Jovem relata como teria sido estuprada por motorista de Uber

Narley Resende


Com Taís Santana, BandNews FM Curitiba

A Delegacia da Mulher investiga uma denúncia de abuso sexual que teria sido cometido por um motorista do aplicativo Uber contra uma professora, no bairro Água Verde, em Curitiba. A denúncia foi feita no início desta semana. De acordo com a passageira, o caso aconteceu na madrugada de segunda-feira (30). Nesta quinta-feira (2), ela relatou o que lembra do dia.

A mulher, de 27 anos, pediu por uma corrida por volta das duas horas da manhã. Ela estava na casa de amigos no bairro Portão e relata que estava alcoolizada. Com isso, o condutor do Uber teria se aproveitado da vulnerabilidade dela. A mulher pediu para não ser identificada. Ela diz lembrar de partes do que aconteceu.

“A gente bebeu vinho durante o jantar, tranquilos, porque eles [os amigos] iam viajar, então a gente fez [o encontro] como uma comemoração. Durante o jantar a gente acabou bebendo bastante vinho, então eles viram que eu não tinha condições de dirigir o carro da minha mãe até a casa dela. Aí eles me trouxeram até aqui [casa da mãe]. Como eu não moro aqui [com a mãe], acho que eu decidi ir para a minha casa. Porque eu pensei: segunda-feira, tenho que trabalhar, tenho que dar aula. Eles [os amigos] deixaram o carro aqui no pátio, me deixaram aqui, e foram embora. E eu nem cheguei a entrar em casa. Senão minha mãe não teria deixado eu ir embora. Minha mãe nem acordou. E eu pedi o Uber, pelo aplicativo. Eu não lembro o que aconteceu durante esse trajeto, muito pertinho (6 minutos, conforme mostra o mapa do aplicativo) até a minha casa, no Água Verde. Não lembro o que aconteceu”, relata.

A professora afirma que tem certeza de que houve o estupro e relata a memória que tem do dia.

“Eu só lembro, a minha primeira imagem dele foi de eu olhar para o lado, eu estava sentada do lado do passageiro do carro, de olhar para o lado, ver ele, e já ver ele com o ‘membro ereto’. Depois disso já lembro dele me puxando para trás, do banco de trás do carro e me machucando. Aí eu falei ‘dói’. ‘Dói’. Eu não lembro quanto tempo ele tentou. Eu não lembro por quanto tempo eu fiquei no carro dele, mas por volta, eu devo ter ficado lá uns 20 minutos. [“E você se debatendo, dizendo que não queria?”, pergunta a repórter]. Eu não lembro disso. Eu só lembro que não queria. E aí eu lembro de eu indo para o banco da frente de novo, sentada no banco da frente e ele pedindo meu número de celular. Eu tenho uma vaga memória, de eu muito lenta, sonolenta, e ele pediu meu número de telefone e eu devo ter dado, não sei”, conta.

A jovem conta que a mãe do motorista entrou em contato com a família para dizer que não acredita no abuso. Ela também conta que depois da repercussão do caso nas redes sociais diversas mulheres entraram em contato para dizer que foram vítimas de casos semelhantes, em que sofreram abusos por estarem alcoolizadas.

“Ele tem que pagar pelo que fez. Mesmo. Eu não sei o histórico dele. Não sei. A mãe dele entrou em contato com a minha mãe ontem. A mãe dele está arrasada, não acredita que o filho fez isso. Porque a gente não quer acreditar, que uma pessoa, que a gente conversa no dia a dia, possa ter feito isso. Durante este momento, que estourou isso nas redes sociais, estão vindo mulheres falar para mim que elas gostariam de conversar comigo, porque elas passaram por uma situação igual e não têm coragem de falar para a família, por que que outras mulheres tem que ficar caladas durante uma coisa que, com certeza, em sã consciência não passariam por aquilo”, afirma.

A mulher também contou que acordou no dia seguinte e viu que havia algo errado.

“No outro dia de manhã eu acordei, fui ao banheiro e senti um incômodo. E veio um sangue. Falei assim: ‘putz, [diz o próprio nome], o que que você fez? Meu Deus do céu. O que você fez?’. Só que aí eu tinha que trabalhar, tinha que ir no banco, tinha que fazer a vida acontecer e resolvi deixar isso quieto. Falei ‘meu Deus, que que eu fiz’, mas tá. Só que aí eu precisei ir ao banco, fui procurar minha carteira e minha carteira não estava na minha bolsa e falei: ‘esqueci minha carteira no carro do cara na hora de eu pagar'”, relata.

Contato com o motorista

cc1d0bde-e732-495e-a2e8-7c8c6ffd00ba“Através do aplicativo entrei em contato com ele, pelo ‘itens perdidos’ o Uber me colocou em contato com ele direto e aí foi que eu falei: ‘oi, a minha carteira ficou no teu carro?’. E ele disse: ‘não, você disse ontem que a sua carteira tinha ficado na casa da sua mãe’. Eu falei: ‘Ó, eu não lembro de nada’ e ele falou assim: ‘eu ia até te ligar mais tarde’. E ali eu me dei conta que eu não tinha pagado a corrida. E ele não reportou isso para o Uber. Ele poderia ter reportado isso para o Uber. Ele não ficaria sem esse pagamento. Sem esses nove reais e noventa e seis centavos. Eu não sei se ele não tinha ficado bravo [e pensado] ‘ah é, não vai me pagar com dinheiro, de outro jeito'”.

Ajuda

“No decorrer do dia eu não consegui dar aula, não consegui trabalhar, não consegui fazer praticamente nada, porque eu fiquei com essa sombra vindo, esses ‘flaches’.  Fiquei tentando lembrar o que tinha acontecido. (…) No outro dia de manhã foi o momento que eu fui falando [diz o próprio nome] ‘tá muito errado isso’. Eu tinha dores musculares. Eu precisava vir aqui na minha mãe e, no meio daquele negócio de vergonha, de remorso, de medo, do que a minha mãe ia pensar de mim, do que eu fiz, e eu falei pra minha mãe ‘vem aqui, eu preciso te contar o que aconteceu’. Aí, pronto. Ali ela me assessorou, me ajudou, a gente foi para a Delegacia da Mulher”, conta.

A jovem fez exames, tomou um coquetel de remédios para prevenção contra doenças sexualmente transmissíveis. Ela deve tomar remédios por 30 dias e fazer acompanhamento com psicólogos durante seis meses. Um boletim de ocorrência foi registrado na Polícia Civil.

Outro lado

O rapaz nega qualquer conduta de abuso contra a passageira. Na internet, após a circulação da foto dele nas redes sociais apontando-o como o motorista relacionado ao caso, ele teria afirmado que tinha namorada e que jamais faria isso.

Amigos da jovem entraram em contato com o motorista pelo Whatsapp e o questionaram. Ele teria dito que a garota estava bêbada e que ela teria tentou agarrá-lo. E que quando disse que tinha namorada, a passageira teria ficado ‘muito brava com ele’. O motorista ainda deve ser ouvido na Delegacia da Mulher. Após a repercussão, o rapaz apagou peris em redes sociais e disse que se apresentaria à polícia na segunda-feira (6).

A Uber afirma por meio de nota que repudia qualquer tipo de violência contra mulheres. De acordo com a empresa, o motorista foi banido da plataforma. A Uber afirma que vai colaborar com as autoridades competentes para ajudar nas investigações. A empresa finaliza destacando a importância de combater, coibir e denunciar casos de assédio e violência contra a mulher.

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