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Estreias da semana: Corra e O Rastro

Por Camila Picheth, especial para o Gente+, e com Metro Jornal"Corra"1h44min | Mistério, 18 anos | Veja horários ..

Guilherme Grandi - 18 de maio de 2017, 16:54

Por Camila Picheth, especial para o Gente+, e com Metro Jornal

cinema - corra 2"Corra"

1h44min | Mistério, 18 anos | Veja horários e ingressos

Iniciando o filme com a história de Chris e Rose, um casal em que o namorado negro está prestes a conhecer a família de sua namorada branca, o diretor Jordan Peele consegue criar um ambiente no qual o suspense começa no tema racial e cresce até atingir um terror mental universal, mas sem nunca se perder na crítica social. É um filme que demonstra como o racismo pode adquirir formas que nem sempre são evidentes, e que os vilões podem ser aquela “família de bem” que mora ao lado.

Quando Rose leva Chris até a pequena cidade onde seus pais moram, o rapaz já fica nervoso pelo fato de que ela não comentou com os dois que ele era negro. Esse é um nervosismo – tanto do personagem quanto da audiência - que vai aumentando conforme Chris chega na cidade e conhece os moradores e convidados da casa. A primeira parte do filme trata desse suspense emocional racial em que as palavras das pessoas expressam uma coisa, mas seus olhares e ações dizem outra. Ele se encontra em uma situação perturbadora a qual não é novidade para ele, mas que tende a piorar de maneira surpreendente.

A mãe de Rose usa a hipnose em suas terapias para curar vícios como o da nicotina, e é esse elemento que irá fazer com que o suspense se desenvolva a nível universal, pois a realidade que temos como certa pode se desfazer em segundos quando a mente é dobrada de maneira hábil; independente de credo ou cor. Nossa mente consciente não é nada comparada a todos os conteúdos aparentemente dormentes no inconsciente, os quais podem se tornar grandes inimigos quando invocados de uma forma brutal e sem consentimento. São os conteúdos invisíveis que te paralisam em momentos cruciais, que te acordam no meio da noite, que te fazem suar frio ao pensar que algo como o mostrado – mesmo sendo absurdo – poderia ser feito com você. Se o terror de ser o único homem negro em um ambiente cheio de pessoas brancas não for angustiante o suficiente, o de ter a sua mente manipulada indevidamente com certeza será.

Peele fez um trabalho fenomenal na sua primeira direção, construindo uma trama de suspense/terror na medida certa e cheia de questões sociais. Corra! é um filme que prende a atenção até o final e que gera um material grande para ser discutido após sair do cinema. Com certeza é o melhor filme do gênero em 2017, e vale muito a pena conferir.

cinema - o rastro"O Rastro"

90min | Terror, 14 anos | Veja horários e ingressos

Nos últimos anos, o cinema brasileiro tem se arriscado em tramas de terror mais psicológicas e menos ao estilo de Zé do Caixão. Depois de “Isolados” (2014) e “O Caseiro” (2016), chega nesta quinta aos cinemas “O Rastro”, assinado por JC Feyer.

A produção usa o caos da saúde pública no Rio como pano de fundo para o horror no qual se enreda o casal vivido por Rafael Cardoso e Leandra Leal. Ele é João, médico que agora atua na Secretaria de Saúde e é responsável por desativar o hospital onde fez residência. A decisão é motivada pela precariedade do atendimento e vai contra seu antigo mentor, Heitor (Jonas Bloch), a quem cabe a direção da casa de saúde.

João fica intrigado com o sumiço de uma das pacientes durante a transferência e entra em uma investigação pessoal capaz de custar sua própria sanidade mental, o que preocupa sua mulher, a professora de arte Leila, à espera do primeiro filho dos dois. “Amo filme de terror. É um dos meus gêneros favoritos. Gosto de sentir medo, dessa sensação de adrenalina. Foi demais filmar em um hospital abandonado e se apropriar de uma realidade brasileira que, por si só, já é um terror”, afirma Leandra Leal.

Os elementos clássicos do gênero estão todos ali. “O Rastro” tem criança sinistra, mulher grávida, paranoia, corredores vazios e mal iluminados, aparições sobrenaturais e uma fotografia fria, cheia de tons azuis, verdes e marrons – mas a preocupação do diretor era dar uma cara mais brasileira para sua história. “Queríamos elementos da nossa realidade. Como a gente não tinha fotografia quente, a gente trouxe o calor através do suor. As pessoas estão molhadas o tempo inteiro”, aponta ele. “A gente queria fazer um filme que só pudesse ser feito aqui”, ressalta o roteirista André Pereira.

“O Rastro” levou oito anos para sair do papel devido a dificuldades com financiamento. “Até agora a gente não conseguiu todo o dinheiro. Foi muito nítido que as empresas têm dificuldade em se associar a um filme mais arriscado e crítico sobre certas questões que estão acontecendo no Brasil”, afirma a produtora Malu Miranda.

Ainda assim, ela banca a relevância da produção, que contou com a colaboração de consultores internacionais. “O que eles mais gostavam era da temática política local dentro de um filme de gênero”, completa ela. O longa vai ter distribuição internacional, mas o desafio mesmo é superar o preconceito com o gênero no Brasil. “A média de público de filme de terror brasileiro é de menos de 10 mil pagantes, quando os filmes gringos tem 750 mil. É assustador. A gente foi muito minucioso em cada detalhe e buscou um filme esteticamente muito poderoso para respirar nessa concorrência voraz dos blockbusters”, conclui Feyer.