Água do Rio Passaúna está contaminada por antibióticos, aponta pesquisa

Uma pesquisa feita pela Universidade Positivo aponta que as águas do rio Passaúna estão contaminadas com antibióticos, hormônios e bactérias super-resistentes. O reservatório ajuda a abastecer as regiões oeste e sul de Curitiba.

De acordo com o levantamento, duas espécies de peixes que vivem no rio também têm concentração de antibiótico no organismo. A pesquisa não mediu o volume de medicamento encontrado na água, mas encontrou grande concentração de cafeína, que é usada em diversos remédios.

A coordenadora da pesquisa, Eliane Carvalho de Vasconcelos, é professora do Mestrado em Gestão Ambiental e Biotecnologia Industrial da UP, e explica que as substâncias são oriundas de dejetos de animais como ovelhas e cavalos que vivem na região do Parque Passaúna, lixo doméstico, pontos de esgoto irregular, entre outros fatores. “Ao longo do rio Passaúna nós temos aterros sanitários desativados, mineração, então tem vários fatores que podem influenciar”, disse.

Conforme a pesquisadora, a contaminação de antibióticos na água pode fazer com que as bactérias presentes no rio fiquem resistentes a esses medicamentos. “Você tem vários micro-organismos que estão na água, que não entraram em contato com o ser-humano ou outro mamífero que estão fora da água, e eles podem se tornar resistentes”, explicou.

Eliane explica que uma água contaminada com antibióticos pode causar sérios problemas para saúde. “Se tiver um contato primário, ou, por exemplo, vai nadar no rio e engole a água, você pode ter um prejuízo desde alergias até a adquirir uma bactéria super-resistente”, ressaltou.

Segundo a pesquisadora, a qualidade da água do Passaúna é considerada boa, mas é necessário monitoramento permanentemente. As pesquisas são feitas há 14 anos e desde o ano passado é registrada uma diminuição nos níveis de cafeína do rio. Próximo a saída do reservatório os índices de contaminação são bem baixos. “A água que é coletada para o consumo é uma água de boa qualidade, com todos os tratamentos que ela passa, tem a garantia de boa qualidade para consumir”, afirmou.

O Instituto Ambiental do Paraná é responsável por monitorar e fiscalizar a qualidade dos rios paranaenses. A diretora de Políticas Ambientais da Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Fabiana Campos, reconhece o problema do rio Passaúna e explica que a pasta desenvolve projetos para conscientizar a população sobre a importância de preservar os rios. “Esses programas envolvem a educação nas escolas sobre o cuidado com os rios. Então a gente trabalha com as crianças na educação formal e com as pessoas na educação não formal”, destacou.

Procurada pela reportagem, a Sanepar informou que a água distribuída pela companhia atende a todos os critérios de qualidade e potabilidade determinados pela legislação brasileira e pelos órgãos ambientais. Em todo o mundo, ainda são incipientes as pesquisas sobre contaminação por antibióticos.

Pesquisadores da UFPR podem produzir antibióticos para tratamento de câncer

Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) estiveram na Serra do Amolar, em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, no último mês de fevereiro, para fazer o recolhimento de materiais que podem produzir antibióticos para o controle de bactérias multirresistentes hospitalares e de células cancerígenas. Eles fizeram a coleta de libélulas, moscas, moluscos e plantas medicinais do pantanal.

Ao todo, 30 pesquisadores de diferentes regiões do Brasil participaram da primeira expedição científica organizada pelo Instituto Serra do Amolar. O objetivo foi apresentar a região para pesquisadores de instituições do país e de sociedades científicas, que fizeram reconhecimento e coleta de material para estudo e conservação da fauna.

“Foi possível coletar materiais que não existem em outro lugar do mundo, como a planta Cambará”, ressalta Chirlei Glienke, professora do Departamento de Genética da UFPR. As folhas da planta medicinal serão analisadas por docentes, mestrandos, doutorandos e estudantes de iniciação científica do Departamento. Segundo a professora Chirlei, os micro-organismos serão isolados e daqui a cerca de um ano devem produzir metabólicos secundários com atividade biológica como antibióticos e citotóxicos contra células tumorais.

Entre os resultados esperados estão novos compostos que podem ser explorados pela indústria farmacêutica para ajudar no tratamento de câncer e controle de bactérias multirresistentes hospitalares. Além disso, as linhagens entrarão nas coleções biológicas da UFPR e serão disponibilizadas na internet no projeto Taxonline. “Trata-se também da conservação da biodiversidade do pantanal”, acrescenta Chirlei.

As coletas dos grupos zoológicos de Odonata (libélulas), Diptera (moscas) e Mollusca (moluscos) também serão preparadas para depósito em coleções biológicas, identificação taxonômica e estudos em biodiversidade. “Espécies novas poderão ser reconhecidas e descritas pela primeira vez para a ciência”, diz Luciane Marinoni, professora do Departamento de Zoologia da UFPR e presidente da Sociedade Brasileira de Zoologia.

Preservação do patrimônio genético do Brasil

A pesquisadora Luciane ressalta que as coleções biológicas são importantes para a preservação do patrimônio genético natural do Brasil. “Há material depositado em coleções que não existem mais na natureza. Ter esse material em coleções ajuda no controle de doenças, entendimento da história da natureza, reconhecimento de áreas de preservação e desenvolvimento da ciência”, enfatiza.

