Opinião: “A morte de Isabelly é um grito de socorro de uma sociedade que vive com medo”

Roger Pereira


“Juízes e Justiceiros”

*Por Cláudio Dalledone Junior, advogado criminalista

O caso de Isabelly Cristine não é um espetáculo midiático, não é uma competição por qual redação consegue a melhor notícia, ou qual escritório de advocacia é o mais preparado. O caso Isabelly não é permissão aos justiceiros de redes sociais destilarem ódio e frustração. O A morte de Isabelly é um grito de socorro de uma sociedade que vive com medo, vive em pânico, vive aflita pela violência pública.
Três famílias choram uma tragédia. A família da jovem Isabelly derrama lágrimas pela perda precoce de uma jovem cheia de vida e com um talento promissor. As famílias dos irmãos Vargas (esposas, filhos, pais, mães) choram pela mesma tragédia. Os irmãos Vargas choram presos. Choram pelo infortúnio ocorrido após uma reação de medo daquilo que para eles seria a eminência de um assalto.
Sim. Esses dois jovens não são marginais. Jamais tiveram uma passagem pela polícia, não tem histórico de violência. São trabalhadores, pais de família. O que aconteceu naquela madrugada de 14 de fevereiro de 2018 foi uma fatalidade, não um ato intencional.
A cronologia dos fatos, resgatada em vídeos de câmeras de segurança, mostra um cenário de medo e insegurança. Para que seja possível compreender o que aconteceu, dividi a história em cinco passos.

1- A família Vargas segue em um Citroen Xsara Picasso pela Rodovia PR 412. Eles retornam do Carnaval em Santa Terezinha, onde levaram os filhos para brincar na última noite de festa. No carro estavam: uma criança de cinco anos, uma criança de seis anos, uma criança de dez anos, uma adolescente de 17 anos, além das esposas de Cleverson e Everton;

2- Próximo a rua que da acesso a sua casa, Cleverson Vargas, que dirigia o carro, percebe que um carro vem em alta velocidade, ultrapassando pela direita. Cleverson espera o carro passar, e então faz a conversão para a direita na rua de sua casa;

3- A família Vargas está descendo a rua, quando o carro que ultrapassou eles momentos antes vira um cavalo de pau e retorna rapidamente parando na entrada da rua. Os irmão enxergam aquele carro parado, com os vidros fechados todo insufilmado. É madrugada, não há ninguém nas ruas.
4- Cleverson entra em pânico, o carro morre, ele tenta ligar, mas o carro não pega. Everton, que tem uma pistola registrada em seu nome, também se desespera e saca a arma. Pensando ser um assalto em andamento, o rapaz coloca a arma para fora e dispara na tentativa de evitar o que para eles se tratava de um assalto. Com os disparos, o carro deixa o local.

5- Enquanto isso, a família Vargas está em pânico. Cleverson tenta ligar o carro e finalmente consegue, eles seguem direto para casa. Todos vão dormir. Quando o dia amanhece, já na quarta-feira de cinzas, a família começa a arrumar as malas para voltar a Curitiba e retomar o trabalho. Eles não faziam ideia que dentro daquele carro, não haviam bandidos, mas sim uma adolescente no banco de trás. Não imaginavam. A Polícia Militar chega e informa sobre a tragédia. Ambos são conduzidos a delegacia e acabam presos e o resto da história todos conhecem.

O que aconteceu no litoral do Paraná neste feriado foi uma tragédia sem precedentes. A insegurança, o medo, o pânico e o desamparo de uma população causou a morte de uma adolescente e sepultou em vida, em uma cadeia, dois pais de família. Choram os familiares de Isabelly, choram os familiares de Cleverson e Everton. Everton conta que passou a portar sua arma, uma pistola calibre 380 devidamente registrada , após um amigo ser assaltado e ter a família feita refém dentro de casa no final do ano. Ele não queria aquilo para a sua família.
Everton não queria matar Isabelly. Everton jamais atiraria contra aquele carro se soubesse que lá dentro estava uma mãe e uma filha, pessoas de bem. Everton reagiu ao medo, reagiu a insegurança, reagiu ao sentimento de impotência que pessoas de bem vivem diariamente diante da bandidagem. Everton e Cleverson não são dois marginais, não bandidos. São trabalhadores, pais de família. Voltavam de uma brincadeira de carnaval em família. Não estavam na farra, na bebedeira! Não estavam usando drogas nem cometendo crimes. Estavam em família, fazendo o que as famílias fazem que é conviver, se relacionar, criar seus filhos no bom exemplo perto dos pais, perto dos seus.
Por que aquele carro voltou daquela forma?
Por que aquele motorista, com uma adolescente de 14 anos dentro carro realizou uma ultrapassagem proibida pela direita?
Por que deu um cavalo de pau, fez meia volta e parou na entrada da rua dos irmãos Vargas?
Por que esse motorista andava com um carro fechado de insulfilme ?
Por que todas essas coisas aconteceram sendo que uma adolescente e sua mãe estavam dentro do carro?
São perguntas que precisam ser respondidas, são fatos que precisam ser investigados e nós iremos atrás para investigar.
A tragédia que o Paraná assistiu neste feriado é um grito de socorro de uma sociedade que não aguenta mais tanta violência e insegurança. Isabelly morreu, os irmãos Vargas estão na cadeia. Três famílias estão destruídas. Pessoas de bem, gente honesta, trabalhadora.
Isso não é um espetáculo midiático. Não é um tribunal de Facebook. Aos justos e sensatos, peço orações a todas as famílias. Aos incautos, peço silêncio. Justiçamento não é justiça. O momento é de reflexão da sociedade enquanto a justiça faz o seu trabalho

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Repórter do Paraná Portal
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