Política
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Sou o Requião Light: mesmo sabor, baixos teores

Deputado em 1º mandato, Requião Filho assume o nome e o jeito de fazer política do pai, mas diz que quer gerir a prefeit..

Narley Resende - 29 de agosto de 2016, 08:12

Deputado em 1º mandato, Requião Filho assume o nome e o jeito de fazer política do pai, mas diz que quer gerir a prefeitura com suas ideias e objetivos. Confira a entrevista dele ao Metro Jornal Curitiba, a terceira da série com os candidatos à prefeitura.

Por que os curitibano devem votar em você?

Porque Curitiba está parada há mais de 20 anos. Curitiba teve um prefeito (Rafael Greca) que diz que fez mais de 6,6 mil obras. Mas quantas dessas melhoraram a vida do curitibano de verdade? E temos outro prefeito (Gustavo Fruet) que apresenta uma planilha com os números mais lindos do mundo, mas a realidade das pessoas é outra. Ele disse que zerou as vagas de creche. Mas olha no facebook os comentários do debate (da Band), o número de mães dizendo “cadê as vagas do meu filho?”. Ou os educadores dizendo: “Você construiu tantas creches novas e não contratou um educador novo”. Os números aceitam qualquer coisas, mas a realidade está muito ruim. Curitiba precisa voltar a andar, voltar a ter soluções. Eu tenho determinação e coragem para tomar as decisões certas nas horas certas.

Você avalia que a cidade piorou na gestão de Fruet?

Se você perguntar para quem precisa da saúde, a cidade piorou muito. Ele diz que investiu mais, mas se investiu mais, investiu mal. Porque quem precisa da saúde hoje fica desesperado. Só quem tem na família alguém doente sabe como é que é isso. A família inteira adoece, porque não consegue a vaga, não consegue consulta, tem que acordar às 3h, estar às 5h na frente do posto para conseguir uma senha. Para ser tratado por aquele protocolo Manchester absurdo, que o Luciano Ducci importou para Curitiba. Quer dizer, em três minutos eles têm que avaliar se têm que te atender ou não. Os enfermeiros odeiam esse protocolo. Hoje, o que nós fazemos aqui? Copiamos São Paulo e pintamos o chão de verde ou de vermelho. É uma ideia boa, mas o que a gente precisa fazer é dar o exemplo, fazer funcionar mais. Acabar com as filas nos postos, melhorar a saúde, melhorar a escola, discutir com os educadores como voltar a ter vaga de berçário. Como a gente faz isso de maneira eficiente. Não é essa história de construir um berçário em cada creche e resolver 10 mil vagas em uma semana.

Você pretende acabar com o protocolo de Manchester?

Eu pretendo juntar os médicos, os enfermeiros e os técnicos e fazer um protocolo que seja factível a nossa realidade. Somos um país tropical em uma cidade muito fria. A gente importou um protocolo europeu e não levou sequer em consideração as maiores doenças e os maiores riscos aqui. As pessoas precisam de atendimento imediato, e dizem pra ela: ‘Olha, sua pressão está mais ou menos, você não está com febre, espera aqui um pouquinho. Morra de AVC, tenha o seu ataque do coração, mas vai demorar mais duas horas para gente te atender”. Falta isso, esse protocolo não prevê as doenças que nós temos. Na última gestão ocorreu a desintegração financeira do transporte.

Qual a sua proposta para o setor?

É absolutamente necessária a reintegração. Se eu fosse prefeito hoje e ligasse na Urbs e perguntasse quantas pessoas andaram de ônibus ontem, ninguém saberia me responder. Quantas pagaram meia, quantos idosos, estudantes, quantos pagaram inteira. Ninguém sabe responder de imediato. Nós estamos em 2016! Como cidadão eu tinha que conseguir resposta para isso no meu celular. Então, é reintegração sim, forçada. É cobrar do governo: “Vem cá, você está prejudicando Curitiba e a região metropolitana”. Isso não aumenta custo, diminui custo, facilita a vida das pessoas. Não dá para brigar com o governador, talvez porque ele pegou mais sol do eu, e acabar com um sistema.

