Odebrecht tenta respirar no caos venezuelano

Narley Resende


Rafael Neves, Metro Jornal Curitiba

Pouco antes do meio-dia de 11 de fevereiro deste ano, um sábado, um carro com dois jornalistas da TV Record e dois membros da ONG Transparência Internacional foi parado em uma esquina de Maracaibo, no noroeste da Venezuela, por quatro veículos sem identificação.

“Chegaram de fuzil e pistola, na hora a gente até pensou que fosse assalto”, conta o repórter Leandro Stolia.

Após o susto, descobriram que eram agentes do Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência), a polícia política do presidente Nicolás Maduro.

Pouco antes de serem detidos, Stolia e sua equipe filmavam um canteiro de obras vazio onde deveria haver uma ponte de 11,81 km construí- da pela Odebrecht.

O episódio ilustra a face policialesca de uma crise que transbordou para as ruas e tem feito vítimas em protestos no país. Situação de “convulsão política”, segundo Mercedes De Freitas, diretora da Transparência na Venezuela.

Mercedes confirma os relatos que chegam ao Brasil: carência ou preços exorbitantes de remédios e alimentos, fugas para países vizinhos e forte presença militar. “Tudo está tenso. Qualquer oposição ao governo é tida como conspiração”, resume.

Ao ser interrogado pela polícia, o jornalista Leandro Stolia diz ter sido chamado de ‘espião’ e ‘terrorista’. Ele e o companheiro dormiram no lobby de um hotel, vigiados por guardas, e ficaram detidos por 30 horas, até serem expulsos do país, sem seus equipamentos.

Logo antes da prisão eles visitaram a Ponte Cacique Nigale. É um dos 11 contratos que a Odebrecht executa no país, mas os projetos estão paralisados, segundo a Transparência. Embora ainda não se tenham rompido os contratos, Maduro já prometeu que o governo vai assumir e terminar as construções.

O futuro incerto da Odebrecht é mais uma gota no caldo caótico venezuelano, já que as obras incompletas têm impacto direto na vida da população. Um exemplo é o sistema de transporte Caracas -Guarenas-Guatire, um projeto de linha férrea que pretende ligar a capital às duas cidades-satélite, a 40 km de distância. A obra já deveria estar pronta em 2012, mas só um trecho foi finalizado

“Milhares de pessoas precisam dessa obra urgente, porque vão para Caracas todo dia. Famílias têm que acordar os filhinhos às três da manhã para chegarem na escola às sete”, conta Mercedes. A pró- pria Odebrecht informa que a obra terminada reduzirá em 70% o tempo da viagem.

O transporte urbano sofre neste momento o maior impacto da paralisia – há outras três linhas de trem e duas de metrô não entregues –, mas também existem pontes, um aeroporto e uma hidrelétrica à espera de conclusão.

Palavra da Odebrecht

A empresa nega que os projetos tenham parado.“O ritmo de cada obra segue de acordo com o fluxo de pagamento do cliente”. O grupo reiterou seu “compromisso de colaborar com a Justiça”.

Recorde

A Odebrecht informou aos Estados Unidos, em acordo de leniência, ter pago US$ 98 milhões em propinas na Venezuela. É o maior volume de repasses fora do Brasil, e foi todo pago nos governos de Maduro e do antecessor Hugo Chávez, morto em 2013.

A revelação das delações dos executivos do grupo, neste mês, deu pistas sobre o destino do dinheiro: US$ 35 milhões foram pagos de 2013 a 2014 a uma offshore – de dono ainda desconhecido – pelo metrô de Caracas e outras obras. Em outro caso, diz a delação, houve propinas pela implantação de um complexo para produção de etanol.

Investigação pode avançar apesar da instabilidade

O autoritarismo de Maduro justifica a desconfiança pública sobre as investigações do caso Odebrecht, mas a PGR (Procuradoria-Geral da República) no Brasil garante que as autoridades da Venezuela estão empenhadas no caso.

“Apesar da instabilidade política, eles têm mantido conosco uma relação estável”, diz Vladimir Aras, Secretário de Cooperação Internacional.

Mas Mercedes De Freitas, da Transparência, lembra que a procuradora-geral é próxima da primeira-dama e que Maduro nomeou o filho, de 26 anos, para uma comissão que investiga a Odebrecht. “São loucuras que se produzem neste país com tanta frequência”, diz.

Grupo bancou campanha de Hugo Chávez

O ex-marqueteiro João Santana disse ao juiz Sérgio Moro, na semana passada, ter recebido US$ 10 milhões da Odebrecht só em 2011.

Era um pagamento de dívidas pela campanha da ex-presidente Dilma em 2010, mas também por serviços de 2012: pleitos municipais do PT e a última eleição de Hugo Chávez, morto no ano seguinte.

Santana diz que o PT não pediu para ele trabalhar para Chávez – como teria ocorrido em El Salvador –, mas o embaixador da Venezuela no Brasil era pró- ximo do PT e também da Odebrecht, o que criou a “interface” necessária, diz Santana.

Metro

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