“O grande chefe”: Duque diz que Lula comandava esquema na Petrobras

Fernando Garcel


O ex-diretor de Serviços da Petrobras, Renato Duque, prestou depoimento ao juiz federal Sérgio Moro, na Justiça Federal em Curitiba, nesta sexta-feira (5). No depoimento, que durou pouco mais de uma hora, o réu afirmou que quer colaborar com as investigações da Operação Lava Jato. O depoimento foi solicitado pela própria defesa do ex-diretor que ficou em silêncio na primeira oitiva. O ex-diretor responde por crime de corrupção passiva neste processo.

Ele afirmou que encontrou com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em três oportunidades e que ele seria chamado de “chefe, o grande chefe, nine [nove, em inglês]” e mostrou um gesto que faz referência a barba do petista. “Nessas três vezes, ficou claro, muito claro pra mim, que ele tinha o pleno conhecimento de tudo e detinha o comando”, afirmou.

Segundo Duque, o ex-presidente também pediu detalhes para saber para onde foi o dinheiro referente aos pagamentos de propina dos contratos da Petrobras com a Sete Brasil. O ex-presidente teria alertado a ele: “Presta atenção no que eu vou te dizer: Se tiver alguma coisa, não pode ter. Não pode ter nada no teu nome, entendeu?”, teria dito Lula, de acordo com o ex-diretor, em um encontro com o petista em um hangar no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

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A defesa do ex-presidente Lula nega que ele tenha cometido irregularidades ligadas ao esquema de corrupção na Petrobras investigado pela força-tarefa da Operação Lava Jato. Em nota, os advogados de Lula afirmam que o depoimento de Duque é uma tentativa de fabricar acusações: “Como não conseguiram produzir nenhuma prova das denúncias levianas contra o ex-presidente, depois de dois anos de investigações, quebra de sigilos e violação de telefonemas, restou aos acusadores de Lula apelar para a fabricação de depoimentos mentirosos”

Veja a nota na íntegra:

O depoimento do ex-diretor da Petrobras Renato Duque é mais uma tentativa de fabricar acusações ao ex-presidente Lula nas negociações entre os procuradores da Lava Jato e réus condenados, em troca de redução de pena. Como não conseguiram produzir nenhuma prova das denúncias levianas contra o ex-presidente, depois de dois anos de investigações, quebra de sigilos e violação de telefonemas, restou aos acusadores de Lula apelar para a fabricação de depoimentos mentirosos.

O desespero dos procuradores aumentou com a aproximação da audiência em que Lula vai, finalmente, apresentar ao juízo a verdade dos fatos. A audiência de Lula foi adiada em uma semana sob o falso pretexto de garantir a segurança pública. Na verdade, como vinha alertando a defesa de Lula, o adiamento serviu unicamente para encaixar nos autos depoimentos fabricados de ex-diretores da OAS (Leo Pinheiro e Agenor Medeiros) e, agora, o de Renato Duque.

Os três depoentes, que nunca haviam mencionado o ex-presidente Lula ao longo do processo, são pessoas condenadas a penas de mais de 20 anos de prisão, encontrando-se objetivamente coagidas a negociar benefícios penais. Estranhamente, veículos da imprensa e da blogosfera vinham antecipando o suposto teor dos depoimentos, sempre com o sentido de comprometer Lula.

O que assistimos nos últimos dias foi mais uma etapa dessa desesperada gincana, nos tribunais e na mídia, em busca de uma prova contra Lula, prova que não existe na realidade e muito menos nos autos.


Outros réus

Além de Duque, são réus no processo o ex-ministro Antonio Palocci, ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, o ex-presidente da Odebrecht Marcelo Odebrecht, o casal de publicitários João Santana e Mônica Moura e outros oito investigados.

Questionado por Moro sobre a afirmação do Ministério Público Federal (MPF) que aponta que ele e outros diretores tinham a função de arrecadar recursos para partidos políticos, Duque disse que isso não era uma obrigação, mas sim uma consequencia do cargo que exercia.

“Quando existia um contrato, o partido, ou o tesoureiro do partido, procurava a empresa pedindo uma contribuição. Era institucionalizado. Essa contribuição era em cima de contratos da Petrobras. A empresa ganhava o contrato e era procurada para fazer doações”, afirmou o ex-diretor.

De acordo com o ex-diretor, ele recebia cerca de 1% de pagamento de propina para cada contrato fechado entre a Petrobras e as empreiteiras. “Essa referência o [Pedro] Barusco chamava de ‘Casa’. Ficava com 0,5% e o resto ia para o partido. Nem todos os contratos se praticava esse percentual”, disse.

Duque também afirmou que não tinha um controle sobre os valores recebidos. Ele disse que Barusco o apontava como ‘preguiçoso’. “Quando atingiu determinado valor, aquilo era mais que suficiente… Para que você vai querer juntar e juntar dinheiro? Eu não usei esse dinheiro”, disse ao contar que já havia recebido mais de 10 milhões de dólares em contas no exterior.

Durante o depoimento, o ex-diretor aponta cinco motivos para justificar o motivo das doações empresariais e o pagamento de propina para agentes políticos, entre eles a institucionalização dos pagamentos; era uma maneira de que empresas “roubassem” seus parceiros em obras; e uma forma com que diretores de empresas roubassem suas próprias empresas.

Confira os vídeos:

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Renato Duque

Ele já foi condenado em quatro ações a mais de 50 anos de prisão e responde a outros seis processos no âmbito da Lava Jato em primeira instância. Duque cumpre pena na Superintendência da Polícia Federal (PF), em Curitiba.

Da última vez que prestou depoimento, Duque ficou em silêncio. Ele pediu para ser interrogatório novamente, alegando que não respondeu as perguntas por orientação dos advogados, mas que gostaria de cooperar com a Justiça.

Acusação contra Palocci

Em depoimento a Moro, Marcelo Odebrecht confirmou que Palocci é o “Italiano” que aparece nas planilhas de pagamentos do Setor de Operações Estruturadas, considerado pela Lava Jato como o setor de pagamento de propinas da empresa.

> “Codinome italiano eu só usava para me referir a Palocci”, diz Odebrecht

Em depoimento a publicitária Mônica Moura afirmou que o ex-ministro era quem a encaminhava quem iria receber os valores de caixa 2.

> “Palocci que me encaminhava quem ia me pagar o caixa 2” diz Mônica Moura, em depoimento

Palocci está preso desde o dia 26 de setembro na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba. Kontic foi preso no mesmo dia, mas liberado em 15 de dezembro após decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região.

Denúncia

Segundo a denúncia do Ministério Público Federal (MPF), o ex-ministro estabeleceu uma ligação com altos executivos da Odebrecht com o objetivo de atender aos interesses do grupo diante do governo federal. Isso aconteceu entre 2006 e 2015.

Segundo as investigações, a interferência de Palocci teria se dado mediante o pagamento de R$ 128 milhões em propinas. Os recursos eram destinados principalmente ao Partido dos Trabalhadores (PT).

> PF prende Antônio Palocci na 35ª fase da Lava Jato

Ainda de acordo com o MPF, o ex-ministro também teria participado de uma conversa sobre a compra de um terreno pra a sede do Instituto Lula, feita pela Odebrecht.

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