Não precisa ser amigo do governador, ir tomar café na casa dele. Ele também não precisa gostar do prefeito. Prefeito e governador é que têm que gostar da população.

Será preciso mexer no contrato?

Vamos rever esse contrato, mas rever mesmo. A CPI já mostrou que está errado. O Tribunal de Contas já mostrou que está errado. Vamos cobrar do Judiciário, e não é bravata. Veja você, a frota está antiga porque tem uma liminar que dá aos concessionários o direito de usar ônibus velho. Mas como é que se ganha dinheiro nesse sistema de hoje, que cobra por passageiro? Colocando mais passageiros em menos ônibus.

Por que você não consegue saber no seu celular quantos ônibus tem rodando em cada linha? Porque com certeza têm menos ônibus que o combinado, e eles não querem expor isso. Tem que dar transparência ao sistema. E quando for licitar, licitar por linha, porque aí abre a concorrência para mais pessoas. E também buscar a volta do quilômetro rodado. Hoje tem a tecnologia, dá para fazer um sistema que seja eficiente. Assim, podemos conseguir uma coisa que todo mundo quer, que é o cartão temporal. Você compra por uma semana, por 15 dias, por um mês. Basta ter vontade e ter coragem de comprar a briga. Eles (os empresários) vão espernear, mas se fosse ruim do jeito que eles falam, já tinha largado. Se os Gulin estivessem tomando prejuízo há 30 anos , eles não estavam nisso. Ninguém fica 30 anos tomando prejuízo. Alguma coisa dá certo, porque lá todo mundo anda de Land Rover.

Não sobraria um passivo judicial?

O passivo judicial é bem contraditório. As empresas dizem que tem ‘X’ a receber, mas é de uma licitação que está sendo questionada na Justiça. De uma licitação que é igualzinha à licitação de Goiânia e que vai acabar com gente presa. Que é igualzinha às licitações que estão sendo investigadas aqui no interior do Paraná. Feita pelo mesmo escritório, com as mesmas pessoas, com o mesmo pessoal que está na Urbs hoje. A primeira coisa é botar esse pessoal da Urbs para correr: demissão. ‘Queridão você está sendo investigado nessa licitação, some daqui. Você tem que aprender que a prefeitura trabalha para o povo, não para o empresário do transporte. Rua.”

Pelas pesquisas, há um bom recall da gestão Greca. Como você avalia isso?

Vejo isso assim: você lembra da ex-namorada, do ex- -namorado, que depois de um tempo nós nos acostumamos a lembrar só da parte boa? O Greca é aquela ex- -namorada. Ela aparece lá no facebook, manda uma mensagem, manda uma foto bonita, mas de repente você lembra da realidade. A gente esquece as mazelas, mas tenta namorar de novo e volta tudo a ser como era. E é difí- cil a gente aceitar uma ex-namorada que está namorando o governador que mandou surrar professor, que dá calote no funcionalismo público, o governador que está sendo investigado por pagar escolas que não foram construídas. Um governo investigado na Publicano.

Em tão pouco tempo de campanha, dá para desconstruir uma imagem como a do Greca?

Não vou trabalhar com desconstrução, vou trabalhar com propostas factíveis para Curitiba. Mas acho que o discurso fácil, o discurso do ‘deixa para mim que eu fa- ço’ é muito fácil. É o discurso de quem promete escada rolante na padre Anchieta, que promete um trenzinho ligando shoppings. Imagina a mãe que está no Chapinhal com problema de regularização fundiária, como é que ela encara um ‘vou fazer um trenzinho ligando Pátio Batel, shopping Mueller, e shopping Cristal? ’. Eu não preciso desconstruir ninguém, o discurso fácil, em 2016, quando se quer transparência e eficiência, se auto-destrói.

A posição do senador Requião sobre o impeachment da Dilma tem reflexo na sua campanha?

