Pandemia aflora crise do multilateralismo e põe em xeque relações internacionais

Angelo Sfair

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A descoberta de um novo vírus com alto potencial de transmissibilidade e a capacidade de colapsar até os mais bem estruturados sistemas de saúde acelerou a crise do multilateralismo e criou novos desafios para a conjuntura global. O novo coronavírus (Sars-CoV-2) foi identificado pela primeira vez há 14 meses e desde então muito já mudou na relação entre os países.

A cooperação global ficou em segundo plano à medida que as principais potências econômicas (e militares), algumas motivadas pelo nacionalismo exacerbado, procuraram soluções locais e imediatas. Em várias oportunidades, a OMS (Organização Mundial da Saúde) foi desacreditada como órgão capaz de liderar uma resposta conjunta à crise sanitária e, consequentemente, econômica.

Para Ludmila Culpi, graduada em Relações Internacionais e Doutora em Políticas Públicas, mesmo países ricos e desenvolvidos, como os Estados Unidos, mostraram fragilidade no enfrentamento à pandemia, com respostas inadequadas à crise, incapacidade de executar as recomendações das autoridades sanitárias ou pela inexistência de um sistema público universal.

“O que a pandemia escancarou em termos do cenário internacional foi a incapacidade de uma resposta conjunta à crise, o nacionalismo arraigado dos Estados que não aceitavam e iam contra as recomendações da OMS, como resultado de posturas conservadoras e as vulnerabilidades dos sistemas de proteção às pessoas, mesmo em países mais ricos”, disse ela ao Paraná Portal.

BRASIL ENFRAQUECIDO

Na análise da especialista, entre vencedores e perdedores, os último meses foram de perdas gerais para o multilateralismo e para as relações bilaterais. No caso do Brasil, por exemplo, importantes países aliados se afastaram. Entre eles, China e Índia, membros do BRICS com intensa relação comercial e política, e além disso os principais produtores de insumos para vacinas e medicamentos.

“Isso evidencia uma crise central do multilateralismo, que precisa se reinventar para que não voltemos a um cenário de guerra de todos contra todos e de balanceamento de poder típico do contexto de Guerra Fria”, pontua Ludmila Culpi.

Para ela, o Brasil falhou tanto no diálogo com os países asiáticos quanto nas relações com os vizinhos latinoamericanos. O Mercosul é outro bloco enfraquecido durante a pandemia.

“Essa postura de não diálogo e de irracionalidade reduz o prestígio internacional do Brasil e nos isola em relação aos nossos vizinhos, tendo em vista que em nenhum momento o Brasil recorreu aos fóruns regionais como o Mercosul e optou por tomar ações de maneira unilateral, se afastando dos seus tradicionais parceiros estratégicos”, completou.

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No Fórum Econômico de Davos, Vladimir Putin fez um apelo por um esforço conjunto capaz de superar a crise do multilateralismo (Reprodução)

“TODOS CONTRA TODOS”

No Fórum de Davos, realizado virtualmente no final de janeiro, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, fez uma alerta nebuloso para os tempos atuais e para o futuro próximo. Para o chefe do Kremlin, sem um grande esforço internacional para arrefecer a crise sanitária, econômica e institucional, há riscos de confrontos de “todos contra todos”.

Para Putin, a pandemia do coronavírus acelerou a crise do multilateralismo de forma nunca antes vista, desalinhando as estruturas globais e aflorando os desequilíbrios que já existiam. Na análise do russo, é um problema que afeta todas as regiões do planeta. Ele comparou o contexto atual à crescente tensão dos anos 20 e 30, que precederam a Segunda Guerra Mundial.

“Mas gostaria de reiterar que a situação pode se desenvolver de maneira imprevisível e incontrolável se não fizermos nada para evitá-la. Existe a possibilidade de que possamos experimentar um colapso real no desenvolvimento global que pode resultar na luta de todos contra todos”, alertou.

ENTREVISTA: PANDEMIA INTENSIFICA CRISE DO MULTILATERALISMO

Paraná Portal: Com a covid-19, em vários momentos desde março de 2020 vimos corridas globais por produtos finitos. Vimos isso com EPIs, com respiradores e, por fim, a atual corrida por vacinas. Como esse movimento afeta as relações internacionais entre as nações? Há vencedores e perdedores?

Ludmila Andrzejewski Culpi: Em meio à dificuldade em gerir a crise, podemos mencionar alguns casos de sucesso, como os do Sudeste Asiático e da Oceania, que puderam controlar rapidamente a disseminação do vírus.

Assim, embora o Leste asiático tenha sido o epicentro inicial da pandemia, esta região foi a que apresentou melhores resultados em termos do enfrentamento da doença, baseado em três ações centrais: i) testagem em massa e rastreamento de contatos de infectados; (ii) isolamento domiciliar e restrições de aglomeração levadas a risca, diferentemente de outras regiões; (iii) restrições à movimentação de pessoas não apenas entre fronteiras, mas dentro dos países.