Segundo a professora, somente instituições que possuem reconhecida excelência em estudos em biodiversidade foram convidadas a participar da expedição científica. “Esse é um reconhecimento da UFPR como uma dessas instituições”, afirma Luciane.

2050: resistência a antibióticos deve matar 10 milhões ao ano

Redação com assessoria

O uso racional de antibióticos é de extrema importância para a saúde da população em geral. Nos consultórios e pronto-atendimentos, é comum o pedido de pacientes para a prescrição de antibióticos. Mas a prescrição correta é algo fundamental para combater a resistência bacteriana.

O uso indiscriminado pode fazer com que o mundo entre na “era pós-antibiótica”, que será muito semelhante à “era pré-antibiótica”, antes da descoberta da penicilina, quando infecções que hoje consideramos simples eram intratáveis e levavam a óbito.

De acordo com uma pesquisa da Comission Antimicrobial Resistence (AMR), a partir de 2050 a resistência ao medicamento deve levar a morte de 10 milhões de pessoas por ano.

A infectologista do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital São Vicente, Vanessa Strelow, explica como surge a resistência e como evitar que ela aconteça:

Como surge a resistência das bactérias aos antibióticos?

O uso de antibióticos seleciona as bactérias que são resistentes a eles. Funciona como Darwin explicou: as bactérias têm mutações ao acaso. Alguns desses genes mutantes podem ser benéficos a elas, as deixando, por exemplo, resistentes contra um determinado antibiótico. Ao usarmos esse antibiótico, morrerão as bactérias sem a mutação e sobreviverão aquelas com a mutação. Por isso dizemos que elas são selecionadas. As “bactérias filhas” dessas com o gene de resistência terão também essa mutação, e portanto somente essa linhagem resistente sobreviverá. Essa bactéria pode provocar uma infecção naquela pessoa ou ainda ser transmitida para outras pessoas. Por esse motivo, o antibiótico é uma medicação preciosa e perigosa: deve ser usada de maneira criteriosa, informada e consciente desses riscos, e somente quando prescrito por médicos.

Como podemos interferir para evitar a projeção da pesquisa que estima que em 2050 a resistência a antibióticos irá matar 10 milhões de pessoas no mundo por ano?

Podemos interferir para evitar que essa projeção se confirme através do uso racional de antimicrobianos: usar antibiótico somente quando necessário, usar o antibiótico certo para cada caso, pelo tempo correto, na dose correta. É precisa haver educação da população e dos profissionais de saúde nesse sentido. Outra questão importante é que sejam seguidas medidas de controle de uso de antimicrobiano em agropecuária. Antibióticos não são somente usados em humanos, são também usados em agropecuária em grande quantidade e devem ser fiscalizados para evitar o uso incorreto e excessivo.

Qual o perigo das infecções por bactérias multirresistentes?

O problema das infecções por bactérias multirresistentes é que perdemos os antibióticos que deveriam combater esses agentes, o que nos deixa muitas vezes com opções restritas de drogas para utilização e, em alguns casos, sem nenhuma opção. Somos obrigados a usar antibióticos menos eficazes porque as melhores opções foram perdidas para a resistência. Às vezes temos que usar drogas bastante tóxicas para combater a infecção e, às vezes, simplesmente não temos opção terapêutica. Por esse motivo tememos entrar na “era pós-antibiótica”, que será muito semelhante à “era pré-antibiótica”, antes da descoberta da penicilina, quando infecções que hoje consideramos simples eram intratáveis e levavam a óbito.

Como combater? Eu prefiro usar a expressão “como desacelerar”, uma vez que já estamos vivendo esse processo. São importantes três medidas: uso racional dos antimicrobianos que temos hoje, criação de novos antibióticos (um processo demorado e caro) e medidas para evitar transmissão de infecções, como a higiene de mãos e o consumo de água potável, por exemplo.

Quais são os principais fatores que levam ao desenvolvimento dessas superinfecções no corpo humano?

O uso prévio de antibióticos é o principal fator que predispõe ao desenvolvimento de uma infecção multirresistente. A internação em hospitais também é um fator para o desenvolvimento de infecções por bactérias mais resistentes, uma vez que elas são mais comuns nesses locais pois há mais uso de antibióticos e os pacientes estão mais debilitados e propensos ao desenvolvimento de infecções.

O mundo está preparado para enfrentar uma epidemia de superinfecções? E o Brasil?

Não, eu diria que nem o mundo nem o Brasil estão preparados. As bactérias desenvolvem mecanismos de resistência com maior velocidade que a indústria farmacêutica desenvolve novas drogas para combatê-las. Além disso, o aumento nas infecções por bactérias multirresistentes implica em aumento de hospitalizações, de custos, de complicações infecciosas e de complicações por toxicidade medicamentosa. Tudo isso irá sobrecarregar o nosso sistema de saúde.

Quais são os principais desafios na luta contra infecções resistentes a antibióticos?

É preciso conscientização da população, dos profissionais de saúde e dos governos para a dimensão desse problema, pois só assim todos estarão sensibilizados às implicações da resistência bacteriana. Cada vez que um médico prescrever um antibiótico ele deve saber responder para qual indicação está prescrevendo, se é realmente necessário, se é o melhor agente para aquele caso, se está na dose correta, se a duração deve ser aquela. O paciente, por sua vez, deve seguir as orientações de uso, e não deve nunca pressionar um médico a prescrever antibiótico quando o profissional julgou não ser necessário.