da Justiça Federal, em Curitiba, para falar de sua aceitação para o cargo de Ministro da Justiça do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). (Foto: Henry Milleo /Fotoarena/Folhapress) ORG XMIT: 1635558
CURITIBA, PR - 06.11.2018: COLETIVA SERGIO MORO - O juiz federal, Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava-Jato, concedeu nesta terça-feira (06) uma entrevista coletiva na sede da Justiça Federal, em Curitiba, para falar de sua aceitação para o cargo de Ministro da Justiça do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). (Foto: Henry Milleo /Fotoarena/Folhapress) ORG XMIT: 1635558

Sergio Moro precisou, em boa parte de sua entrevista coletiva desta terça-feira, explicar os motivos que o levaram a aceitar o convite para ser ministro da Justiça no governo Jair Bolsonaro (PSL) e afastar contradições e críticas de que tenha sido nomeado por conta da influência política de sua conduta na Lava Jato ou que tenha agido por interesses políticos ao longo dos julgamentos as ações penais referentes ao caso. Moro disse que sua nomeação não tem qualquer relação com a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso na Lava Jato e que, por isso, não participou das eleições presidenciais deste ano, vencidas por Bolsonaro.

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“Isso não tem nada a ver com Lula, que foi condenado e preso porque cometeu um crime e não por conta das eleições. A condenação já foi confirmada por corte superior, que determinou a prisão e eu apenas cumpri”, disse Moro. “Alguns interpretaram que o convite foi uma ‘recompensa’, numa visão equivocada, pois a Justiça apenas cumpriu seu dever. Não posso pautar a minha vida com base numa fantasia de um álibi falso, de perseguição política”, acrescentou.

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O juiz disse, ainda que as ligações de interesse político em sua nomeação partem de “informações distorcidas partidas do pressuposto que o ex-presidente foi condenado injustamente e por ato pessoal do juiz Moro. A conclusão de que houve recompensa só se baseia nesta desinformação. Minha sentença é de meados de 2017, sem qualquer relação com a eleição. Eu cumpri minha missão, assim como cumpri em diversos outros casos".

Moro disse que só conheceu Bolsonaro pessoalmente na reunião que eles tiveram no Rio de Janeiro, no último dia 1º, mas admitiu que foi convidado para o novo governo uma semana  antes do segundo turno das eleições, a partir de uma ligação do futuro ministro da Economia, Paulo Guedes. “Fui procurado pelo Paulo Guedes em 23 de outubro, que me questionou sobre meu interesse de compor o governo. Eu disse que só poderia tratar disso depois das eleições e expliquei que tipo de projeto seria necessário para eu assumir essa posição. Depois das eleições houve o convite público e o encontro em 1º de novembro, quando conversamos, vimos as convergências e divergências e concluímos que podemos chegar ao meio termo”.

Questionado sobre decisões polêmicas que tomou durante o período eleitoral, como a divulgação de parte da delação premiada do ex-ministro Antonio Palocci, ou o adiamento do depoimento de Lula, marcado por ele mesmo para o período de campanha, Moro disse que se pautou pela transparência e pela segurança que sempre nortearam a Lava Jato. “A Lava Jato sempre se pautou pela a transparência. Não cabe ao Judiciário ser guardião de segredos de políticos. Sempre foi assim. Sempre fui criticado pela publicidade, mas é a transparência que marcou esses quatro anos da Operação. Vocês falam tanto das notícias falsas, as fake news, isso (divulgação da delação de Palocci) foi direito à informação. Eu não tinha direito de não tornar pública”, afirmou. Sobre o adiamento do depoimento de Lula, ele disse que identificou riscos “porque em todos os depoimentos anteriores houve mobilização de militantes e poderia até haver confrontos. Havia, ali uma razão de segurança”.

Moro também negou que sua resposta positiva a Bolsonaro foi condicionada a uma futura indicação para o Supremo Tribunal Federal, quando da aposentadoria do decano Celso de Mello, prevista para novembro de 2020. “Não estabeleci condições. Fui com uma pauta mostrando nossas convergências e divergências superáveis. Não existe vaga no STF, então não é apropriado discutir isso atualmente”.

O futuro ministro também foi questionado sobre como lidar tendo que negociar com um Congresso recheado de políticos investigados e tendo como colegas de governo pessoas investigadas e até condenadas, como por exemplo o futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que admitiu ter campanhas políticas financiadas por caixa 2. “Tenho admiração pelo Onyx, acompanhei o trabalho dele na tramitação das 10 medidas e ele foi um dos poucos deputados que defendeu a aprovação daquele projeto, mesmo sofrendo ataques severos de parte de seus colegas. Ele admitiu seus erros, pediu desculpas por esses casos do passado”.

O magistrado ainda disse não ver nenhuma irregularidade em pedir férias do Judiciário nestes dois últimos meses do ano para dedicar-se ao planejamento do ministério e à transição de governo. “A discussão sobre as férias parte de uma premissa equivocada. Eu não posso assumir cargo e não fiz. Por ora, me afastei e no momento próximo á nomeação, vou me exonerar”, disse. “Não estou praticando atos no presente, estou planejando o futuro. Não enriqueci no serviço público. Preciso desses vencimentos. Ainda previno sobre ameaças. Se peço exoneração hoje e acontece algo comigo no próximo mês, como fica minha família? Sinceramente, não vejo problemas. Parece que estão pautando por fantasmas da mente. Qual o problema de o juiz tirar férias para planejar o que vai fazer no futuro?”, prosseguiu.

O futuro ministro disse, ainda, não acreditar ser uma ferramenta de marketing do governo Bolsonaro. “Estou indo para Brasília para realizar um bom trabalho na convergência de planos que foi discutida. Se for explorado politicamente, será resultado do bom trabalho, é natural. Não acho que haja uma precedência de uma coisa sobre outra”.