Dia de campo comprova segurança na pulverização aérea

A simulação de uma pulverização aérea, conduzida em Goioerê, no Noroeste do Paraná, comprovou que a adoção de um conjunto de boas práticas garante segurança total nessa modalidade de aplicação de defensivos. Na ação, a deriva – deslocamento de gotículas pulverizadas para fora da faixa-alvo da aplicação – não chegou a 50 metros: distância pelo menos cinco vezes menor que a área de segurança definida por lei. A demonstração fez parte do dia de campo “Boas práticas na aplicação aérea”, promovida pelo Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag), com apoio do Sistema FAEP/SENAR-PR, além de outras empresas e entidades.

Na demonstração, o avião fez as aplicações ao longo de uma faixa linear de 400 metros de extensão, em uma lavoura de soja. Para comprovar as áreas em que houve deposição – onde as gotículas efetivamente caíram –, posicionaram-se papelotes a cada cinco metros, a partir da faixa de aplicação, até se chegar a um raio de 100 metros (veja o infográfico). Para pulverizar o produto, a aeronave fez voos rasantes, a alturas entre três e cinco metros, a partir do topo da cultura.

A análise dos papeis comprovou que a deposição se concentrou na faixa de aplicação. A partir de 30 metros desta DEMONSTRAÇÃO área, já não se verificava concentração considerável do produto. Dos 50 metros em diante já não havia vestígios das gotículas pulverizadas. O índice de deriva verificado se encontra, com grande margem, dentro da área de segurança estabelecida pela Instrução Normativa (IN) 2/2008, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). A norma estabelece que as aplicações aéreas sejam feitas a uma distância mínima de 500 metros de cidades ou bairros, ou de 250 metros de mananciais e moradias isoladas.

“As boas práticas minimizam os riscos na aplicação aérea, a ponto de praticamente eliminá-los. Qualquer pulverização dentro dessas boas práticas vai ser completamente segura para a sociedade. Os parâmetros ficam dentro da legislação vigente, dentro do considerado aceitável pelos órgãos ambientais e das diretrizes do Mapa”, observou o professor Ulisses Rocha Antuniassi, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), especialista em aplicação aérea e que conduziu a prática.

Outro ponto que chama a atenção é que a aplicação se mostrou segura – com deriva dentro da margem de segurança definida em lei – mesmo com a demonstração tendo sido feita em condições meteorológicas adversas. Durante o voo, o vento chegou a 21 quilômetros por hora, quando o ideal é inferior a 9 quilômetros por hora. “Se fosse para fazer uma aplicação convencional, o avião nem teria decolado, porque o vento pode favorecer a deriva. Nós fizemos, por se tratar de uma demonstração. E ainda com o vento superior, a deriva ficou bem abaixo do limite estabelecido”, disse o professor.

Para a técnica do Departamento Técnico da FAEP Elisangeles Souza, que monitora temas diretamente relacionados ao controle de agroquímicos, o evento atesta que a IN 2/2008 garante, com folga, que a pulverização aérea não implique em riscos ambientais nem às comunidades no entorno das propriedades. “A legislação fala em 250 [metros] e em 500 metros, como área de segurança. Se comprovou que a deriva ficou em uma área pelo menos cinco vezes menor. Isso quer dizer que a legislação é bem segura em relação a essa questão de prática no campo”, apontou.

Pilares da segurança

Para se chegar a esse resultado, no entanto, o professor Ulisses Antuniassi destacou que, além de seguir as determinações da legislação, é imprescindível adotar uma série de boas práticas – que ele divide em “três pilares”. O primeiro é a gestão da informação. Neste aspecto, o produtor e a empresa aérea devem fazer um levantamento do entorno – identificando eventuais áreas sensíveis e de segurança – e estabelecer um mapeamento da aplicação, respeitando as faixas de segurança.

O segundo ponto é adequar o plano de aplicação aos aspectos meteorológicos. Ou seja, deve-se proceder a pulverização apenas diante de condições de tempo consideradas ideais, observando, por exemplo, a temperatura e a umidade, além da direção e da força do vento. Tudo isso, levando-se em conta o tipo de produto a ser aplicado e as especificações que constam da bula.

