Política
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É chavismo, diz Joice sobre trocas no comando da PF e no Ministério da Justiça

Ex-aliada de Jair Bolsonaro, a líder do PSL, Joice Hasselmann (SP), avalia que o presidente tenta interferir na Polícia ..

Julia Chaib - Folhapress - 28 de abril de 2020, 15:53

José Cruz/Agência Brasil
José Cruz/Agência Brasil

Ex-aliada de Jair Bolsonaro, a líder do PSL, Joice Hasselmann (SP), avalia que o presidente tenta interferir na Polícia Federal ao colocar um amigo da família para chefiá-la. "Por isso, antes que o Brasil caia num chavismo de verdade com o sinal trocado, eu propus o processo de impeachment", diz.

A deputada afirma que a atitude de Bolsonaro tem como objetivo proteger seus filhos, inclusive o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), apontado pela Polícia Federal como coordenador de um esquema de disparos de fake news.

A participação dele e do irmão Flavio Bolsonaro (Republicanos-RJ) foi alvo de depoimentos da parlamentar na CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que investiga o tema no Congresso, e também é apurada pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

Ao Supremo, ela diz ter entregue dados que mostram como o chamado "gabinete do ódio" opera nos estados e provas de que os articuladores dessa rede operam com "calendários de ataques", escolhendo vítimas de determinados períodos. "No caso, o Moro vai ser vítima, como eu fui, por meses", diz.

Hasselmann foi líder do governo no Congresso até outubro de 2019, quando foi tirada do cargo por atritos com o presidente dentro do partido.

Na semana passada, o ministro Sergio Moro pediu demissão, apresentou acusações contra o presidente e, no mesmo dia, a sra. apresentou um pedido de impeachment na Câmara por obstrução de Justiça.

JH - Obstrução de justiça, intervenção na Polícia Federal e falsidade ideológica.

A sra. acha que há provas suficientes para levar essa acusação adiante?

JH - A tentativa de intervenção na Policia Federal já é uma prova contundente. Nós sabemos e a imprensa repercutiu amplamente que há meses o presidente tenta fazer intervenção na Polícia Federal, colocando um amigo próximo de seu filho, um amigo de casa, de balada, de festa, para comandar a polícia que investiga, inclusive, esquema criminoso dos filhos dele.

O que o ministro estava fazendo ali era impedir que o presidente fizesse tal negociata para proteger seus filhos. O que o presidente está tentando fazer é transformar PF e o Ministério da Justiça numa coisa só e comandado pela mesma pessoa, que é ninguém mais ninguém menos que o próprio presidente da República.

Isso não é democracia, é chavismo, é autoritarismo, passa longe de ser um processo democrático. Por isso, antes que o Brasil caia num chavismo de verdade com o sinal trocado, eu propus o processo de impeachment. Ainda que eu ache que o melhor caminho é a renúncia, mais rápido e menos doloroso.

Então, quando a sra. ainda estava como líder do governo no Congresso, o presidente já falava em trocar o chefe da PF...

JH - E eu sempre fui contra, publicamente.

Mas a sra. já conversou sobre isso dentro do governo? Porque a sua saída do governo não se deu em razão dessa interferência, mas por outros motivos...

JH - Ela se deu por outras interferências. É hábito do presidente da República interferir em todos os lugares, inclusive onde ele não deveria ter a menor ingerência. Da mesma forma como ele interfere na Polícia Federal, esse órgão que tem ser tão cuidado e protegido em sua dignidade, ele interferiu numa liderança de partido no Congresso, fazendo o que ele não deveria.

Ele interferiu em que naquele momento?

JH - Interferiu no momento em que chamou um grupo de parlamentares para lotear uma parte do governo para retirar um líder da época, que não era nem eu, para colocar o filho dele [o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP)]. Na época era o líder Waldir (PSL-GO). Imagina o presidente da República descer nesse nível para interferir numa liderança de partido, chega a ser chulo um negócio desse.

Uma das motivações do presidente, segundo a conversa que ele teve com o Sergio Moro quando eu virei alvo disso e resolvi investigar.

Nesse caso então, a sra. não acha que foi conivente?

JH - Imagina. Para ser conivente eu tinha que saber.

Embora tenha apresentado o pedido de impeachment, a sra. vê espaço para o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), levá-lo adiante? Porque o deputado disse que o foco é a pandemia.

JH - Sem dúvida, precisamos ter o foco na pandemia, mas não podemos deixar o Brasil à deriva, porque o governo acabou.

A sra. defende que ele vá para frente agora?

JH - Eu defendo que nós possamos fazer um processo que não seja no afogadilho, defendo a criação da CPI. O impeachment está na gaveta do presidente da Câmara. Cabe a ele tirar. Conforme as informações sejam reveladas, haverá apoio da população para acontecer. O Brasil precisa de paz e tranquilidade. O foco é combater a pandemia, mas não podemos cruzar os braços para o que está acontecendo na Presidência da República e seus puxadinhos.

Se o processo for para frente, não haverá paz..

JH - Por isso que eu defendo primeiro a renúncia. Se o presidente tivesse juízo ele renunciaria. Não podemos deixar o Brasil sendo tocado por um chavista, que quer instituir um golpe militar no Brasil e fingir que nada está acontecendo. É papel do Parlamento impedir esse golpe. Não podemos fechar os olhos para a política porque senão a Câmara estará sendo omissa, prevaricando.

O presidente intensificou as conversas nas últimas semanas com partidos de centro e hoje ele negocia cargos. Como vê essa aproximação?

JH - O Bolsonaro cedeu ao pior que tem na política. O discurso que foi feito cai por terra, é mentira. Discurso de corrupção, de lealdade ao povo brasileiro, de não roubar, tudo é mentira.