Por outro lado, não houve uma inspiração nesses modelos, o que fez com que a crise fosse pior gerida em outras regiões, revelando um cenário de quebra de confiança entre as nações no cenário internacional e de não transferência de modelos de política bem-sucedidos.

Em termos de vencedores e perdedores podemos dizer que existe uma perda nas relações multilaterais e bilaterais, pois muitos parceiros consagrados tiveram suas relações desgastadas, como foi o caso do Brasil com a Índia e a China que eram grandes parceiros comerciais e políticos do Brasil. Isso evidencia uma crise central do multilateralismo, que precisa se reinventar para que não voltemos a um cenário de guerra de todos contra todos e de balanceamento de poder típico do contexto de Guerra Fria.

Paraná Portal: A pandemia do coronavírus também escancarou diferenças econômicas. Os países mais ricos, como esperado, puderam se preparar e se equipar com mais qualidade. Ao mesmo tempo, puderam adotar medidas de restrições mais rígidas, assumindo as perdas econômicas. Em relação às vacinas, reservaram e compraram grandes lotes das principais farmacêuticas. Paralelamente, a OMS trabalhava e insistia numa alternativa: o consórcio Covax, com a ideia de distribuir proporcionalmente e simultaneamente as vacinas, compreendendo que um problema de escala global deveria ser resolvido dessa forma. A partir dessas atitudes, o que esperar para o futuro. A pandemia pode ser um marco para as relações internacionais? Em que sentido? Ou ainda é cedo para avaliar?

Ludmila Culpi: A pandemia seguramente é um marco na história global em termos políticos, econômicos, sociais e culturas. As diferenças econômicas sempre foram notáveis em termos de controle de pandemias, lembrando que essa não é a primeira da história da humanidade. O Sul Global sempre teve mais dificuldade de gerir essas crises pandêmicas devido às diferenças estruturais dos sistemas de saúde. Além dessas disparidades estruturais as respostas conjunturais importam. Um exemplo interessante é o do Vietnã, que teve menos de 100 mortes por covid-19 registradas, mesmo sendo considerado um país periférico.

Mesmo os países desenvolvidos sofreram com a pandemia, como os EUA, devido às péssimas respostas conjunturais por parte do então presidente Trump e a incapacidade de se adequar às recomendações da OMS e pela inexistência de um sistema de saúde público e universal. O que a pandemia escancarou em termos do cenário internacional foi a incapacidade de uma resposta conjunta à crise, o nacionalismo arraigado dos Estados que não aceitavam e iam contra as recomendações da OMS, como resultado de posturas conservadoras e as vulnerabilidades dos sistemas de proteção às pessoas, mesmo em países mais ricos.

Paraná Portal: Como avaliar a postura dos líderes globais? E o Brasil? que imagem o País passa na condução da crise?

Ludmila Culpi: O Brasil é um país de proporções continentais e é formado por uma população extremamente vulnerável em termos de renda, saneamento básico e condições infraestruturais para se manterem em isolamento social. Um dos elementos que podemos observar é que a pandemia promoveu um debate sobre as aglomerações urbanas, sobretudo as favelas, devido às péssimas condições estruturais em que as pessoas que vivem nelas estão submetidas, sendo necessário pensar em soluções para o problema.

Uma das questões que se verificou durante a pandemia foi uma autonomia internacional maior dos governos locais, estados e municípios, que passaram a comprar vacinas e estabelecer contatos com empresas no exterior como resposta à miopia do governo nacional e à ausência de uma política externa brasileira clara durante esse período. Essa incapacidade de orientar a política externa de modo adequado é resultado da ascensão de governos ultraconservadores de direita em vários países do mundo.

Observa-se uma crise do multilateralismo e do sistema de saúde global, que está sendo deslegitimado e desacreditado pelos chefes de Estados mais poderosos do globo. Isso é consequência da tomada de poder por governantes de extrema direita que adotam caminhos divergentes ou até antagônicos em relação à agenda internacional e aos regimes internacionais que buscam administrar as relações entre Estados e estabelecer padrões mínimos globais em áreas relevantes, como a saúde. Podemos enquadrar Jair Bolsonaro nesse aspecto, com ideias opostas em relação às diretrizes da OMS, o que inflama o discurso interno e impede uma gestão correta e racional da crise do coronavírus.

Essa postura de não diálogo e de irracionalidade reduz o prestígio internacional do Brasil e nos isola em relação aos nossos vizinhos, tendo em vista que em nenhum momento o Brasil recorreu aos fóruns regionais como o Mercosul e optou por tomar ações de maneira unilateral, se afastando dos seus tradicionais parceiros estratégicos.

*Ludmila Andrzejewski Culpi é graduada em Relações Internacionais e Ciências Econômicas, Mestre em Ciência Política e Doutora em Políticas Públicas. É pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da UFPR.

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