O terceiro pilar, segundo o especialista, é a adoção de técnicas que reduzem a possibilidade de haver deriva. Neste ponto, a empresa deve levar em conta a composição da cauda do avião e a altura do voo de pulverização, de acordo com as condições do tempo e do tipo de lavoura. Entre os aspectos técnicos, o professor destaca o ajuste do espectro de gotas, que dimensiona a espessura das gotículas que serão pulverizadas sobre a plantação. “Quer reduzir a deriva, tem que se evitar gotas menores, que estão mais suscetíveis ao vendo e às condições atmosféricas. É muito melhor optar por gotas médias”, pontuou.

Bom senso

Ainda segundo o professor, a cada safra, cerca de 25% das aplicações de defensivos no Brasil são feitas por aviões. Para o especialista, o tema merece ser analisado com serenidade e bom senso. Ele observa, por exemplo, que é preciso analisar o tipo de cultura, dimensão e a área em que se encontra a lavoura, para definir qual é o melhor método de controle de pragas. A aplicação de defensivos por meio de aviões é inviável, por exemplo, a pequenas propriedades, mas é indispensável a plantações extensas, principalmente a culturas como soja, algodão, milho e cana-de-açúcar.

“Em muitas culturas, em muitas regiões, não precisa de aplicação aérea. Mas em outras, é imprescindível. Na cana, por exemplo, depois que ela atinge dois metros, não tem como fazer aplicação, sem ser pela plataforma aérea. Mais de 60% das aplicações em cana adulta têm que ser feitas por avião, porque não dá para fazer de outra forma”, ressaltou. “Do ponto de vista técnico, eu posso dizer que o controle químico é seguro. Do ponto de vista de sociedade, digo que é fundamental que coexistam técnicas diferentes, como agricultura orgânica e controle químico, para que possam se complementar e que a gente possa gerar segurança alimentar para a sociedade”, apontou.

A técnica da FAEP destacou que o evento representou mais uma oportunidade de se disseminar informação técnica e qualificada, em relação a um tema que é alvo de uma série de preconceitos por parte de segmentos da sociedade. “É importante a gente trabalhar com informação segura e favorecer esse nivelamento de informação”, disse Elisangeles Souza.

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Logística reversa de embalagens de agroquímicos do Brasil é a melhor do mundo

Por André Amorim

O produtor rural paranaense já sabe: depois de utilizar um produto agroquímico, precisa lavar a embalagem três vezes (tríplice lavagem) e encaminhá-la para a reciclagem. Desde o ano 2000 essa prática faz parte da rotina do homem do campo, que consolidou o Brasil como o maior recolhedor deste tipo de embalagem no mundo.

No centro deste trabalho está o Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (InpEV), entidade sem fins lucrativos formada pelas associações das indústrias de agroquímicos no Brasil, para dar conta de uma legislação que obriga os fabricantes a realizarem a logística reversa das embalagens. Ou seja, as empresas precisam dar o encaminhamento ambientalmente correto destes materiais após o seu uso no campo.

De acordo com o coordenador regional de operações do InpEV no Paraná, Fábio Macul, essa história começa ainda antes do ano 2000. Na época do então governador Jaime Lerner foi criado o projeto “Terra Limpa”, que levou o Estado a se tornar o primeiro do país a manter um programa de recolhimento, armazenamento e reciclagem de embalagens de agroquímicos. “Só que o governo estadual descobriu que não tinha o que fazer com aquelas embalagens. E o volume era muito grande”, recorda.

Logo na sequência, a Lei Federal 9.974/00, promulgada em junho de 2000 e regulamentada em 2002, trouxe novidades para o setor ao atribuir a cada agente da cadeia agrícola – produtor, comerciante, fabricante e poder público – a responsabilidade pela devolução das embalagens usadas dos produtos agroquímicos. Nesse contexto, o InpEV surgiu para integrar todos os elos desta cadeia produtiva e gerenciar o sistema de logística reversa.

Desde que entrou em funcionamento, em 2002, o instituto já recolheu mais de 537 mil toneladas de embalagens. O número pode ser conferido no “Embalômetro”, sistema de contagem disponível no site do InpEV (www.inpev.org.br) que aumenta a cada minuto, conforme mais material é recolhido.

Hoje, segundo Macul, o índice de devolução das embalagens usadas no Brasil é de 94%. Para efeito de comparação, em segundo lugar no ranking mundial vem a Alemanha, com 70%, e, na sequência, o Canadá, com 65%. “Nós somos reconhecidos no mundo como excelência no tratamento desses resíduos. Recebemos visitas de outros países para entender como a gente promove a gestão desse negócio num país continental”, diz o coordenador do InpEV.

