Fernanda Montenegro se emociona e manda beijo para o público na estreia do Festival

Guilherme Grandi


Ela pisou pela primeira vez em Curitiba em 1954, ainda novinha, quando o grande auditório do Teatro Guaíra só existia em alguns pedaços de concreto no chão. Na verdade, naquela época, ela subiu ao palco do Guairinha, que foi a primeira sala do complexo a ficar pronta. O Guairão e o mini-auditório viriam tempos depois. Passados 63 anos, Fernanda Montenegro voltou à capital na noite desta terça [28] para abrir a 26ª edição do Festival de Teatro, em uma cerimônia regada a muitas emoções, como diria o Rei Roberto Carlos. Não, ele não veio, mas a Grande Dama do teatro nacional sim, que não poupou elogios ao evento. Mandou até mesmo um caloroso beijo para o público curitibano!

A bem da verdade, falar da apresentação de Fernanda para um Guaíra lotado exigiria contestar a lei de Newton, de que “dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo”. Afinal, ela começou o espetáculo contando a trajetória que teve por Curitiba, em que “já estive aqui tantas outras vezes […] com o Fernando Torres, que hoje está no céu”. A voz embargada ao lembrar do falecido marido concorreu com as lágrimas contidas, mas o aplauso do público fez as vezes de lenço e de alegria para Fernanda lembrar dos bons momentos.

Claro que o atual momento político do país também não passou incólume pela apresentação. Tal qual vêm ocorrendo nos últimos anos, manifestações foram registradas pela plateia contra os governos Federal e Estadual. Muito se esperava que Fernanda tomasse algum lado da história, mas, “não levanto bandeiras, meu compromisso é com a arte”, disse ela.

Já a montagem “Nelson Rodrigues por Ele Mesmo” contou a história do jornalista e dramaturgo que alcançou a fama à revelia de classes políticas e sociais, principalmente a elite, transitando da direita para a esquerda, e que não reconhecia a sua genialidade. Foi uma leitura de textos dele mesmo, nunca antes divulgados, até o interesse da Grande Dama pela obra. A apresentação teve um misto de drama, ao lembrar das dificuldades que ele passou, até passagens divertidas, como a descoberta sexual do garoto Nelson, que não se achava nem um pouco interessante.

Um dos pontos altos da leitura foi sobre a época em que Nelson Rodrigues atuou no jornalismo policial e com uma coluna sob o pseudônimo de Suzana Flag. Isso ocorreu após ele conseguir reconhecimento com a peça Vestido de Noiva, de 1943, quando recebeu um convite para fazer parte da equipe dos Diários Associados, editora de jornais de Assis Chateubriand. Foi uma época em que a venda de periódicos estava em declínio [coincidência com os dias de hoje?], e o grande empresário precisava de um chamariz. Nelson sugeriu algo no formato de “folhetim policial”, o que fez muito sucesso.

Fernanda também contou uma das passagens de Nelson, quando ela o telefonava diariamente no jornal pedindo uma obra para atuar. A convivência com o dramaturgo rendeu os frutos de hoje, que ela deixou bem claro na apresentação: “eu tenho a impressão que eu deixo um pouco dele [Nelson Rodrigues] com vocês”.

A abertura do Festival de Teatro de Curitiba foi além, com discursos e a mestre de cerimônia mais divertida dos últimos anos! O Paraná Portal te mostra como foi.

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