PF deflagra cinco operações derivadas da Lava Jato em duas semanas

Mariana Ohde


A Polícia Federal (PF), em parceria com o Ministério Público Federal (MPF) e a Receita Federal, deram início a cinco operações derivadas das investigações desenvolvidas na Operação Lava Jato nas últimas duas semanas. As operações Turbulência, Custo Brasil, Saqueador, Tabela Periódica e Sépsis têm como base provas e depoimentos colhidos na Lava Jato, que chegou à sua 31ª fase, a Abismo, nesta segunda-feira (4).

As operações Turbulência, Custo Brasil, Tabela Periódica e Sépsis tiveram início em junho e julho. Já a Operação Saqueador já se desenrola há alguns anos – desde 2013 -, mas ganhou novo fôlego com as investigações da Lava Jato.

De acordo com o procurador da República, Roberson Pozzobon, todas as investigações apontam que políticos estão no “topo da cadeia alimentar da propina” e geralmente são os destinatários finais dos pagamentos ilegais. “Isso nos leva a uma conclusão muito simples: o povo brasileiro hoje já não aguenta mais que agentes públicos e agentes políticos flertem, namorem ou se casem com a corrupção. Precisamos que as duas principais causas da corrupção identificadas na Operação Lava Jato – a crise política e a impunidade – sejam enfrentadas com a reforma política e com as 10 Medidas Contra a Corrupção“, afirma, referindo-se ao projeto de lei de iniciativa popular que reuniu mais de 2 milhões de assinaturas.

O procurador ainda destaca a importância dos acordos de delação premiada e leniência – uma espécie de delação para as empresas. Desde o começo da Operação Lava Jato, já foram celebrados 52 acordos de delação e cinco de leniência. Roberson Pozzobon ressalta a importância de proteger estas ferramentas. “Todos esses acordos não trouxeram apenas declarações que permitiram esclarecer os fatos, mas também documentos”, afirma, lembrando que as operações recentes deixam claro o “potencial de desarticulação de grandes organizações criminosas por meio de acordos de colaboração e leniência”.

“Precisamos estar atentos para as críticas que se faz em relação a esses acordos. Serão elas razoáveis? Qual o plano de fundo das críticas? Devemos nos perguntar a quem interessa o desmonte do instituto do acordo de colaboração ou leniência: a quem investiga ou a quem, por meio desses acordos, é investigado?”, questiona.

Abismo

As principais provas e informações que basearam a 31ª fase da Lava Jato foram colhidas em acordos de leniência da empresa Carioca Engenharia e de colaboração do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, dos operadores Mario Goes, Roberto Trombeta, Rodrigo Morales e Alexandre Romano, e do empresário Ricardo Pernambuco Júnior. A Abismo investiga um esquema montado por empreiteiras para fraudar processos licitatórios da Petrobras. Estima-se que tenham sido movimentados R$ 39 milhões em pagamentos de propina.

Operações

A Operação Turbulência, deflagrada em 21 de junho, teve como um esquema de lavagem de dinheiro em Pernambuco e Goiás, que teria movimentado mais de R$ 600 milhões desde 2010. O ponto de partida da investigação foi a análise de movimentações financeiras suspeitas detectadas nas contas de algumas empresas envolvidas na aquisição da aeronave (Cesnna Citation PR-AFA) que transportava o ex-governador de Pernambuco e então candidato à Presidência da República, Eduardo Campos (PSB), em seu acidente fatal.

A Operação Custo Brasil, do dia 23 de junho, apura o pagamento de propina em contratos de prestação de serviços de informática, na ordem de R$ 100 milhões, entre os anos de 2010 e 2015, a pessoas ligadas a funcionários públicos e agentes públicos ligados ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG). O principal alvo é o ministro Paulo Bernardo, marido da senadora paranaense Gleisi Hoffmann.

A Operação Saqueador, do dia 30, investiga lavagem de R$ 370 milhões. A operação mira a Delta Construções, do empresário Fernando Cavendish, e o contraventor Carlos Augusto de Almeida Ramos, conhecido como Carlinhos Cachoeira, além de Adir Assad, que já foi condenado na Lava Jato. O MPF levantou que, entre 2007 e 2012, quase todo o faturamento da construtora era proveniente de contratos públicos, o que somou cerca de R$ 11 bilhões. Os operadores criaram 18 empresas de fachada para lavar o dinheiro em contratos fictícios e sacavam o os valores em espécie para o pagamento de propina a agentes públicos.

A Operação Tabela Periódica, deflagrada também no dia 30, investiga fraudes na licitação e pagamento de propina a ex-­servidores da Valec referentes às obras de ferrovias federais. Os investigadores identificaram a participação de pelo menos 16 empresas num cartel que atuou na construção das ferrovias Norte­-Sul e Integração Leste-­Oeste, no período entre 2000 e 2010. A ação é baseada em provas colhidas no acordo de leniência da empreiteira Camargo Corrêa com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), em desdobramento das investigações da Lava Jato e nova etapa da Operação O Recebedor.

Já a Operação Sépsis, deflagrada no dia 1ª de julho, mira o corretor Lúcio Bolonha Funaro, ligado ao presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e a empresa Eldorado, braço de celulose da J&F Investimentos, dono da JBS, que comanda a Friboi. A suspeita é a de que a JBS tenha realizado pagamentos de propina para obter recursos do fundo de investimento FGTS, que seriam liberados por influência de Fábio Cleto. A nova fase tem como base a delação Cleto na Lava Jato, que é ex-vice-presidente da Caixa, indicado por Cunha. Em depoimento, ele confirmou pagamentos de propina a Cunha em troca da liberação de verbas do fundo de investimentos do FGTS.

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Mariana Ohde
Repórter no Paraná Portal