O Paraná é o segundo Estado brasileiro em volume total de entregas, atrás somente do Mato Grosso. De acordo com Macul, isso poderia se explicar pelo consumo maior destes produtos no Estado do Centro-Oeste. O índice de entregas paranaense é de 98% do utilizado, acima da média nacional.

Do total recolhido, 97% são encaminhados à reciclagem, onde se tornam novos produtos, como embalagens de produtos agroquímicos, fechando o ciclo de vida dos produtos. Os 3% restantes, que por algum motivo não podem ser reciclados, são incinerados.

Para realizar o recolhimento, o InpEV dispõe de uma rede formada por postos e centrais, presentes em diversos municípios. No Paraná são 51 postos de recebimento e 13 centrais, além de 3 mil locais de entrega.

Outra forma de destinar as embalagens é o recebimento itinerante, por meio do qual as associações especificam um calendário para o recolhimento. Desta forma, o produtor sabe que naquele dia será feita a coleta num local perto dele. Basta entrar no site do InpEV e verificar o calendário na região. Em todo Brasil são mais de 5 mil postos de recebimento.

Entrega correta

Parte da responsabilidade no processo de logística reversa cabe ao produtor rural. Antes de destinar a embalagem vazia ao InpEV, é preciso realizar a tríplice lavagem (veja abaixo como efetuar o procedimento). Esse processo é indispensável para a reciclagem e deve ser feita conforme norma específica (NBR 13.968) da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

No ato de entrega das embalagens, o produtor deve retirar o comprovante de devolução. O documento, que precisa ficar guardado por cinco anos, é a prova de que o produtor fez a destinação correta da embalagem.

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Coordenadas geográficas em receita agronômica passam a ser obrigatórias

Os profissionais responsáveis por emitir receituários agronômicos no Paraná passam a ser obrigados a incluir no documento as coordenadas geográficas de um ponto dentro da propriedade onde será feita a aplicação de defensivos agrícolas. A medida visa aumentar a precisão das informações sobre o uso de agroquímicos no Estado, de modo a aprimorar o monitoramento e controle fitossanitário nas lavouras paranaenses.

A obrigatoriedade foi implementada por meio da Portaria 103 de 2019, da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar). Inicialmente, a exigência passaria a valer no fim de junho, 60 dias após a publicação em Diário Oficial – que ocorreu no dia 26 de abril. Mas, para fornecer mais tempo para os envolvidos se adaptarem às novas exigências, o órgão estadual prorrogou o início da exigência para o dia 10 de setembro, por meio da Portaria 188, de 24 de junho de 2019.

A novidade não implica em qualquer alteração na rotina dos produtores rurais, enfatiza o coordenador do Sistema de Monitoramento de Agrotóxicos (Siagro) da Adapar, Luiz Angelo Pasqualin. “Ao produtor não haverá qualquer mudança. O produtor deve observar que os defensivos sejam aplicados de acordo com o recomendado nas receitas. A fiscalização continuará exigindo as mesmas documentações na propriedade”, reforça.

Confira a entrevista com Pasqualin sobre a nova exigência.

BI – Por que foi instituída a obrigatoriedade das coordenadas geográficas na receita agronômica e o que essa medida muda na rotina do produtor rural?

LAP – A obrigatoriedade da localização da propriedade na receita agronômica é exigida desde 2002, de acordo com o artigo 66 do Decreto Federal 4074/02. A complementação desta informação textual com uma coordenada geográfica, funciona como um “CEP”, visto que muitas vezes existem propriedades de mesmo nome no mesmo município e localidade.

De quem é a responsabilidade de indicar as coordenadas geográficas no receituário agronômico?

Assim como todos os demais campos existentes na receita agronômica, esta informação é de responsabilidade do profissional habilitado.

Arrendo uma gleba de 10 hectares para plantar soja dentro de uma propriedade de 20 hectares. Nesses outros 10 hectares, o proprietário também cultiva soja. O que devo fazer?

Não há problema algum. O proprietário comprará seus produtos com uma receita, e o arrendatário com outra receita.

Nesse mesmo caso envolvendo arrendamento, quem deve colocar a indicação?

Em ambos os casos, o responsável técnico pela receita é que vai indicar a localização.

