“O delator mente”, diz irmão de Richa

Narley Resende


José Richa Filho, conhecido como Pepe Richa, irmão do governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), afirmou em nota divulgada neste domingo (21) que o executivo Ricardo Saud, da JBS, mentiu em delação homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Atual secretário de Estado de Infraestrutura e Logística do Paraná, Pepe Richa afirma que não recebeu nenhum dinheiro de Saud.

“Repudio as falsas afirmações a mim dirigidas pela pessoa do “delator” da JBS Ricardo Saud, de quem não recebi dinheiro algum. Em 2014, sequer fiz parte do comitê financeiro de campanha do PSDB. Repito: não peguei e não recebi valor algum da JBS. O delator mente”, diz a nota.

À Procuradoria-Geral da República (PGR), Saud, diretor de Relações Institucionais e Governo da gigante do setor de alimentos, afirmou que entregou R$ 1 milhão em espécie ao irmão do tucano.

A entrega do dinheiro teria ocorrido no carro do irmão do governador, na porta de um supermercado em Curitiba. No anexo 36 da delação, Pepe é citado como “emissário de Beto Richa”.

“[Foi] R$ 1 milhão, entregue por mim, Ricardo Sauad, para o Pepe Richa, irmão do governador Beto Richa, na porta do supermercado, no carro do Pepe Richa, lá em Curitiba”, disse o delator em depoimento à PGR.

Em mais de duas mil páginas, os empresários Joesley e Wesley Batista, donos da JBS, relatam esquemas de pagamento de propina para 1.829 candidatos de 28 partidos no Brasil. De acordo com a delação, parte das propinas eram pagas por meio de doações oficiais. Entre os citados está o governador Beto Richa.

A PGR decidirá posteriormente se há elementos suficientes para pedir abertura de inquérito contra Richa no âmbito do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que é o foro competente para julgar governadores.

 

delação

Richa tem outros inquéritos no STJ

Beto Richa já é alvo de duas investigações no Superior Tribunal de Justiça (STJ). No ano passado, a Corte autorizou investigações sobre o suposto envolvimento de Richa no esquema de corrupção na Receita Estadual revelado pela Operação Publicano.

No fim de março, o tribunal autorizou que se apure a suposta participação do governador em irregularidades na concessão de licenças ambientais na região do Porto de Paranaguá, no Litoral do estado.

No âmbito da Lava Jato, o STJ poderá autorizar nas próximas semanas apurações a respeito do suposto recebimento de caixa 2 pelo tucano, pela Odebrecht, nas eleições de 2008, 2010 e 2014.

Leia a nota de Pepe Richa na íntegra:

“NOTA DE ESCLARECIMENTO

Organizações criminosas atuaram no Brasil em conjunto com segmentos políticos, saquearam os cofres públicos, fizeram terra arrasada com festival de propinas e milionárias ampliações patrimoniais. Mais do que isso, descobrimos agora: institucionalizou-se o modelo de desvio e incorporou-se nas entranhas do funcionamento do Estado um vultoso esquema de corrupção.

A tudo isso expresso o sentimento da mais profunda repulsa e indignação, que se soma àquela dos milhões de cidadãos de bem que esperam justiça e punição aos responsáveis.

Assim, não aceito a violência que representa promover criminosos confessos da dilapidação milionária a ganhadores contemplados com o perdão de seus pecados, mediante o descredenciamento sistemático da boa política e das pessoas honestas que a integram.

Em maior intensidade ainda, repudio as falsas afirmações a mim dirigidas pela pessoa do “delator” da JBS Ricardo Saud, de quem não recebi dinheiro algum. Em 2014, sequer fiz parte do comitê financeiro de campanha do PSDB. Repito: não peguei e não recebi valor algum da JBS. O delator mente.

Meus atos falam por si. Sei de minhas obrigações como gestor público, que deve ser de redobrada atenção, cuidado permanente e total compromisso com a coisa pública.

Ao tempo em que enalteço a Justiça como pedra fundamental da democracia, volto os olhos para o respeito ao Estado de Direito, vilipendiado pelo crime que compensa e pelo escárnio da voz do delator que acusa levianamente, tentando comprometer a presunção de inocência com a banalização da barbárie.

A política, de igual forma, representa um patamar estruturante da democracia. Sem a política decente, não há futuro decente para os nossos filhos.

Acusações manipuladas não podem vir ao encontro do enlace inquisitorial com nossas instituições, sob pena de proliferarem ondas sucessivas de violência que, ao fim e ao cabo, resultam no desmanche do Estado.

Confio na capacidade de discernimento das pessoas de bem, na afirmação da verdade e na atuação isenta da Justiça, fiel escudeira do respeito à lei e à manutenção do Estado de Direito. Repilo as suspeições oportunistas, que visam apenas a redução de pena de criminosos confessos. Urge que a Justiça separe o joio do trigo, e se manifeste com veemência após a necessária, rápida e profunda investigação de todos os malfeitos relatados. Acredito que ainda vale a pena ser honesto no Brasil. Mesmo que malfeitores tentem nos confundir com os canalhas.

José Richa Filho”

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