PF aponta “possível ligação” entre Paulo Bernardo e empreiteiro com pedido de propina

Pedro Ribeiro


Paulo Bernardo, ex-ministro das Comunicações do governo Dilma Rousseff e marido da senadora Gleisi Hoffmann, preso pela Operação Custo Brasil por envolvimento no esquema de corrupção da Consist – desvio de R$ 100 milhões de empréstimos consignados – e solto em seguida por ordem do ministro do Superior Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, deverá sofrer novas investidas do Ministério Público Federal. Segundo relatório da Polícia Federal, na Operação Lava Jato, existem mensagens trocadas possivelmente entre Bernardo e o então presidente da empreiteira Andrade Gutierrez, Otávio Marques de Azevedo, cujo conteúdo sugere o recebimento de propina quando respondia pelo Ministério do Planejamento, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Na avaliação do conteúdo dos textos resgatados do celular do empreiteiro, que fez delação premiada, a Polícia Federal indica suposta pressão de Paulo Bernardo por “depósito” de dinheiro, possivelmente em sua conta bancária. De acordo com o relatório da PF, as mensagens de 30 de agosto de 2014 e 3 de setembro de 2014 “parecem sugerir que Paulo Bernardo estaria questionando Otávio de forma velada acerca de depósito”. Em 30 de agosto de 2014, o ex-ministro envia a seguinte mensagem: “Doutor Otávio, bom dia! Confirma nossa conversa para o dia dois?”. Otávio responde: “Confirmo”. E Paulo Bernardo envia: “Obrigado. Abraço”. No dia 3 de setembro de 2014 Otávio envia mensagem: “Confira pois caiu agora!”, anota a Polícia Federal.

Levantamento feito pelo jornal Folha de São Paulo na agenda do então ministro Paulo Bernardo mostra pelo menos três pontos coincidentes e reforça a suspeita de que o celular era mesmo usado por Paulo Bernardo. A agenda de compromissos em 2014 do então ministro das Comunicações Paulo Bernardo (PT-PR) indica que era ele o interlocutor de mensagens interceptadas pela Polícia Federal no telefone do executivo da Andrade Gutierrez Otávio Azevedo.

Encontros

Segundo a PF, o aplicativo Whatsapp de Otávio Marques de Azevedo continha uma série de mensagens com o interlocutor “Paulo Ministro Bernardo/João Rezende”. “Observa-se que em algumas mensagens Otávio chama o interlocutor de Ministro. Possivelmente se refere ao então ministro das Comunicações Paulo Bernardo da Silva”, apontam os investigadores. “As diversas mensagens sugerem a realização de encontros/reuniões entre Paulo Bernardo e Otávio Marques”, conclui o relatório da PF. “Chama a atenção a forma como Paulo Bernardo trata Otávio (‘Doutor’).

Também a mensagem de 21 de maio de 2014 em que Paulo Bernardo diz que prefere conversar em outro lugar, que não o trabalho. Naquele 21 de maio de 2014, durante troca de mensagens com o empreiteiro, Paulo Bernardo pede. “Eu prefiro conversar em outro lugar, que não o trabalho. Se vc vier mais cedo, falamos fora. Ou depois que vc sair de lá também. Outra alternativa: “vou ao Rio na segunda, podemos falar lá, perto da hora do almoço”. Otávio responde. “Devo estar no Rio na segunda, às 10h e posso ir aonde for conveniente. Se preferir terei o maior prazer de recebê-lo na AG, escritório no prédio novo da FGV na praia de Botafogo, inclusive para almoçar. Forte abraço”. “Então vou lá almoçar com vc. Pode me mandar o endereço? Acho que sei qual é o prédio”, retorna Paulo Bernardo.

Versões jurídicas

O advogado do empreiteiro Otávio Marques de Azevedo, Juliano Breda, explica que, “em razão das recentes notícias sobre relatórios da Polícia Federal, divulgadas na mídia, a defesa de Otávio Marques de Azevedo informa que todas as mensagens de seu celular são de conhecimento das autoridades e já foram objeto de questionamentos em depoimento prestado na Procuradoria Geral da República, no âmbito do acordo de colaboração que vem sendo rigorosamente cumprido. Otávio Azevedo já prestou esclarecimentos sobre as circunstâncias das mensagens e reafirma o compromisso com o seu dever legal de dizer a verdade. Sempre que necessário, voltará a colaborar plenamente com as investigações no interesse da Justiça, reitera o advogado.

A advogada do ex-ministro das Comunicações Paulo Bernardo, Verônica Sterman, não negou que ele seja o interlocutor de Otávio Azevedo nas trocas de mensagens. Ela afirmou que seu cliente não se recorda em que contexto ocorreu a conversa, em 2014, na qual Azevedo usou a expressão “caiu agora”. Em nota, a advogada também disse que Bernardo possuía o telefone de Azevedo, “assim como o de vários outros empresários, e por vezes se comunicava com eles”. “Não há nem nunca houve nada de errado ou ilícito no teor dessas conversas. As mensagens são claras e não há qualquer ‘mensagem velada'”, afirmou a advogada.

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Pedro Ribeiro
Pedro Ribeiro, jornalista editor-chefe do Paraná Portal