Tenho duas propriedades, posso colocar a latitude e a longi- tude de apenas uma delas no receituário?

Sendo duas propriedades distintas, cada uma requer uma receita própria, portanto com dados de localização distintos. A existência de uma receita para cada propriedade é uma segurança adicional para o produtor, pois os produtos somente podem ser utilizados para a propriedade indicada na receita. Assim é de direito que o produtor cobre de seu responsável técnico que faça as receitas para cada uma das propriedades.

Qual é o local de onde devem ser indicadas as coordenadas geográficas? No talhão específico da aplicação, na sede da propriedade ou em qual- quer ponto da propriedade. Por quê?

Não se exige nenhum local específico, podendo ser adotado qualquer ponto que apenas pertença a propriedade. Como já foi dito, este ponto tem apenas a função de localizar melhor a propriedade, e não de ser o ponto de aplicação.

Existe algum lugar específico no receituário onde o profissional responsável precisa colocar as coordenadas?

O profissional deverá colocar esta informação no campo onde normalmente já informa o nome da propriedade e sua descrição de localidade, adicionando ao final a coordenada em graus minutos e segundos.

O que acontece se meu receituário não tiver latitude e longitude? Quais são as sanções que o produtor vai sofrer?

Não há qualquer sanção ao produtor rural, pois a obrigação de indicar corretamente a propriedade é do profissional de agronomia.

Quais obrigatoriedades o produtor deve cumprir para atender às novas exigências?

Ao produtor não haverá qualquer mudança. O produtor deve observar que os produtos sejam aplicados de acordo com o recomendado nas receitas.

Vai haver alguma mudança em relação à fiscalização das propriedades?

Não há mudança alguma nas regras de fiscalização.

O que o produtor deve estar preparado para mostrar nessa fiscalização? O que exatamente será vistoriado?

A fiscalização continuará exigindo as mesmas documentações na propriedade, ou seja, que todos os produtos tenham suas devidas receitas e notas fiscais, além disso que seja observado o uso de acordo com o que foi prescrito na receita. Deve ser observado que a legislação prevê que estes documentos estejam disponíveis ao fiscal por, pelo menos, dois anos.

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Polícia apreende 10 toneladas de agrotóxicos contrabandeados no PR

Um homem foi detido em flagrante nesta segunda-feira (03), em Paranavaí, na região noroeste do Paraná, no momento em que manuseava agrotóxicos contrabandeados do Paraguai. Foram apreendidos cerca de 10 toneladas do material, além de armas e munições. A carga foi avaliada em R$ 2 milhões.

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Divulgação/PMPR

A PM-PR (Polícia Militar do Paraná) chegou até o flagrante após uma denúncia anônima. A abordagem aconteceu em uma casa na zona rural do município. Segundo a polícia, o homem detido é um funcionário do verdadeiro dono dos defensivos agrícolas. O suspeito ainda não foi localizado.

No imóvel, os policiais militares da 3ª Companhia do BPAmb-FV (Batalhão de Polícia Ambiental Força-Verde) encontraram dezenas de galões, com capacidades entre cinco e 20 litros, dos mais diversos produtos químicos. Foram apreendidos agrotóxicos paraguaios utilizados para vários fins, como herbicidas, acaricidas, Roundup, Aplicbem e Diurom.

Além disso, também foi encontrada uma espingarda de calibre .36, um revólver, uma pistola de calibre .380 e várias munições.

O homem detido e a carga apreendida foram encaminhados à Polícia Civil.

Anvisa coloca sete defensivos agrícolas em reavaliação

A Anvisa divulgou, nesta segunda-feira (26), a primeira lista de ingredientes ativos de agrotóxicos que terão reavaliação toxicológica a partir de uma metodologia própria do órgão. A lista foi estabelecida a partir de critérios de riscos à saúde humana, em especial consumidores e trabalhadores rurais. Entre eles, estão o risco de causar câncer, alterações no DNA humano, mutações, problemas reprodutivos e endócrinos, entre outros.

A partir do novo ciclo, as listas serão definidas com base em avaliação objetiva, com a utilizando de uma pontuação de risco para definir os agrotóxicos com prioridade de reavaliação. Confira abaixo os sete primeiros indicados.

Lista de ingredientes ativos selecionados para reavaliação:

Somente os sete selecionados para a nova avaliação são usados em 180 produtos diferentes.

