Senador diz que impeachment é “tentativa de implantar parlamentarismo”

Narley Resende


Em defesa do mandato da presidente afastada Dilma Rousseff, o senador Roberto Requião (PMDB-PR), terceiro inscrito no quarto dia de julgamento do processo de impeachment no Senado, perguntou nessa segunda-feira (29) apenas se “algum dos membros do PMDB questionou a política econômica” da petista enquanto ocupavam ministérios do governo. Requião foi o primeiro paranaense a usar a tribuna da Casa na presença de Dilma. Pelo menos 47 parlamentares se inscreveram para fazer questionamentos. 

A pergunta de Requião apenas ilustrou o discurso do senador, que usou seu tempo na tribuna para apontar uma “tentativa de impor o parlamentarismo” no país. Para isso, Requião acusou três pontos de movimento para a queda do governo Dilma: “precarização do Executivo, com Banco Central independente e governo, mero repressor de manifestações populares;  Parlamento contaminado por financiamentos de empresas de campanha; precarização do trabalho, com uso da crise para alavancar uma ideia.

Requião disse em seu discurso que o impeachment vai possibilitar medidas que considera inviáveis em outro contexto. Ele citou medidas de alteração do regime de aposentadoria, manobras para viabilizar pagamento da dívida pública com juros altos controlados por um Banco Central “controlado pela banca”; reversão de direitos trabalhistas conquistados; e privatização do patrimônio público, usando petróleo e água como pontos predominantes.

Veja o discurso de Requião:

“Presidenta eleita do Brasil Dilma Vana Rousseff,

Antes de ontem eu estava em um comício no Turvo, centro do Paraná, região pobre, de agricultores que vivem em extrema dificuldade. Um deles me pergunta: ‘Requião, você vai falar na reunião com a Dilma no Senado Federal?’ Eu disse, vou. Ele me fez uma recomendação. ‘Vai lá Requião, fala com o coração’, e com a democracia impressa no lado esquerdo do peito. Muitas vezes subi nessa tribuna para criticar a política econômica da presidente. E fiz isso com desenvoltura, num espaço democrático e limpo. Hoje eu falo constrangido, porque não é a presidente que está sendo julgada no Senado. É a democracia que está sendo julgada. É um projeto soberano de construção do Brasil. E digo isso porque não há a menor possibilidade de a presidenta ter cometido um crime. Crime algum cometeu.

Estamos discutindo um sistema de governo, que começou, presidente Lewandowski, com a tentativa de introdução do parlamentarismo. Não havendo crime, não há impeachment. Então proponham o parlamentarismo para poder dar o voto de desconfiança e substitui o governo brasileiro.

Esta crise que nós vivemos não é uma crise só do Brasil. Ela começa na Europa, com a reação do Estado social que surge contra o nazismo. Estado social do direito das mulheres, dos trabalhadores. O Estado social que retira a força brutal do capital e esse então reage num tripé de intenções. Primeiro, a precarização do Executivo, que passa a ser substituído pela ideia tola de um Banco Central independente. O governo, mero repressor de manifestações populares. Em segundo lugar, o Parlamento contaminado por financiamentos de empresas de campanha. Deputados e senadores transformados em mandalefe de interesses que financiam seus partidos e suas eleições. O terceiro, e mais terrível tripé, é a precarização do trabalho. O convencionado sobre o legislado. E numa crise recessiva, uma espécie de revogação de todos os direitos trabalhistas.

Nós não estamos julgando a presidente Dilma Rousseff que não cometeu crime algum, estamos comparando duas hipóteses de governo.

Um que quer acabar com a lei de pensões e aposentadorias, um massacre para 20 bilhões de brasileiros. Outro que joga toda possibilidade do estado para viabilizar pagamento da dívida pública com juros absurdos controlados por um Banco Central controlado pela banca.

Reverter direitos é o caminho da alternativa. Congelar despesas da União por 20 anos. Não se pode mais nascer, não se pode mais estudar, não se pode melhor ensino e não se pode melhorar saúde. Privatização do patrimônio, a entrega do petróleo, privatização da água já sugerida dentro do governo, do meu amigo Michel Temer. É o Brasil que está em jogo.

Nosso patrimônio energético que está em jogo. Não é o mandato da presidente Dilma Rousseff. É uma ilegalidade absoluta. Não há crime. Isso aqui é um simulacro de júri, onde os interesses fisiológicos vão ser discutidos.

Presidenta, algum senador do meu partido no exercício de ministério do seu governo contestou alguma vez sua política econômica. Fez um reparo nas reuniões fiscais. Se não, por que reparam agora? Por que cargas d’água pediram o impedimento para atender as embaixadas dos grandes países, o interesse da banca, e a miserável fisiologia que domina o Congresso Nacional.

Presidenta, algumas considerações a respeito do Brasil. Do que está para acontecer ou não. Eu espero que não, e espero 31 senadores patriotas e com caráter dizendo (…).”

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