Petroleira estatal é alvo do caso Odebrecht no México

Narley Resende


Rafael Neves, Metro Jornal Curitiba

Em alguns países da América Latina, a Odebrecht pagou propinas para assumir obras como estradas ou linhas de metrô, mas no México, ao que tudo indica, a Lava Jato vai começar como no Brasil: pela estatal de petróleo.

A “Petrobras mexicana” se chama Pemex, e contratos suspeitos com a Odebrecht são a pista mais forte sobre a corrupção no país enquanto não surgem os nomes de quem recebeu os US$ 10,5 milhões que a empreiteira confessou ter pago em propinas de 2010 a 2014.

A Odebrecht ganhou cinco obras no México mesmo depois que a ASF (Auditoria Superior da Federação), ligada à Câmara de Deputados do país, descobriu em 2010 que havia irregularidades – superfaturamento, obras vencidas sem licitação e outros privilé- gios à construtora – em contratos com a Pemex. Apesar de a ASF ter alertado o controle interno da própria estatal, nada foi feito.

Em nota, a Pemex “reafirma o seu compromisso de chegar até as últimas consequências”, e informa que já investiga se seus funcionários receberam propinas.

Lentidão

As revelações do caso Odebrecht no México até o momento couberam a um punhado de jornalistas investigativos. O trabalho da Procuradoria – que é subordinada ao governo – é chamado de “deficiente” pelos críticos.

Odebrecht
Órgão de controle descobriu irregularidades no contrato de reforma da refinaria de Minatitlán (foto), construção de 110 anos de idade. Divulgação / Pemex

“Acreditamos que as ações da PGR neste caso foram pobres (poucas e ruins). Nos parece que não existe vontade política do governo mexicano para processar os responsáveis por crimes de corrup- ção”, avalia o advogado Luis Pérez de Acha, membro do Conselho de Participação Cidadã do SNA (Sistema Nacional Anticorrupção), um órgão criado recentemente pelo Congresso mexicano.

A Procuradoria diz que tem uma equipe especializada no caso, mas que a PGR (Procuradoria-Geral da República) no Brasil avisou que só vai compartilhar informa- ções a partir de junho

O assunto também passa quase em branco na imprensa diária, focada em temas como a relação mexicana com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

“Quando estourou o escândalo [dia 21 de dezembro, data em que os EUA apontaram o México como um dos 12 países corrompidos pela Odebrecht], a notícia foi capa de muitos jornais e ganhou espaço no rádio e na televisão, mas agora o tema, na minha opinião, se reduziu ao que informam as autoridades”, diz o repórter Alberto Mendoza, do El Universal.

A Odebrecht entrou no México em 1992, época de expansão da empresa pelo continente. O primeiro projeto foi uma barragem para desvio de um rio na árida região de Sinaloa, feita em consórcio com três empresas.

Desde então foram mais 10 contratos, dos quais dois estão em execução: obras no entorno de uma refinaria em Hidalgo e serviços de água e saneamento em Veracruz, ambas no centro-sul do país. Enquanto países como Equador e Colômbia reagiram suspendendo ou proibindo novos contratos, no México a Odebrecht segue trabalhando normalmente.

Odebrecht cita benefícios ao país

Procurada para se posicionar sobre o caso, a Odebrecht diz que “reafirma seu compromisso de colaborar com a Justiça” e que “adotará as medidas adequadas e necessárias para continuamente aprimorar seu compromisso com práticas empresariais éticas e de promoção da transparência em todas as suas ações”.

A empreiteira ressaltou, além disso, benefícios que levou ao México nos 25 anos em que está no país.

Um dos projetos destacados pela construtora é o “Agarra el hilo” (pegue o fio, em tradução literal), uma cooperativa têxtil criada em junho de 2014, originalmente para 12 mulheres, em Tula, no centro-sul do país, em uma comunidade vizinha à refinaria de Minatitlán, que a Odebrecht terminou de reformar em 2011.

Outra iniciativa citada pela empreiteira no mesmo local é o “Cae en la red” (cai na rede), um projeto de inclusão digital que, segundo a empreiteira, já capacitou mais de 300 moradores da região.

Lula foi ao país após lobby da empreiteira

Em 23 de fevereiro de 2010, o então Presidente Luiz Iná- cio Lula da Silva se reuniu, no México, com o presidente à época, Felipe Calderón. No evento, os dois comemoraram a assinatura de um contrato de US$ 5,2 bilhões da Braskem – controlada pela Odebrecht – com a mexicana Idesa, para a construção de um complexo petroquímico em Veracruz. A obra foi concluída em 2016 com a meta de produzir 1 milhão de toneladas anuais de polietileno, base da fabricação do plástico.

O que só se descobriu no ano passado é que a ida de Lula ao México foi tratada, dois meses antes, por executivos da Odebrecht. Em um e-mail apreendido pela Polícia Federal, o diretor Alexandrino Alencar recebe um pedido de ajuda da Braskem no México para que LILS (como Lula era tratado nas mensagens) aceitasse um “convite especial” de Calderón para ir ao país, o que sugere tráfico de influência. O Instituto Lula foi contatado, mas não comentou o caso.

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