Início e duração das reavaliações

As reavaliações terão início com a publicação de edital de convocação das empresas com registro de agrotóxicos para apresentação dos dados de segurança atualizados. O tempo de análise de cada processo de reavaliação vai variar de acordo com o número e a complexidade dos estudos apresentados para cada produto.

A Anvisa esclarece que os sete agrotóxicos selecionados não serão reavaliados ao mesmo tempo. O primeiro edital de início da reavaliação para a apresentação dos dados de segurança do Carbendazim (o primeiro da lista) deve ser publicado em dezembro, com prazo de até seis meses para a entrega dos estudos.

O segundo edital, do Tiofanato Metílico, será publicado em janeiro. A partir daí as próximas reavaliações serão abertas à medida que as análises anteriores forem finalizadas.

Redução da toxidade

No Brasil, o registro de agrotóxicos não tem prazo de validade. Assim, uma vez que um produto entra no mercado, ele pode permanecer de forma indefinida. Por isso, a reavaliação é o instrumento técnico e legal para a revisão do perfil de segurança de produtos, a partir de novas informações produzidas pelos sistemas de monitoramento ou pesquisas científicas.

De acordo com a Anvisa, a análise dos itens da lista pode levar ao banimento do produto ou pode mantê-lo em comercialização com medidas para reduzir o perigo decorrente do seu uso. A reavaliação também poderá levar à decisão de manter o produto em circulação sem nenhuma nova recomendação.

Como no Brasil um agrotóxico novo só pode ser registrado em categoria toxicológica igual ou inferior a outro já existente no mercado, a reavaliação torna-se instrumento fundamental para a diminuição, ao longo do tempo, do padrão de toxicidade do país. Ou seja, essa atividade tende a retirar produtos mais tóxicos e, portanto, inviabilizar a registro de novos na mesma categoria.

*Com informações do Mapa*

Registros de agroquímicos não têm relação com volume aplicado nas lavouras

Uma das falácias mais recorrentes dos últimos tempos nas mídias digitais e nos demais meios de comunicação diz respeito a uma suposta relação entre os registros de novos produtos agroquímicos e um maior uso destas substâncias na agricultura. Na internet, não raramente encontramos acusações afirmando que esse processo teria por fim “envenenar a população” e outras que, não apenas distorcem a realidade, tentam traçar uma relação maliciosa de causa e efeito. Mas nada tem de verdadeiro.

Primeiro é preciso deixar claro que para chegar até o ponto de ser registrado, um produto agroquímico passa por uma série de análises e testes até que não reste dúvida quanto à sua eficiência e segurança. Além do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), estes produtos são avaliados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que analisa os possíveis riscos à saúde humana, e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que verifica eventuais impactos ao meio ambiente.

Além disso, basta uma análise breve dos dados oficiais para constatar que esta relação entre os números de registros e de vendas de agroquímicos não se sustenta. Vale lembrar que dentre os produtos aprovados este ano, a grande maioria se trata dos mesmos ingredientes ativos que já estavam no mercado brasileiro, apenas com marcas comerciais diferentes.

Segundo especialistas e técnicos ouvidos pela reportagem, o que poderia influenciar o volume de vendas destes produtos é a incidência de pragas, doenças e também o clima, de modo que o número de novos produtos registrados não influencia o volume de vendas dos mesmos.

“Do ponto de vista técnico, isso não é verdadeiro. A quantidade de registro destes produtos não tem essa relação direta com o uso de agrotóxicos no campo”, observa o professor do curso de Agronomia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Arthur Arrobas.

Segundo o docente, o que pode ocorrer é o inverso. “Ao não dispor de uma variedade de produtos com ações diferentes de controle, o produtor, muitas vezes, por conta de quantidade escassa de informação, busca alternativas como utilizar dois produtos, ao invés de apenas um, para ter eficácia”, aponta. Desta forma, uma oferta maior de alternativa de controle poderia resultar num uso mais eficiente e por consequência menor de produtos agroquímicos.

Descompasso

Um bom exemplo de como o número registros não acompanha o volume comercializado é a variação ocorrida entre os anos de 2012 e 2013. Enquanto o número de produtos registrados caiu de 168 para 110, o volume comercializado neste período cresceu de 477,7 mil toneladas para 495,7 mil ton. Neste período o número de registros diminuiu, porém, o consumo aumentou.

