Uma prisão, uma facada, um país dividido e uma eleição vencida pelas redes sociais

Roger Pereira


O Brasil protagonizou, em 2018, uma eleição que ficará para a história do país. Vários fatos inéditos marcaram o caminho até a vitória de Jair Bolsonaro, o 38º presidente da República, que toma posse na próxima terça-feira. Foi a primeira vez na história que um preso (Luiz Inácio Lula da Silva) tentou concorrer à Presidência. Também foi a primeira vez que um candidato sofreu um atentado em plena campanha.

Bolsonaro também conseguiu quebrar a hegemonia de PT e PSDB, que polarizaram as seis últimas eleições, desde 1994 e, com um discurso de ruptura ao modelo político atual e apresentando-se como antagonista do PT, o deputado federal conquistou 55% dos votos em 28 de outubro para chegar ao Palácio do Planalto. Seu discurso inflamado, no entanto, com muitas declarações que incitaram ódio, discriminação e preconceito e, até, defesa da ditadura militar, preocupou instituições e dividiu o país, que teve, no segundo turno, que decidir entre o discurso agressivo de Bolsonaro e o petista Fernando Haddad, que substituiu Luiz Inácio Lula da Silva na disputa para defender o projeto político do PT, com toda a crise de credibilidade que o partido enfrentava após a Operação Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de sua principal liderança.

Confira, na retrospectiva do Paraná Portal, os fatos marcantes que levaram à eleição de Jair Bolsonaro:

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega a superintendência da Policia Federal de Curitiba (PR), na noite deste sábado (7), onde começará a cumprir a pena de 12 anos e 1 mês de prisão pela condenação no caso do triplex em Guarujá (SP).Ele foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

Prisão de lula

A eleição de 2018 começou a ser decidida já em janeiro. No dia 24, a 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região confirmou a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no caso conhecido como o do tríplex do Guarujá, o primeiro processo contra Lula na Lava Jato. Até então líder nas pesquisas de intenção de voto para a presidência da república, o, na época, pré-candidato passava à condição de inelegível, de acordo com a Lei da Ficha Limpa, por ter uma condenação proferida por órgão colegiado.

Em abril, após esgotada a possibilidade de recursos do ex-presidente na segunda instância, a Justiça decretou a prisão do ex-presidente, que passou a cumprir pena na Superintendência da Polícia Federal do Paraná, em Curitiba. Mesmo com Lula preso, o PT insistiu na sua candidatura. Em 15 de agosto, registrou a chapa com Lula como candidato a presidente. Em 31 de agosto, o Tribunal Superior Eleitoral indeferiu o registro de candidatura de Lula e, apenas em 11 de setembro, a menos de um mês para o primeiro turno das eleições, o ex-presidente foi substituído por Fernando Haddad como candidato do partido, numa estratégia muito criticada por analistas políticos e aliados do PT, que acabaram se afastando do partido, que coligou-se, apenas, com o PC do B.

JUIZ DE FORA, MG, 06.09.2018 – O candidato à Presidência da República pelo PSL, Jair Bolsonaro, durante ato de campanha no Parque Halfeld, em frente à Câmara Municipal de Juiz de Fora (MG). O presidenciável foi esfaqueado e levado para o hospital. O suspeito foi preso, segundo a Polícia Federal. (Foto: Raysa Leite/Folhapress)

Atentado a Bolsonaro

Antes mesmo da oficialização de Haddad como candidato, um outro fato marcante mexeu com o processo eleitoral. No dia 6 de setembro, quando fazia ato de campanha nas ruas de Juiz de Fora – MG, Bolsonaro foi atingido por uma facada. Depois de atendido na emergência da Santa Casa de Juiz de Fora, foi transferido para São Paulo. Ficou internado no Hospital Israelita Albert Einstein durante 23 dias. E sem poder fazer campanha de rua, se comunicou com os eleitores pelas redes sociais. O autor do ataque, Adélio Bispo, foi preso e confessou o crime.

Além da comoção popular, que já refletiu em crescimento das intenções de voto de Bolsonaro, nas primeiras pesquisas após o atentado, a condição de saúde do deputado lhe deu justificativa para intensificar sua estratégia de campanha via redes sociais e evitar a participação nos debates de TV, onde seria o alvo principal dos adversários.

Redes sociais

Impedido de fazer campanha de rua, Jair Bolsonaro usou e abusou do que já seria sua principal estratégia de campanha: a utilização maciça das redes sociais. Milhares de grupos de Whatsapp espalhando as declarações e propostas do candidato, bem como críticas e, até acusações a adversários; um exército de seguidores e multiplicadores de conteúdo no Twitter e no Facebook fizeram do eleitorado de Bolsonaro o mais fiel e mais convicto de seu voto, garantindo-o no segundo turno. Na disputa final contra Haddad, mesmo autorizado pelos médicos,

Redes Sociais/Flávio Bolsonro

o então candidato preferiu repetir a estratégia bem-sucedida: não participou de nenhum debate, não foi para a rua e concentrou toda a sua campanha na distribuição de material para internet e celular.

Estas foram, também, as eleições das notícias falsas (fake news). Com a concentração da campanha na internet, muitas informações inverídicas sobre os presidenciáveis circularam, sem controle, pelas redes e influenciaram milhões de votos. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até tirou do ar algumas páginas que divulgavam, sistematicamente, as notícias falsas, mas admite que pouco conseguiu fazer para impedir a circulação.

As discussões pela internet dividiram os brasileiros entre petistas o bolsonaristas, numa eleição que também foi marcada por brigas entre amigos e parentes por conta das posições políticas.  

 

#Elenão

Com a candidatura de Lula indeferida, Bolsonaro assumiu a liderança nas pesquisas de intenção de voto, mas, por sua posição radical, muitos acreditavam que o candidato do PSL já havia atingido seu teto. As apostas eram que Haddad cresceria, tendo seu nome vinculado a Lula, assim como os candidatos de centro (Ciro Gomes, Geraldo Alckmin, Marina Silva, Alvaro Dias, Henrique Meirelles, João Amoêdo), apresentando-se como alternativa às duas candidaturas ditas de extremo.

Os candidatos de centro, no entanto, não decolaram e o voto útil falou alto no primeiro turno. Eleitores que rejeitavam o PT migraram para Bolsonaro mesmo não sendo essa sua primeira opção, assim como eleitores contrários ao discurso do capitão reformado do exército admitiram votar no PT apesar de todas as suas ressalvas.

Por conta do discurso, por muitos classificado como machista, homofóbico e racista de Bolsonaro, um movimento, liderado por mulheres, foi às ruas protestar contra o então candidato. O #Elenão acabou servindo para acirrar ainda mais a disputa e polarizar em definitivo a eleição.

No final, a rejeição ao PT foi maior que a rejeição ao conservadorismo radical de Bolsonaro e, no dia 28 de outubro, com 55,1% dos votos, Jair Messias Bolsonaro foi eleito presidente da República.

Foto de Tânia Regô/Agência Brasil

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Roger Pereira
Repórter do Paraná Portal