O Requião é contra o impeachment porque nós não gostamos de jeitinho para resolver as coisas. Foi um jeitinho: criou-se um fato e cassou- -se um presidente. A Dilma não tinha condições de ficar, o Brasil estava ingovernável, havia escândalos para todo lado. Mas tá, tiramos ela, agora quem fica? Defendemos novas eleições. Eu vejo com muito orgulho o Requião manter uma posição, porque nós estamos numa crise institucional absurda e o Requião mantém a sua posição firme, de acordo com seus valores e seus princípios, defendendo a democracia. E mesmo que isso possa prejudicar a campanha do filho. Então a leitura que eu tenho é: caramba, eu tenho orgulho do Requião, ele não muda de posição nem para facilitar para o filho.

O eleitor pode esperar uma gestão sua parecida com a do seu pai?

Pode esperar uma administração eficaz, transparente e limpa. Converse com o pessoal que presta serviço para o Estado ou que prestou serviço em Curitiba quando o Requião foi governo. Recebiam sem problemas, em dia, e não tinham que agradar ninguém para receber. Só fazemos se tem como pagar, gostamos de trabalhar com a máquina sempre limpa e redonda, sem surpresas. Foi assim que eu aprendi com o Requião. E sempre: a política existe para tornar a tua vida mais fácil, não a minha. A minha vida tem que estar difícil, eu tenho que acordar cedo, dormir tarde. É isso que eu trago do Requião: para quem eu vou governar e como eu vou governar. Agora, as ideias são minhas, os objetivos são meus, nós apenas traçamos o mesmo tipo de caminho para chegar lá.

As pesquisas o apontam com 16% das intenções de voto. Quanto disso é recall do nome Requião?

Isso é dificílimo de eu saber. Mas eu garanto que grande parte, e eu me orgulho disso, é o recall do Requião governador com impostos baixos, tarifa de água social, tarifa de luz razoável e social. O Paraná tinha as tarifas mais baixas de luz e água do Brasil e agora estamos entre as mais caras. É o recall de quando o Requião foi prefeito e a tarifa de ônibus era a mais barata do Brasil. É o recall de um nome que está a quase 40 anos na política e nunca se envolveu em corrupção. Agora, a parte que me cabe é a da inovação. É dessa nova política, mais aberta, com maior participação popular, usando e abusando da tecnologia. Novas soluções para velhos problemas. Veja, nós estamos discutindo de novo o transporte coletivo em Curitiba. Será possível? O Requião se elegeu discutindo transporte coletivo. Uma das brigas do Requião lá em 85 era regularização fundiária. Será possível que depois do Requião ninguém mais comprou essa briga? Então é comprar a briga e fazer diferente. Eu sou, e brincava aqui antes, o Requião Light: mesmo sabor, baixos teores.

No debate da Band, você apresentou proposta de municipalizar o Teatro Guaíra. Isso não esbarra em custos?

Se tiver que aumentar o orçamento da Cultura, que maravilha! Não existe civilização sem cultura, sem arte. Não existe educação desvinculada da cultura, da arte e da prática esportiva. Nós queremos criar robozinhos ou queremos criar um cidadão curitibano? Alguém que pense Curitiba, que possa daqui 20 ou 30 anos se destacar no mercado de trabalho? Cultura é investimento. A municipalização do Guaíra é possí- vel. É um desafio. Por que não encará-lo? E se o governo quiser encarar, a gente municipaliza o Guaíra e ele fica com parte da folha de pagamento. E a gente coloca o Guaíra para funcionar, aumentando investimento, sim, em Cultura. Cultura não é só edital, é trazer a escola para o teatro. É fazer festivais, é abrir o teatro e praças para os artistas.

Você faria PPPs?

Faria duas, com empresas públicas. Com a Cohab, tenho um plano de criar uma frente de trabalho. A legislação atual não permite que o poder pú- blico contrate ninguém mesmo que temporariamente, sem concurso. Então eu mudaria o contrato da Cohab e transformaria em companhia de habitação e desenvolvimento de infraestrutura urbana. E faria uma PPP contratando as pessoas dos bairros, temporariamente, criando frentes de trabalho para que elas ajudem a melhorar o seu bairro. São pequenas intervenções arrumar calçada, cortar mato, trocar lâmpada. Com isso a gente gera emprego, e gerando emprego diminui a violência. E faria outra com o Icac (Instituto Curitiba Arte e Cultura), para que a gente possa dar vida aos nossos teatros.