A explicação é simples. Em 2013, muitos lembram da lagarta Helicoverpa armigera, que assustou milhares de produtores na época. Depois de causar estragos significativos em lavouras da Bahia, a lagarta apareceu em diversas regiões, destacando-se pelo apetite voraz. Por mais que a praga não encontrasse a mesma força em outras regiões, sua incidência influenciou o maior uso de agroquímicos naquela temporada.

De outra forma, é possível verificar que entre 2016 e 2017 o número de registros passou de 277 para 405, enquanto no mesmo período a comercialização de defensivos caiu de 541,8 mil toneladas para 539,9 mil toneladas. Como se constata, não há relação direta entre uma coisa e outra.

Quanto à aprovação do registro de novos produtos este ano, o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) veio a público para esclarecer alguns pontos. Segundo a instituição, “é preciso explicar que há dois tipos de produtos que foram aprovados: os técnicos e os formulados. O primeiro grupo – que representa cerca de metade dos registros de 2019 – refere-se à matéria-prima, ou seja, produtos que serão utilizados na fabricação de um produto formulado, o que significa que não serão comercializados diretamente para utilização no campo”.

O Sindiveg também aponta que, em relação à quantidade de produtos formulados, vale destacar que todos os registros se tratam de novas marcas comerciais de produtos que já eram disponibilizados no mercado anteriormente. “Isso significa mais opções para o agricultor e não um aumento na quantidade de produtos utilizados no campo”, afirma a entidade.

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Normativa que sistematiza registro de uso de agroquímicos em Minor Crops completa cinco anos

Os setores brasileiros de frutas e hortaliças têm motivos para comemorar. No dia 16 de junho completa cinco anos da publicação da Instrução Normativa Conjunta (INC) 1/2014, que sistematizou e simplificou o processo de registro de agroquímicos para o manejo das Culturas com Suporte Fitossanitário Insuficiente (CSFI), também conhecidas como Minor Crops. A medida representa um avanço significativo na legislação, que trouxe maior legalidade e segurança aos hortifruticultores.

A INC é um divisor de águas. Sem produtos próprios registrados para diversas culturas, os produtores tinham duas escolhas: se arriscar na ilegalidade, aplicando defensivos usa dos em outras culturas; ou manejar sua produção sem recorrer às tecnologias disponíveis para combater pragas e doenças. Não se trata aqui de culturas irrelevantes ou exóticas, mas sim campeãs de consumo, como berinjela, abobrinha, melancia, repolho, e muitas outras que figuram diariamente na mesa da família brasileira, mas que não eram contempladas com produtos próprios para o seu manejo.

De autoria conjunta do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a INC 1/2014 permitiu que muitos produtos tivessem seu uso extrapolado para outras culturas, possibilitando controlar pragas e doenças, além de tirar diversos produtores da situação de ilegalidade involuntária em que se encontravam.

“Ter produtos legalizados gera mais segurança na produção de alimentos, já que eles tiveram a chancela do Mapa na questão de ciência agronômica, da Anvisa, revisando os parâmetros toxicológicos, e do Ibama, verificando o impacto ambiental do produto”, observa a técnica do Sistema FAEP/SENAR-PR Elisangeles Souza. Segundo ela, desde que a medida entrou em vigor até hoje, é possível contabilizar diversas vitórias. “De acordo com informações da Anvisa, já são mais de 1,5 mil Limite Máximo de Resíduos (LMR) estabelecidos; mais de 100 culturas beneficiadas e cerca de 150 marcas comerciais registradas pela INC 1/2014”, afirma.

Esses resultados têm repercussão direta no dia a dia do produtor. “Temos muita salsinha no município que antes não tinha nada e hoje temos alguns produtos registrados. Na mandioca salsa, não tinha nenhum herbicida. Graças ao trabalho iniciado pela FAEP, agora nós temos”, observa Paulo Ricardo da Nova, presidente do Sindicato Rural de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. “Quem plantava essas culturas era sempre visto como um criminoso. Esse trabalho tirou todo esse povo da ilegalidade”, avalia o dirigente.

Mudança de imagem

Além de segurança para produzir, a normativa também  melhorou a imagem do setor de frutas e hortaliças perante o público consumidor. “Quando os programas de avaliação de uso de agroquímicos encontravam algum produto não registrado nas hortaliças, eles classificavam como não conforme e divulgavam isso na mídia. Então para o consumidor que não está familiarizado com as questões agronômica e legal, é como se o alimento estivesse contaminado e pudesse colocar a vida dele em risco”, observa o diretor presidente do Instituto Brasileiro de Horticultura (Ibrahort), Stefan Adriaan Coppelmans.

