Políticos por vocação e políticos por profissão e a vergonha de serem confundidos com gigolôs e conviver com gigolôs

Redação


RubemAlves_relogio

Tensão e euforia se misturam, neste final de semana, em praticamente todas as cidades brasileiras. Dias de convenções dos partidos para indicarem os candidatos a prefeitos e vereadores em mais de cinco mil municípios brasileiros. No Paraná, são 399 cidades. Algumas convenções serão realizadas na próxima semana. Na capital, perto de 10 pretendentes erguem o tom da voz em discursos positivos, críticos, com promessas e esperanças. Tudo em nome do povo, do cobiçado eleitor.

Busquei no mestre Rubem Alves, a análise perfeita para esses festivos dias de convenções e início de campanhas e debate. Em sua magnífica obra “Sobre Política e Jardinagem”, já nos dá lições de vida, de cidadania e democracia. Diz ele que em todas as vocações, a política é a mais nobre. Vocação, um chamado interior de amor.

Rubem Alves nos mostra ensina que “política” vem de polis, cidade. A cidade era, para os gregos, um espaço seguro, ordenado e manso, onde os homens podiam se dedicar à busca da felicidade. O político seria aquele que cuidaria desse espaço. A vocação política, assim, estaria a serviço da felicidade dos moradores da cidade”.

Talvez por terem sido nômades no deserto, os hebreus não sonhavam com cidades: sonhavam com jardins. Quem mora no deserto sonha com oásis. Deus não criou uma cidade. Ele criou um jardim. Se perguntássemos a um profeta hebreu “o que é política?”, ele nos responderia, “a arte da jardinagem aplicada às coisas públicas”.

O político por vocação é um apaixonado pelo grande jardim para todos. Seu amor é tão grande que ele abre mão do pequeno jardim que ele poderia plantar para si mesmo. De que vale um pequeno jardim se à sua volta está o deserto? É preciso que o deserto inteiro se transforme em jardim.

Depois de dizer que entre as vocações a política é a mais nobre, Rubem Alves também observa que existem muitos os políticos profissionais. “Posso, então, enunciar minha segunda tese: de todas as profissões, a profissão política é a mais vil. O que explica o desencanto total do povo, em relação à política. Guimarães Rosa, perguntado por Günter Lorenz se ele se considerava político, respondeu: “Eu jamais poderia ser político com toda essa charlatanice da realidade… Ao contrário dos ‘legítimos’ políticos, acredito no homem e lhe desejo um futuro. O político pensa apenas em minutos. Sou escritor e penso em eternidades. Eu penso na ressurreição do homem.” Quem pensa em minutos não tem paciência para plantar árvores. Uma árvore leva muitos anos para crescer. É mais lucrativo cortá-las”.

Nosso futuro depende dessa luta entre políticos por vocação e políticos por profissão. O triste é que muitos que sentem o chamado da política não têm coragem de atendê-lo, por medo da vergonha de serem confundidos com gigolôs e de terem de conviver com gigolôs.

Talvez, então, se os políticos por vocação se apossarem do jardim, poderemos começar a traçar um novo destino. Então, ao invés de desertos e jardins privados, teremos um grande jardim para todos, obra de homens que tiveram o amor e a paciência de plantar árvores à cuja sombra nunca se assentariam.

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