Sintonia Fina - Pedro Ribeiro
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Filho coloca Bolsonaro entre o sacrifício do cordeiro e a credibilidade do governo

 Nesse redemoinho de suspeitas que se levanta em torno do filho do presidente por práticas ilícitas e desonr..

Pedro Ribeiro - 19 de janeiro de 2019, 08:47

Foto Wilson Dias/Agência Brasil
Foto Wilson Dias/Agência Brasil

 

Nesse redemoinho de suspeitas que se levanta em torno do filho do presidente por práticas ilícitas e desonrosas a respeito da divisão de salários pagos a seus funcionários com dinheiro do contribuinte, parece que a dignidade que resta aponta para uma única saída: a renúncia de seu mandato como senador eleito pelo Estado do Rio de Janeiro.

Cada vez mais em que se posterga um desfecho quase inevitável de perda de mandato mais à frente, o filho do presidente Jair Bolsonaro arrasta para dentro do governo do pai uma bomba de efeito já não tão retardado que lhe compromete a credibilidade,  e que pode chegar aos pés da cama do Palácio do Alvorada.

Já parece  crível, nem para as almas insensatas do bolsonarismo, ou para aqueles que resguardam a racionalidade, que o filho Flávio  meteu os pés pelas mãos, ainda que nada reste provado. A divulgação dos dados de recebimentos de depósitos em sua conta bancária  em sequências de minutos como revelou o Coaf, deixa pouca margem para dúvidas.

O desconforto de membros do governo já não se expressa mais intramuros e só seus integrantes dados a impulsos insensatos de falar pelos cotovelos colocam mais fogo na fogueira. Querem levar para o campo político uma questão que parece de rasa delinquência ética, como faz o ministro Chefe da Casa Civil, Onix Lorenzoni ao acusar uma oposição subjetiva de tentar levar a eleição para um terceiro turno.

Mais comedido e com a percepção da gravidade das denúncias que envolvem o ex-motorista do senador Flávio Bolsonaro e que também bate à sua porta do novo senador,  o general Augusto Heleno, Ministro do Gabinete institucional preferiu ficar calado. Disse que não comentaria o assunto. Sabe  como militar que estudou por anos estratégias de combate em hipotéticos teatros de guerra que o episódio pode ganhar proporções imprevistas e inesperadas.

Trata o general em seu prudente silêncio de imaginar a estratégia de combate para minimizar os estragos causados na retaguarda pelo próprio filho do Presidente, com seu insensato e voluntário pedido ao STF de encerramento das investigações sobre seu assessor,  valendo-se do foro especial por ser senador. Colocou apenas mais lenha na fogueira, provocando a reação do Ministério Público que também, a seu modo  pouco ortodoxo, fez vazar o levantamento sobre a movimentação da conta bancária do filho do presidente quando era deputado estadual.

A renúncia eventual mais improvável do senador Flávio Bolsonaro de seu mandato, ainda que não retire as críticas e a suspeição sobre sua conduta, aliviaria a carga de uma gigantesca pá de cal que se prenuncia sobre a credibilidade e a popularidade que hoje usufruiu o novo governo.

O desgaste que já está causando o assunto que não sai das manchetes, ameaça de corroer a base de apoio do governo nas reformas que pretende conduzir para alavancar o país da crise e que dependem da aprovação do fisiológico Congresso Nacional.

A decisão do ministro do STF, em trancar a investigação sobre o motorista de Flávio Bolsonaro, a pedido deste, apenas deu tempo para o governo e o pai presidente ponderar as consequências  que virão.

Mesmo porque, o Ministro relator, Marco Antonio Melo, a quem Fux encaminhou o pedido do senador para uma decisão final, antecipou que não concorda com o fim da investigação sobre o motorista Fabrício Queiroz.

Parece que o general Heleno, como todo militar estrategista, conseguiu ganhar mais tempo, propositadamente ou por boa ventura, até que o presidente decida os destinos do filho. E, com ele, salve seu governo.

Com confissão de fé evangélica, resta saber se o presidente, como os hebreus da antiguidade, oferecerá em sacrifício algum cordeiro  em homenagem ao Deus da governabilidade.