Conivência com violência policial contribui para mortes em confrontos, diz especialista

Redação


Cristina Seciuk – CBNCuritiba

O alto número de mortes de civis em confrontos com a polícia no Paraná reflete uma cultura de tolerância da violência não só por parte das forças policiais, mas também da população. A avaliação é da especialista em Segurança Pública Priscilla Placha Sá.

Nos primeiros seis meses do ano, as polícias do estado mataram 156 pessoas.

O levantamento do número de mortes em confrontos policiais foi feito pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco, ligado ao Ministério Público, que tem entre as suas atribuições o controle externo das atividades policiais.

 O total de mortes nos seis primeiros meses deste ano – 156 – é 38% maior do que a estatística registrada no período anterior, entre julho e dezembro de 2015, quando 113 civis morreram em confrontos.

Na comparação com o mesmo período, os meses de janeiro a junho de 2016 tiveram 16,4% mais mortes nessas circunstâncias do que 2015.

 Na avaliação do coordenador do Gaeco, procurador Leonir Batisti, o aumento nas mortes tem relação com a atitude dos criminosos, que estão mais bem armados e violentos.

“Os criminosos muitos deles fazem assaltos violento e tem armas mais letais e a gente reconhece que muitas vezes os policiais não tem outra alternativa senão agir daquela forma”, afirmou.

Apesar disso, Batisti destaca que há casos suspeitos de uso excessivo de força e mesmo de execuções.

“tem situações que não são exatamente essas, há excessos do policial… apesar da pessoa eventualmente exibir alguma arma, ela não apresenta perigo. E temos casos mínimos em que concluímos que o policial decidiu meramente executar alguém”, lamentou.

O coordenador do Gaeco afirmou que, em reuniões já realizadas, os comandos das forças de segurança vêm tratando o aperfeiçoamento dos agentes como necessário para evitar mortes causadas pela polícia.

Para a especialista em Segurança Pública Priscilla Placha Sá, os dados confirmam uma infeliz tradição histórica e uma feição da segurança pública brasileira: de atuações violentas.

 “Temos que remover uma cultura que é notada tanto nos cursos de formação de policiais e praças. Temos que rever a formação das polícias. A polícia não aperta esse gatilho sozinha, existe uma conivência social e de alguns sistemas de justiça criminal com isso”, afirmou.

Na avaliação da especialista, uma redução no número de mortes passa longe de se tornar realidade a partir apenas da punição posterior ou da aplicação de protocolos como do uso progressivo de força.

Para Priscilla Sá, uma diminuição na letalidade da polícia precisa de mudança de cultura da população, que não raro comemora a ação policial violenta.

As 156 mortes apontadas no levantamento divulgado estão oficialmente registradas em boletins de ocorrência encaminhados ao Gaeco pelas polícias Militar, Civil e Rodoviária e ainda pelas Guardas Municipais de todo o estado.

A imensa maioria das mortes de civis se deu em decorrência de confrontos com a PM: foram 149 nos primeiros meses deste ano. Em contrapartida, no mesmo período, onze policiais militares foram mortos por civis.

Procurada para se posicionar, a Polícia Militar do Paraná não respondeu.

O controle estatístico das mortes em confrontos policiais é parte da estratégia do Ministério Público para garantir a correta apuração dos casos e ainda contribuir para a diminuição da letalidade das abordagens e da intervenção policial.

 

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