Deepfake: conheça o editor autodidata que coloca políticos em vídeos inusitados

Mariana Ohde

Vídeos bem-humorados sobre política têm chamado a atenção na internet nas últimas semanas. E não são vídeos comuns: estes são produzidos por meio de Inteligência Artificial, capaz de substituir rostos e criar situações bastante inusitadas com figuras conhecidas.

Os trabalhos são do jornalista e editor Bruno Sartori, de 30 anos, que tem se especializado nessa tecnologia, popularmente conhecida como deepfake.

Brunno é morador de Unaí, em Minas Gerais, e aprendeu sozinho. Ele começou a fazer cartoons e edições durante a adolescência, inspirado pelas charges de Maurício Ricardo.

“Eu desenhava no Paint, com mouse, bem amador, desenhava quadro a quadro, salvava um por um e abria o Windows Movie Maker, o editor que vídeo ao qual eu tinha acesso, e ali mesmo eu aprendi a mexer, a fazer vídeos”.

Com o tempo, Bruno aprendeu novas técnicas e teve acesso a novas ferramentas, até chegar ao trabalho atual: uma combinação entre Inteligência Artificial, que faz a substituição dos rostos, e a pós-produção, que deixa as imagens mais realistas.

Já o tema política veio de forma natural, segundo Bruno. “Sempre tive um senso crítico forte em relação à política, então eu já fazia esses vídeos aqui na cidade, inclusive com troca de rostos”, conta, relembrando o início, em 2007.

As inspirações para os novos trabalhos estão no noticiário e vêm, também, de sugestões das pessoas que acompanham as páginas no Instagram e YouTube. “Todo dia tem alguma coisa. Esse governo é muito maluco”, brinca.

Fake?

As imagens de rostos trocados podem levantar questões em relação a conteúdos falsos – um problema crescente em tempos de mídias sociais. Segundo Bruno, no caso da deepfake, há dois lados da moeda. Ela pode ser usado para distorcer informações, mas ainda há como identificar tais manipulações, de acordo com o jornalista.

“Por mais realista que seja, uma pessoa com bom senso consegue discernir, ainda, se é falso ou não é. Primeiro pelo absurdo. A coisa inusitada”, afirma. “Ninguém vai olhar para o Bolsonaro de Chapolin Colorado e achar que realmente é ele”, brinca, citando um de seus vídeos que brinca com o presidente Jair Bolsonaro.

Há também as questões técnicas. Bruno explica que a tecnologia ainda tem limitações, como a de iluminação e de ângulo. “Nunca consegui encontrar uma biblioteca de código aberto que conseguisse trabalhar com pouca luz, quando está muito escuro, os rostos, não funciona”, explica.

Ele também confia na checagem da imprensa e outros especialistas. “Não tem cabimento fazer um vídeo falso. A quantidade de jornalista que tem para fazer essa checagem desse material é absurda”, exemplifica.

Aperfeiçoamento

Bruno, que ganhou milhares de seguidores nas redes sociais nas últimas semanas, aprendeu a usar a tecnologia por conta e gosto. “Em cidades do interior, a gente não tem qualquer tipo de empresa que dê cursos, seja de áudio, vídeo ou foto”, lamenta.

As substituições, segundo ele, são feitas por meio de bibliotecas de código aberto, que lembram sistemas como o Linux. O código executa o aprendizado da máquina, que faz a substituição. As imagens são inseridas neste sistema e o computador simula os movimentos. Quanto mais informação, mais próximo do real o resultado. Em seguida, vem a pós-produção, que acerta detalhes como cores e iluminação.

Por causa das exigências do trabalho, Bruno deu início a uma vaquinha online para adquirir equipamentos e dar conta das sugestões dos seguidores das páginas. Hoje, tudo é feito em um computador comum, com alguns componentes adequados ao trabalho de edição.

“Com ele eu consigo processar, mas, como a demanda é muito grande, porque todo dia eu faço um meme de um político, todo dia tem coisa nova, acumula muito. Tenho quatro ou cinco vídeos que preciso terminar e não consigo”, lamenta.

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Mariana Ohde
Repórter no Paraná Portal