Reconstituição de confronto entre MST e PM será feito nesta quarta-feira

Fernando Garcel


Membros da Comissão de Direitos Humanos da OAB do Rio de Janeiro estão em Quedas do Iguaçu, no oeste do Paraná, para acompanhar a reconstituição do suposto confronto entre policiais militares e e integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que aconteceu no dia 07 de abril e terminou com dois mortos e outros seis feridos.

Nesta terça-feira (10), o Tribunal do Júri do município recebe reuniões para definição do andamento dos trabalhos de reconstituição que devem acontecer nesta quarta-feira (11). Além de membros da Comissão, policiais militares, civis e a Polícia Federal (PF) também farão parte da reconstituição.

O caso permanece em sigilo de justiça e a imprensa não poderá acompanhar o processo. A exumação dos corpos será feira pela PF, mas a data ainda não foi definida.

Confronto

Dois sem terra morreram em um suposto confronto com policiais militares nas áreas da Araupel. O conflito ainda deixou ao menos seis pessoas feridas. Nenhum PM se feriu. O MST e governo do estado divergiram sobre qual teria sido o estopim do conflito.

Versão da PM

Na versão da PM, duas equipes foram até o local, de difícil acesso, após terem sido acionados para apagar um incêndio. Eles estavam na companhia de funcionários da empresa e teriam sofrido uma emboscada.

“Assim que o fogo começou, os policiais da Rotam (Rondas Ostensivas Tático Móvel) e uma brigada de incêndio da empresa Araupel foram até o local para combater as chamas. Mas antes de chegar ao local da queimada, os policiais foram alvo de uma emboscada”, diz uma nota publicada ontem pela Secretaria de Segurança Pública. “Mais de 20 pessoas do MST estavam no local e começaram a disparar contra as equipes da PM, que reagiram ao ataque”.

Dois sem-terra foram presos e duas armas foram apreendidas pela PM.

Versão do MST

A coordenação estadual do MST afirma que não havia incêndio, e que os integrantes do movimento só foram até uma área de mata fechada para descobrir quem estava no local, quando foram atacados. Segundo o MST, a Polida Militar não costumava ir até a área, o que causou surpresa.

“Os nossos companheiros, como periodicamente saem fazer vigília, olhar na área ocupada, foram surpreendidos pela Bope, da Polícia Militar, que saíram do meio do mato já atirando nos nossos companheiros. Eles não deixaram [os Sem Terra] resgatar os companheiros feridos, os companheiros mortos. (…) Nós não vamos deixar em vão o sangue derramado dos nossos companheiros”, disse Rudimar Moisés, membro do MST.

Segundo o MST, morreram no confronto Vilmar Bordim, 44 anos, e Leomar Bhorbak, 25. Vilmar era casado e tem dois filhos, e Leomar, a esposa está grávida de nove meses.

Disputa

No local do confronto está montado o acampamento Herdeiros da Terra de 1° de Maio, com 7 mil pessoas. Ainda de acordo com o MST, seria frequente a presença na região de homens armados, que seriam contratados pela Araupel. Já a empresa nega.

Diversas áreas que somam mais de 70 mil hectares são alvos de uma disputa judicial há mais de 20 anos na região. O movimento acusa a Araupel de grilagem, quando alguém se apropria de terras públicas, através da falsificação de documentos. Na região, a empresa produz madeira para exportação e produção de materiais de madeira para o mercado interno.

A Araupel recorre de uma decisão de primeira instância que desapropria parte das terras. Em alguns casos, a Araupel conseguiu reintegração de posse em ações provisórias, mas que não foram cumpridas pelo Estado.

No final do ano passado, a Justiça Federal sentenciou que outra área da Fazenda Rio das Cobras, em Quedas do Iguaçu, pertence à União. Uma ação semelhante já havia sido julgada procedente para outra área do mesmo imóvel. Na sentença mais recente, a Justiça anulou as matrículas de nove imóveis que estão sob domínio da empresa Araupel.

A ação foi movida pela Procuradoria da União em conjunto com o Incra e Procuradoria Federal. Outra ação com o mesmo teor tramita na Justiça Federal referente ao imóvel Pinhal Ralo, mas ainda sem decisão.

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