Ser aliado não quer dizer que é capacho, diz Ratinho Junior sobre relação com Bolsonaro

Vinicius Cordeiro

Em entrevista à rádio, Ratinho diz que age para amenizar tensões entre o presidente e outros governadores e rebate críticas dos bolsonaristas.
ratinho junior e jair bolsonaro

O governador Ratinho Junior (PSD), do Paraná, detalhou a boa relação que tem com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Alinhados desde que foram eleitos em 2018, a dupla desenvolve projetos em conjunto, mas tem tido discordâncias na pandemia de covid-19.

“Ser aliado não quer dizer que você é capacho. Não quer dizer que você concorde com 100% das coisas que seu parceiro pense. Eu tenho o dever, inclusive, de pensar diferente em uma série de questões”, avaliou em entrevista à Rádio Jovem Pan nesta terça-feira (30).

A primeira vez que o político paranaense contestou o carioca publicamente  foi no início deste mês. Ele assinou uma carta, ao lado de outros 15 governadores, rebatendo dados dos repasses do governo federal aos estados que haviam sido divulgados pelo presidente nas redes sociais.

Contudo, na semana seguinte, Ratinho recuou e não entoou o coro de 14 governadores para Bolsonaro adotar “imediatas providências” para a compra de mais vacinas com outros países e entidades internacionais. A cobrança, no entanto, tem sido feita ao Ministério da Saúde de forma mais reservada, conforme declarações do próprio governador e do secretário estadual Beto Preto.

“Eu tenho um bom alinhamento com o governo federal e com o presidente Bolsonaro. Essa modelagem política de ficar criando rusga e briguinha para sair na internet e na imprensa não faz parte da minha maneira de fazer política. Sou obrigado a fazer diferente porque venho de uma safra nova, tenho a obrigação de tentar implantar uma nova modelagem”, completou.

“DINHEIRO ENVIADO POR BOLSONARO NÃO É BOA AÇÃO, É DEVER”

A principal crítica do movimento bolsonarista aos governadores tem sido os repasses do governo nacional aos estados. Mesmo aliado do presidente, Ratinho Junior não foge dos ataques.

O governador aponta que existem diversas mentiras que são compartilhadas nas redes sociais e aponta que os valores citados são obrigações da União. Ele pontuou que existem mentiras até mesmo sobre o auxílio emergencial, como se fosse o Paraná que recebesse o valor, e não as pessoas que atendem aos requisitos da Caixa.

“Existem muitas distorções na internet, nas informações que rodam nas redes sociais. Soltaram informação que nos repassaram R$ 38 bilhões, que é dinheiro de repasses obrigatórios. Dinheiro da Saúde, do Fundo Nacional da Educação… Independente de estar presidente A ou B, é obrigado. Como eu sou obrigado, do valor do ICMS arrecadado, a repassar aos municípios. É um dever. Isso não pode ser contabilizado como se fosse uma boa ação“, pontua.

Além disso, Ratinho Junior disse que os repasses feitos pelo governo federal estão sendo investidos na abertura de novos leitos. Desde o dia 20 de fevereiro, foram abertas 600 novas UTIs (Unidades de Terapia Intensiva).

O dinheiro que o governo federal mandou nós aplicamos na expansão dos leitos de UTIs. Se você parar para ver, um hospital de campanha, que é feito de forma emergencial, tem 3o de UTI e 60 de enfermaria.  Isso [os 600 novos leitos] dá algumas dezenas de hospitais de campanha”, alegou Ratinho.

O Paraná nunca teve tantos leitos disponíveis. São 4 mil leitos vagas, sendo 1.570 UTIs e 2.374 enfermarias para adultos e 22 UTIs e 34 enfermarias pediátricas. Mesmo assim, há fila de 848 pessoas com covid-19 esperando por internação. Neste momento, 95% das UTIs do estado estão ocupadas.

TENTO ESFRIAR ÂNIMOS NA BRIGA DO PRESIDENTE COM GOVERNADORES, DIZ RATINHO

Bolsonaro e Ratinho tem contato frequente. (Foto: Dvulgação/ANPr)

Em abril de 2020, Ratinho Junior admitiu que havia montado um plano para “fechar tudo”, caso a situação do coronavírus se agravasse. O governador nunca estimulou aglomerações e valorizou a importância de máscaras, higiene das mãos e distanciamento social.

Tudo isso divergiu da postura de Bolsonaro, que ataca constante governadores, apesar de nunca direcionar críticas ao governante do Paraná. Inclusive, Ratinho assumiu que age para amenizar as tensões entre Bolsonaro e outros do governadores.

“E dessa forma temos um bom convívio, estamos contribuindo com o governo federal. A gente tenta esfriar os ânimos de outras correntes, dessa briga do presidente com os outros governadores, para que a gente possa gastar energia em buscar solucionar os problemas das pessoas”, disse.

Mesmo com as diferenças, os dois mantêm bom relacionamento. Não à toa, Ratinho foi um dos governadores convidados por Bolsonaro para participar da reunião entre os chefes dos Três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) na semana passada. Após o Brasil chegar à marca de 300 mil mortos, o presidente sinalizou mudança de tom, fez a defesa pelas vacinas e a optou pela criação do comitê de combate à covid-19.

Já em março do ano passado, o representante do Paraná foi o único governador convidado a ir para os Estados Unidos com a comitiva do governo federal. Ao voltar de viagem, Ratinho fez teste para detectar o coronavírus após 23 membros de comitiva terem sido diagnosticados com a doença. Até o momento, Ratinho não foi infectado.

Previous ArticleNext Article