Odebrecht manifesta solidariedade com Marcelo

Narley Resende


O Grupo Odebrecht manifestou solidariedade com o ex-presidente da holding, Marcelo Odebrecht, após sua saída da prisão nesta terça-feira (19). Após 2,5 anos encarcerado em Curitiba, Marcelo chegou a São Paulo por volta das 15h, onde vai cumprir mais 2,5 anos em regime domiciliar, com tornozeleira eletrônica. Nesse período, o magnata só poderá sair de casa duas vezes com autorização judicial.

Por meio de nota, a empresa afirma que reconhece as adversidades enfrentada pelo empresário. “A Odebrecht manifesta solidariedade com Marcelo, esposa e filhas por seu retorno ao convívio familiar. Marcelo conta com o reconhecimento da empresa por enfrentar as adversidades atuais com coragem e espírito de colaboração.”, diz a nota.

O herdeiro do Grupo Odebrecht foi para sua casa, de 3 mil metros quadrados, no Morumbi, em São Paulo. Ele teve que pagar R$ 73 milhões de multa pessoal, por ser considerado o mandante de crimes cometidos pela Odebrecht no esquema de corrupção da Petrobras.

Marcelo deve ficar mais 2,5 anos em casa, completando cinco anos de regime fechado. Até agora ele ficou 914 dias encarcerado. Após cinco anos completos em 2020, Marcelo vai para o semiaberto, por mais dois anos e meio, quando ele poderá sair de casa, mas deverá se recolher à noite e aos fins de semana e feriados além de prestar serviços comunitários; depois vai para o regime aberto, com obrigações com a Justiça, pelo mesmo período e, por fim, em 2025, estará em liberdade.

A pena de 31,5 anos anos com duas condenações foi reduzida para 10 anos, com o acordo de colaboração do qual não pretende descuidar nesse período.

Família

Na saída de seu cliente da audiência de custódia, na 12ª Vara Federal de Curitiba, nesta terça-feira, o advogado Nabor Bulhões afirmou que Marcelo optou por se dedicar à colaboração com a Justiça.

“Marcelo, a partir do momento em que resolveu, como opção existencial, colaborar, ele se preocupou basicamente com duas coisas. Primeiro, com a progressão de regime e [depois] voltar ao convívio familiar (…). Ele externou a nós advogados que o grande objetivo dele nessa nova fase de sua vida é, repito, voltar ao convívio familiar, algo muito caro para ele, e ser efetivo em sua colaboração. Ele não tem qualquer outro plano e qualquer outro objetivo”, disse.

No último dia 11, a Odebrecht S/A, holding que reúne os negócios da família Odebrecht, anunciou mudança em sua política de governança para separar acionistas e gestão. A empresa afirmou que, a partir de agora, o diretor-presidente da Odebrecht S/A não poderá ser mais membro da família. O executivo, porém, será escolhido pelo presidente do conselho, cargo hoje exercido por Emílio Odebrecht. Marcelo, que não poderia correr o risco de ferir termos do acordo de delação, já não fazia parte dos planos da empresa.

Marcelo Odebrecht poderá conviver com familiares de até 4º grau e receber visitas de até 15 pessoas, cuja lista com os nomes entregue à Justiça pode ser alterada sempre que ele precisar, mediante petição da defesa. Os nomes não foram revelados. “Isso é matéria sigilosa e nós não podemos revelar”, diz o advogado.

“A defesa foi incitada a indicar os nomes dessas pessoas e cumpriu o dever do colaborador. Marcelo assumiu esse papel de colaborador e está se conduzindo exatamente nos termos que celebrou com o Ministério Público’, pontua o advogado.

Benefícios 

Odebrecht foi beneficiado pelo acordo de delação premiada, oficializado no início deste ano, já que contou tudo o que sabia do esquema na Petrobras. No entanto, caso seja descoberto que as informações prestadas não são verdadeiras e se o empresário não seguir todas as restrições impostas no regime fechado domiciliar diferenciado, ele poderá perder o benefício.

Neste caso, a Justiça pode ainda determinar a regressão de regime. Marcelo Odebrecht responde a outros cinco processos na Justiça Federal do Paraná.

Saída de Marcelo Odebrecht da Justiça Federal, escoltado pela Polícia Federal e acompanhado de 10 seguranças, após audiência.

Delator

Entre os empresários alvos da Operação Lava Jato, Marcelo Odebrecht é o delator que absorve as penas mais severas. (Veja “um ano da prisão de Marcelo Odebrecht“).

O empresário, executivos da empreiteira que ele comandava e da construtora Andrade Gutierrez foram presos na chamada “Operação Erga Omnes”, que em latim significa “aquilo que vale para todos”.

Um dos investigados mais resistentes à possibilidade de confessar os crimes que cometeu e a colaborar com as investigações, Marcelo Odebrecht chegou a classificar a delação como uma atitude imoral.

“Dedo-duro” 

Em depoimento à CPI da Petrobras, em Curitiba, em 1º de setembro de 2015, o empresário disse que não tinha o que “dedurar”.

“Quando lá em casa as minhas meninas tinham uma discussão e uma briga, eu dizia ‘quem fez isso? Eu talvez brigasse mais com quem dedurou do que com quem fez o fato. Primeiro, para alguém dedurar, ele tem que ter o que dedurar. Isso acho que não ocorre aqui”, declarou o empresário.

Quase um ano e cinco meses depois, em 30 de janeiro deste ano, a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, homologava 77 delações da Odebrecht. Entre elas, a de Marcelo Odebrecht. Em maio, o STF divulgou os vídeos de todos os depoimentos dos executivos. Em um deles, Marcelo Odebrecht admite que a empresa contribuiu com doações de campanhas eleitorais por caixa dois.

“Eu não conheço nenhum político no Brasil que tenha conseguido fazer uma eleição sem caixa 2. O cara pode dizer que não sabia, mas recebeu dinheiro do partido que é caixa 2. É um ciclo vicioso que se criou. O político que disser que não recebeu caixa 2 está mentindo”, declarou na delação.

Veja íntegra do depoimento de Marcelo Odebrecht como delator
> Por delação, Marcelo Odebrecht abre mão de defesa

As confissões renderam uma redução significativa na pena de Marcelo Odebrecht, que poderia ser condenado ao tempo máximo de prisão previsto em lei, que é de 30 anos. Ainda assim, será o empresário do cartel de empreiteiras envolvidas no esquema de corrupção da Petrobras com o maior tempo de cadeia e medidas cautelares.

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