Juíza nega prisão de policial que atirou contra festa em Curitiba

Narley Resende


A juíza Ana Carolina Bartolomei Ramos negou pedido de prisão contra a policial que atirou em direção a uma festa e matou uma mulher de 50 anos no dia 23 de dezembro, no bairro São Francisco, em Curitiba. Em decisão do dia 30 de dezembro, publicada neste domingo, a juíza afirma no despacho que no Estado Democrático de Direito, tendo em vista a presunção da inocência, a prisão seria excepcional, antes da tramitação do processo.

Para justificar o pedido de prisão, o delegado Fábio Amaro, da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa, alega que vários vizinhos da região se sentem atemorizados em prestar depoimento contra a policial. O delegado afirma que precisava ouvir mais testemunhas do caso. Além disso, tendo em vista o crime hediondo, o delegado também quer evitar a descrédito na Justiça.

> Imagens mostram momento em que mulher é atingida por tiro de policial

A juíza afirma que não há fato que comprove ameaça às testemunhas e ressalta que a investigada se apresentou à autoridade para prestar esclarecimentos.

A copeira que foi baleada pela policial civil morreu no Hospital Cajuru no início da tarde de hoje (domingo). Ela estava internada desde o dia 23 de dezembro – dia em que o crime ocorreu.

Rosária Miranda, de 50 anos, participava de uma confraternização da empresa em que trabalhava quando foi atingida por um tiro disparado pela investigadora, que é vizinha da cafeteria onde a festa ocorria.

Um dia depois do crime, a policial civil que deu quatro tiros em direção à festa se apresentou na Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa como autora dos disparos. Ela teria se irritado com o barulho e alega que atirou contra o chão.

A investigadora do Nucria deve responder em liberdade por homicídio qualificado com dolo eventual, quando se assume o risco de matar.

Na semana passada o delegado-geral da Polícia Civil, Julio César dos Reis, disse em nota que a atitude da policial é inadmissível.

Para garantir que as investigações contra a policial não fossem prejudicadas, Reis determinou que ela fosse removida para o grupo de recursos humanos.

Segundo a Polícia Civil, ela deve exercer apenas funções internas e administrativas, sem prejuízo de outras medidas a serem realizadas pelo presidente do Inquérito Policial e ainda pelo corregedor-geral que pode decidir pelo afastamento.

A direção da Polícia enfatizou na nota que “qualquer ato em desconformidade com as regras de conduta contidas nas leis e no estatuto da Polícia Civil será rigorosamente apurado”.

Crime

Segundo um dos funcionários da lanchonete que cedeu espaço para a empresa que realizava a festa, a policial disparou quatro tiros. “Primeiro ela veio aqui na frente do portão, falou para baixar o som. Desligaram o som, a moça que levou o tiro estava com a sacola na mão cumprimentando as pessoas para ir embora na hora que levou o tiro. As imagens mostram que o som foi desligado. O pessoal disse pra ela (policial) que a festa estava acabando”, conta.

Após a perícia, e relatos de testemunhas que constataram a trajetória da bala, a investigadora foi identificada, mas não estava em casa quando a polícia foi até elá na sexta.

De acordo com o delegado Fabio Amaro, a policial alegou que ficou irritada com o barulho da festa de confraternização na lanchonete, que fica na Rua Mateus Leme, 2366.

A investigadora disse que antes de atirar jogou “bombinhas” para assustar os membros da festa e acabar com o barulho. Sem sucesso, ela teria decidido disparar tiros a esmo e que acertou a cabeça da copeira por acidente.

“Ela reside em uma casa, próxima ao local onde acontecia a confraternização. Segundo seu relatório, no termo de interrogatório, ela alegou que a festa se iniciou por volta das 19h. Já era por volta de meia-noite e meia, uma hora, e o barulho não cessava. Em razão disso, ela teria anteriormente atirado algumas bombas, bombinhas de fogos de artifício, para que o pessoal ficasse mais tranquilo, diminuísse a entonação se voz”, relata o delegado.

Estacionamento onde acontecia a festa

Estacionamento onde acontecia a festa, no Centro Cívico.

O funcionário que pediu para não ser identificado afirma que a versão não é verdadeira.

“Eu vi nas câmeras. O tiro que veio pega de cheio na cabeça da guria. É mentira dela (da policial) que disse que a bala recocheteou. Ela atirou em cheio. Ela sumiu três dias, pra fugir do flagrante. Tem as marcas de bala aqui. Ela deu dois tiros para cima e dois em direção do povo”, garante.

A janela da casa da policial fica a 70 metros de onde estava a copeira.

De acordo com o delegado, uma árvore impede a visualização de um ambiente para outro. A policial disse que usou a arma para atirar no chão, mas o tiro recocheteou e acertou a vítima.

“Por fim, totalmente transtornada, ela acabou realizando esse gesto impensado ao qual se utilizou da pistola da instituição, colocou a mão, segundo o que ela diz, na janela da casa e, sem olhar, efetuou um disparo para o chão, que segundo diz, recocheteou no muro e acabou atingindo a vítima”, conta.

Rosária foi atendida pelo Siate. A Polícia Civil só foi acionada quando a vítima já estava internada no hospital.

Indiciamento 

A policial foi indiciada e a arma apreendida e encaminhada à perícia. Uma investigação também também deve ocorrer na Corregedoria da Polícia Civil. A investigadora foi suspensa da atividade de campo e deve exercer funções administrativas até a conclusão do processo.

O delegado afirma que não prendeu a policial por estar seguindo a lei.

“É certo que a gente não espera uma conduta desse talante de um policial que é pago para servir e proteger, que tem que ter total controle de seus atos. Entretanto, é custoso falar que também nós estamos engessados pela lei. O código de processo penal é bem claro em indicar que uma pessoa pode ser presa somente em situação de flagrante delito ou então por mandado judicial”, afirma.

Fabio Amaro confirma que a atitude da policial pode ter sido uma manobra para escapar da prisão imediata. “É comum das pessoas que se envolvem em crimes, contra a vida principalmente, se antecipar à conduta da autoridade e apresentar-se espontaneamente na delegacia, uma vez que essa apresentação espontânea supre essa necessidade do pedido de prisão”.

As imagens das câmeras de segurança da lanchonete foram encaminhadas à polícia. A reportagem não conseguiu contato com o advogado da investigadora.

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