“Só Deus me tira da cadeira presidencial”, diz Bolsonaro em live, após decisão do STF sobre Lula

Daniel Carvalho - Folhapress e Gustavo Uribe - Folhapress


Logo após o STF (Supremo Tribunal Federal) ter decidido pela anulação das condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) usou sua live semanal para fazer comparações entre seu governo e o do petista. Durante a transmissão, Bolsonaro voltou a dizer que “só Deus me tira da cadeira presidencial”.

“E me tira, obviamente, tirando a minha vida. Fora isso, o que nós estamos vendo acontecer no Brasil não vai se concretizar, mas não vai mesmo. Não vai mesmo, tá ok?”, indagou o presidente logo no início da live.

“Se o Lula voltar pelo voto direto, pelo voto auditável, tudo bem. Agora, veja qual vai ser o futuro do Brasil com o tipo de gente que ele vai trazer para dentro da Presidência”, completou Bolsonaro.

O presidente ressaltou que o país não quebrou “no último ano” e que não quer se intitular “faxineiro do Brasil”, mas alguém que vai resolver os problemas do país.

“Querem criticar meu governo, fiquem à vontade, mas puxem um pouquinho pela memória para ver como era no passado”, disse.

Em uma crítica ao petista, Bolsonaro, que trabalha na escolha de seu segundo ministro para o STF (Supremo Tribunal Federal), lembrou que quem for eleito em 2022 será responsável pela escolha de mais dois nomes para a corte.

“Se o Lula for eleito, em março de 2023, ele vai escolher mais dois ministros para o Supremo Tribunal Federal”, ameaçou.

A decisão do STF de anular as condenações de Lula já era esperada por Bolsonaro. No início de março, quando o ministro Edson Fachin tornou o petista elegível, o presidente foi informado por assessores jurídicos que a decisão tinha respaldo da maioria dos integrantes da corte e que ela deveria ser confirmada pelo plenário.

A aposta no Palácio do Planalto é a de que, com uma possível candidatura de Lula em 2022, haverá novamente uma eleição polarizada entre a esquerda e a direita, sem espaço para o crescimento de nomes de centro.

A avaliação é a de que a polarização permite ao presidente disputar em um cenário no qual ele tem mais familiaridade: que é por meio da adoção de um discurso radical de defesa da pauta de costumes e de crítica a bandeiras progressistas.

Para assessores palacianos, em uma campanha contra um candidato de centro, o presidente precisaria moderar seu discurso político para ter mais chances de avançar sobre eleitores que o apoiaram na última eleição, como os liberais e os lavajatistas.

Para deputados governistas, no entanto, uma polarização significa um cenário mais difícil ao presidente em um segundo turno. Eles lembram que uma coisa é enfrentar um candidato como o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad e outra é ser adversário de Lula, que conta com “recall eleitoral”.

Nesta quinta-feira (15), ainda durante o julgamento, auxiliares do presidente ressaltavam que, a partir de agora, Bolsonaro intensificará em sua retórica o embate com o PT, focando, sobretudo, na crítica a escândalos de corrupção.

A ideia defendida por aliados do governo é de que Bolsonaro ressalte que o retorno de Lula significa a volta da impunidade e saliente que a atual gestão não está envolvida em denúncias de irregularidades, apesar das acusações contra o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ).

A aposta é de que o discurso anticorrupção, adotado na disputa eleitoral de 2018, ainda encontra apoio junto a um eleitorado de centro, que, mesmo insatisfeito com Bolsona​ro, poderia votar no presidente devido a uma rejeição aos governos petistas.

O entorno do presidente, no entanto, lembra que um apoio por meio de uma retórica anticorrupção pode ser anulado diante de desempenho ruim da atual gestão no combate à pandemia da covid-19.

A avaliação geral é a de que a CPI da Covid, que deve ser instalada na próxima semana pelo Senado, pode derrubar ainda mais a popularidade do presidente e afetar seu potencial eleitoral para 2022.

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