A pesquisa a favor da sustentabilidade

ISAE


A agricultura e o agronegócio desempenham historicamente um papel estratégico na sociedade brasileira, se caracterizando hoje como a base de sustentação econômica do País. As características dos recursos naturais do Brasil estabelecem uma vocação natural para o desenvolvimento da atividade agrosilvopastoril, pois contamos com grande parte do território nacional com solos com potencial agrícola, abundante disponibilidade de recursos hídricos, insolação e variação térmica adequada a maior parte das culturas e uma mega biodiversidade que fornece serviços ambientais imprescindíveis, que no seu conjunto estabelecem grande diferencial competitivo para o desenvolvimento desta atividade.

Com a extensa área de 8,5 milhões de Km², o nosso País desempenha um papel estratégico na proteção dos recursos florestais planetários. Embora os números não sejam precisos, podemos considerar que cerca de 65% do território nacional é coberto por matas nativas enquanto a utilização agrosilvopastoril ocupa 30% do Brasil, sendo 5% ocupados pela urbanização, infraestrutura, mineração e indústrias. A pecuária responde pela maior parte das terras ocupadas, cerca de 23% do território enquanto a agricultura, por apenas 7%. Para que tenhamos um parâmetro de comparação, as Unidades de Conservação ocupam 17,2% do território, uma área cerca de 2,5 vezes maior do que a utilizada pela agricultura.

Embora estes dados demonstrem que o uso da terra no Brasil é bastante restritivo, é fundamental que as atividades agropecuárias avancem nas práticas sustentáveis. Isso é imprescindível para melhorar a qualidade ambiental do País, e para garantir o potencial produtivo dos solos para as gerações futuras, mas destacando que os principais interessados na conservação são os próprios produtores rurais. Os custos para implantação de um sistema adequado de conservação de solos são recuperados geralmente em menos de 5 anos, pelas perdas evitadas de nutrientes, pelo aumento da produtividade e pela redução dos custos de produção.

Dentre os desafios ambientais para o agronegócio, o mais importante é a conservação de solos e água, e o Paraná é historicamente um dos principais protagonistas. O nosso estado foi referência mundial em decorrência de arrojados projetos governamentais de manejo integrado de solo e água, com a intensa participação dos produtores rurais, que iniciaram no final dos anos 70 e que alcançaram resultados expressivos nas décadas de 1980 e 1990.
Com a expansão do plantio direto, que foi capaz de associar a redução de custos, o aumento da produtividade e a melhoria da sustentabilidade das práticas agrícolas, os sistemas mecânicos de conservação, especialmente o cultivo em nível e os sistemas de terraceamento reduziram drasticamente os processos erosivos com reflexos diretos no aumento da produtividade e na melhoria da qualidade das águas.

Com o aumento do tamanho das máquinas agrícolas, muitos agricultores desmancharam os terraços que haviam sido construídos, em um evidente equívoco em adequar o solo as máquinas e não o inverso. Nossa agricultura desceu alguns degraus nas práticas sustentáveis e os reflexos prejudicam os próprios agricultores e a sociedade, pelo incremento dos impactos ambientais decorrentes.

Para orientar a implantação de práticas conservacionistas, o Estado do Paraná, lançou o maior programa de pesquisa e formação de recursos humanos na área de conservação de solos do Brasil. Trata-se de uma cooperação entre a inciativa privada, através do Sistema Faep / Senar -PR – Servico Nacional de Aprendizado Rural, com a Fundação Araucária e a Secretaria de Ciência e Tecnologia, com intensa participação dos pesquisadores, com destaque ao Núcleo de Conservação de Solos, na elaboração e lançamento de uma chamada de pesquisa no valor de R$12 milhões de reais, que será desenvolvida em 4 anos.

Esta pesquisa pretende aproximar os produtores rurais aos pesquisadores dos institutos de pesquisa, universidades estaduais e federais e os institutos de pesquisa ligadas as cooperativas, em um trabalho integrado de sete redes regionais, que integrarão uma rede estadual de pesquisa interdisciplinar e interinstitucional. Estas redes regionais foram definidas com base nas características geológicas e pedológicas de todas as regiões do estado, enfatizando os principais desafios tecnológicos para a orientação de práticas agrícolas sustentáveis, considerando as peculiaridades locais.

Há um forte componente de extensão, que tem por objetivo estimular a aproximação entre os produtores rurais, agrônomos e técnicos, de forma a garantir a aplicabilidade prática dos resultados. Os objetivos da pesquisa foram discutidos com representantes dos produtores rurais, de forma a orientar a pesquisa nas reais prioridades da prática agropecuária. Além disso, foram definidos objetivos específicos que consideram as peculiaridades de cada uma das regiões do Estado.

Os projetos das redes regionais já foram avaliados por um comitê científico e em agosto serão iniciadas as pesquisas, com um primeiro seminário onde os projetos das diferentes redes serão apresentados ao conjunto dos pesquisadores, com objetivo de padronizar metodologias que permitirão a integração dos resultados.

Através da integração de esforços do Estado com a iniciativa privada o Paraná voltará a ocupar a posição de destaque no desenvolvimento de tecnologias sustentáveis, que irão orientar a adequação de práticas que aumentam a renda dos produtores rurais melhorando a qualidade ambiental.

*Artigo escrito Prof. Dr. Cleverson Vitorio Andreoli – Engenheiro Agrônomo, mestre em ciências do solo e doutor em meio ambiente e desenvolvimento. Atualmente é professor no Mestrado Profissional em Governança e Sustentabilidade do ISAE – Escola de Negócios e diretor da empresa de consultoria ambiental Andreoli Engenheiros Associados.

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