Política
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60ª fase da Lava Jato revela que dinheiro era colocado ao sol para não bolorar

A Polícia Federal (PF) deflagrou, nesta terça-feira (19), a 60ª fase da Operação Lava Jato, batizada de "Ad Infinitum". ..

Redação - 19 de fevereiro de 2019, 07:26

**ARQUIVO** BRASÍLIA, DF, 29.08.2012 - O ex-diretor da Dersa (estatal paulista de rodovias) Paulo Vieira de Souza. (Foto: Sérgio Lima/Folhapress)
**ARQUIVO** BRASÍLIA, DF, 29.08.2012 - O ex-diretor da Dersa (estatal paulista de rodovias) Paulo Vieira de Souza. (Foto: Sérgio Lima/Folhapress)

A Polícia Federal (PF) deflagrou, nesta terça-feira (19), a 60ª fase da Operação Lava Jato, batizada de "Ad Infinitum". A operação aprofunda a investigação de um complexo esquema de lavagem de dinheiro de corrupção praticada pelo chamado Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, que envolveu os operadores Paulo Vieira de Souza (conhecido como Paulo Preto - ex-diretor da Dersa e conhecido como operador do PSDB em São Paulo), Rodrigo Tacla Duran, Adir Assad e Álvaro Novis, que mantiveram relações pelo menos entre 2007 e 2017.

As transações investigadas superam R$ 130 milhões, que correspondiam ao saldo de contas controladas por Paulo Preto na Suíça no início de 2017. A ação é feita em conjunto com o Ministério Público Federal (MPF) e a Receita Federal.

Segundo a PF, o esquema permitia que a empresa irrigasse campanhas eleitorais e efetuasse o pagamento de propina a agentes públicos e políticos no Brasil. O nome da operação remete ao fato de o caso parecer tratar de mais uma repetição do modo de atuação de alguns integrantes da organização criminosa, remetendo a um ciclo que nunca termina.

Ao todo, 46 Policiais federais cumprem um mandado de prisão preventiva e 12 mandados de busca e apreensão em 10 endereços diferentes ligados a Paulo Preto e a Aloysio Nunes Ferreira Filho, ex-chanceler do governo Michel Temer. Os mandados são cumpridos nas cidades de São Paulo,  São José do Rio Preto, Guarujá e Ubatuba, todas no estado de São Paulo. Os documentos foram expedidos pela 13ª. Vara Federal de Curitiba-PR.

O preso será levado para a sede da PF em São Paulo e posteriormente trasladado para a Superintendência do Paraná, onde será interrogado.

Em coletiva concedida à imprensa na manhã desta terça-feira (19) o procurador da República Roberson Pozzobon, afirmou que 2010 foi ano eleitoral, e a Odebrecht tinha uma espécie de sede para pagar propina. "E, 2010 a Odebrecht buscava novos operadores financeiros porque a demanda de propinas naquele ano era muito grande. Ela não conseguia dar vazão às promessas de propinas feitas e que ela precisava pagar.  Isso segundo nos foi relatado se dava porque o ano de 2010 ser um ano eleitoral e ali a par dos compromissos de propina para pagamento de agentes da Petrobrás,  e outras estatais, administração pública direta e indireta, a Odebrecht tinha uma grande demanda de propinas por agentes que se candidatavam a cargos públicos federais, estaduais e municipais", informou ele.

Ele reforçou que as transações investigadas superam R$ 130 milhões, que correspondiam ao saldo de contas controladas por Paulo Vieira de Souza na Suíça no início de 2017.

Várias contas estavam distribuídas em outros paraísos fiscais, tanto que a PF teve a colaboração de autoridades de Singapura, Bahamas, Espanha e Suíça.

O procurador Roberson Pozzobon comparou o banker de Paulo Preto como o de Geddel, descoberto em 2017, quando foram localizados mais de R$ 57 milhões. O volume era tanto, que as notas que seriam distribuídas no Brasil para pagar propina, precisavam ser colocadas no sol para não pegar mofo, segundo o delator. "Adir Assad  revelou que Paulo Preto possuía cerca de R$110 milhões de reais no Brasil em espécie, então é muito volume. Esse dinheiro estava acondicionado em dois endereços e esses emissários falaram...olha, as vezes a gente ia buscar o dinheiro nesse apartamento e tinha um quarto só pra guardar notas de dinheiro.  Mas como esse quarto era úmido,  as vezes a gente via Paulo Preto colocando as notas de dinheiro de reais para tomar sol porque senão elas boloravam. Isso foi revelado por auxiliares do Adir Assad".

A PF também investiga a participação de Aluísio Nunes no esquema, ex-senador pelo PSDB e ex-chanceler do Governo de Michel Temer. Em 2007 foi identificada uma solicitação de Paulo Preto, para o envio de um cartão de crédito em nome do político tucano. O pedido foi feito em um banco na Suíça.

 

O ESQUEMA

Segundo o MPF, as investigações realizadas pela força-tarefa Lava Jato no Paraná revelaram a atuação de Paulo Preto como operador financeiro com importante papel num complexo conjunto de operações de lavagem de dinheiro em favor da empreiteira Odebrecht.

De acordo com as provas colhidas ao longo da investigação, Paulo Preto disponibilizou, a partir do segundo semestre de 2010, R$ 100 milhões em espécie a Adir Assad no Brasil. Este, por sua vez, entregou os valores ao Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, aos cuidados do doleiro Álvaro Novis. O doleiro realizava pagamentos de propinas, a mando da empresa, para vários agentes públicos e políticos, inclusive da Petrobras.

As evidências, conforme o MPF, revelaram que, no mesmo período que se seguiu à entrega dos valores em espécie por Paulo Preto para a Odebrecht, propinas foram pagas pela empreiteira, em espécie, para os seguintes gerentes e diretores da Petrobras: Djalma Rodrigues, Maurício Guedes, Roberto Gonçalves, Paulo Roberto Costa, Pedro Barusco e Sérgio Machado.

Em contraprestação à entrega de valores em espécie por Paulo Preto e Adir Assad ao Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht no Brasil, esse setor transferiu dezenas de milhões de dólares para as contas do doleiro Rodrigo Tacla Duran no exterior. Este último operador, depois de descontar as suas comissões e as de Adir Assad, devidas pela lavagem do dinheiro, ficava incumbido de fazer chegar às contas de Paulo Preto os recursos a ele devidos.

A investigação também revelou que existiram transações ilícitas entre os investigados em momento anterior, a partir de 2007. Por exemplo, em 26 de novembro de 2007, por intermédio da offshore Klienfeld Services Ltd, a Odebrecht transferiu 275.776,04 de euros para a conta controlada por Paulo Preto, em nome da offshore Grupo Nantes, na Suíça.

A apuração identificou que, no mês seguinte, a partir da referida conta de Paulo Preto, foi solicitada a emissão de cartão de crédito, vinculado à sua conta, em favor de Aloysio Nunes Ferreira Filho. O banco foi orientado a efetuar a entrega do cartão de crédito no Hotel Majestic Barcelona, na Espanha, para Aloysio Nunes Ferreira Filho, que estaria hospedado no hotel entre 24/12/2007 e 29/12/2007.

Além disso, foram identificados depósitos efetuados, no ano de 2008, por contas controladas pela Andrade Gutierrez e Camargo Correa, em favor da mesma conta controlada por Paulo Preto na Suíça, no valor global aproximado de US$ 1 milhão.