Petrobras gastou US$ 7,3 bi perfurando poços secos

Narley Resende


Rafael Neves, Metro Jornal Curitiba

A venda um campo de petróleo no Benin, na Africa, que teria rendido 1,31 milhão de francos suíços ao deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), tem algo em comum com quatro navios-sonda alvos da Lava Jato.

Os navios Petrobras 10.000, Vitoria 10.000, DS-5 e Titanium Explorer, assim como o campo do Benin, foram investimentos da Petrobras em busca de petróleo que, segundo auditorias da estatal, deram em poços secos e prejuízo.

Ao todo, o rombo alcança mais de US$ 7,3 bilhões (R$ 25,2 bilhões atualmente). Segundo a Petrobras, estes contratos, tocados pela área international, foram firmados com base em expectativas muito otimistas de lucro e chegaram a contrariar pareceres técnicos que desaconselhavam o negócio.

Além disso, em todos houve propina. “Claro que é normal no negócio de petróleo você perfurar alguns poços secos. Agora, com a ineficiência administrativa gerada pela corrupção, esses danos acabam sendo superestimados (aumentados). E uma administração muito mais ineficiente em razão da corrupção”, diz o procurador do MPF (Ministério Publico Federal) Diogo Castor de Mattos, da força-tarefa da Lava Jato.

A área international da Petrobras era comandada pelo PMDB. Dois diretores, Nestor Cerveró (2003 a 2008) e Jorge Zelada (2008 a 2012), já foram condenados pelo recebimento de propinas.

Em delações, Cerveró e os lobistas Julio Camargo e Fernando Baiano confirmaram que a cúpula do PMDB, incluindo Cunha e o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) foram beneficiados. Os políticos negam as acusações.

O campo do Benin teria rendido propina de ate US$ 10 milhões, mas apenas a parcela de Eduardo Cunha – que também rechaça a denúncia – foi identificada. A ideia de contratar os navios nasceu em 2005, quando a Petrobras comprou campos de petróleo em Angola e no Golfo do México.

Segundo a auditoria, porém, as encomendas, sem licitação, não tinham “embasamento em dados geológicos ou negócios firmes” e havia “frágil comprovação da necessidade de contratar”.

Quando a prioridade se deslocou para o pre-sal, anos depois, os quatro navios-sonda já haviam side redirecionados para outras atividades.

Hoje, o Petrobras 10.000 e o Vitoria 10.000 operam na Bahia de Santos, o Titanium teve o contrato rescindido em agosto do ano passado e o DS-5 está em stand-by no Golfo do México”, segundo a auditoria.

Em suma, “a explicação óbvia para a falta de cuidado para a celebração dos negócios é de que o principal objetivo era receber a propina, e não perseguir benefícios para a Petrobras”, segundo escreveu o juiz Sergio Moro.

“Isso tudo indica que, num contexto de corrupção sistêmica as decisões feitas não são feitas sempre em benefício da companhia, mas são feitas em razão daquilo que vai gerar uma arrecadação maior de propina. Existe um desvio de finalidade”, avalia Deltan Dallagnol, coordenador da Lava Jato no Parana.

Funcionários: direção forçou contrato ruim

Em recuperação judicial devido aos prejuízos, a empresa Sete Brasil foi criada em dezembro de 2010 para construir 21 sondas de exploração de petróleo para a Petrobras.

Nenhuma sonda foi concluída até agora. Funcionários da Petrobras narraram, na se-mana passada, que houve pressão de diretores investigados na Lava Jato para que a estatal abandonasse o plano de afretar sondas via E&P (Diretoria de Exploração) e as contratasse com a Sete Brasil, o que acabou saindo mais caro para a Petrobras.

“E o [João] Ferraz, em tratativas com o [Renato) Duque, teria também meio que pressionado para que essa condição [preferência pela Sete Brasil] fosse consignada no rela-tório, a ponto de os gerentes executivos se recusarem a assinar com aquela proposição”, disse o auditor da Petrobras Paulo Rangel em audiência à Justiça na semana passa-da.

As defesas de Ferraz e Duque não questionaram o depoimento do auditor.

poço

Previous ArticleNext Article