Opinião semelhante tem o representante da Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) e coordenador do Grupo Técnico de Fitossanidade da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), Tom Prado. “Em termos de saúde não há riscos, assim atesta a própria Anvisa, por meio do último resultado divulgado pelo PARA [Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos]. O grande problema é a percepção equivocada da população de que esta ausência de autorização de uso para algumas pequenas culturas represente risco a saúde”, diz.

A insuficiência de produtos registrados para atender estas culturas também trazia dor de cabeça para os técnicos do setor. “Facilitou bastante a vida. Agora nós temos o que recomendar para o produtor”, avalia o engenheiro agrônomo Hugo Vidal, especialista em hortifrútis. Na sua opinião, a situação anterior à normativa beirava o absurdo. “O produtor podia plantar, mas não podia tratar. O pimentão é da mesma família botânica do tomate. Mas o tomate tinha 50 produtos registrados e o pimentão nenhum, estava condenado à morte. Era uma discrepância tremenda”, analisa.

Neste cenário, as culturas que mais sofrem com a falta de produtos são as pequenas. O próprio nome “Minor Crops” se refere a “pequenas culturas”. São aquelas que ocupam pouca área em comparação às grandes culturas, como soja e milho. O problema delas é que a indústria de agroquímicos dificilmente encontrará vantagem financeira em iniciar um processo de extrapolação de uso de algum produto, pois esse tipo de pesquisa costuma ter altos custos.

“O principal gargalo é a sustentabilidade econômica do registro de pequenas culturas. Os estudos que precisam ser feitos pela indústria são caros e demorados”, avalia Coppelmans.

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Novas regras: saiba como descobrir a latitude e a longitude da sua propriedade

A partir de julho, todas as receitas agronômicas no Paraná deverão obrigatoriamente conter a indicação geográfica das  propriedades nas quais serão feitas aplicações de defensivos agrícolas. A medida visa aumentar a precisão das informações sobre como, onde e quando em relação ao uso de agroquímicos no Estado, o que serve para aprimorar o monitoramento e o controle de possíveis problemas fitossanitários nas lavouras paranaenses. A nova norma foi implementada por meio da Portaria 103 de 2019, da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), divulgada no dia 26 de abril de 2019, com entrada em vigor 60 dias após a publicação.

O que muda na prática, com a nova exigência, é que o engenheiro agrônomo passa a ser obrigado a indicar a latitude e a longitude da propriedade na receita, ou seja, onde irá ocorrer a aplicação de defensivos (veja como encontrar esses dados no quadro ao lado). Luiz Angelo Pasqualin, coordenador do Sistema de Monitoramento de Agrotóxicos (Siagro) da Adapar, enfatiza que não se trata do ponto geográfico exato do talhão, mas uma referência que permite localizar a propriedade. “É muito fácil obter essa informação. Ela pode ser pega até por meio do Google Maps. Na prática, a indicação será tirada uma vez só e, nas próximas, para aquela propriedade específica, será a mesma indicação”, explica.

Outra mudança importante é que o produtor não precisará mais fazer cadastro de usuário de agrotóxicos na Adapar. “Nós aproveitamos o que já existe na estrutura dentro do Siagro. Desde 2010, já existe o campo para inclusão das coordenadas geográficas nesse sistema. Só que como não era obrigatório, não era todo mundo que preenchia o campo. Agora, essa informação da localização irá chegar por meio do receituário agronômico, mediante dados incluídos na receita, município, nome da propriedade, entre outros dados. Acreditamos que a dinâmica do campo será melhor contemplada pelas informações que vêm via receituário”, espera Pasqualin.

Veja como encontrar a latitude e a longitude da sua propriedade no Boletim Informativo.

Entrevista: Pesquisador fala sobre o mito do agroquímico

Em entrevista concedida ao Sistema FAEP/SENAR-PR, o professor Caio Carbonari discorre sobre os mitos que cercam o tema agroquímicos. Carbonari leciona na Universidade Estadual Paulista (Unesp), é pós-doutor e livre docente em Agronomia e Proteção de Plantas. Leia a entrevista:

BI: O senso comum diz que o Brasil é o líder mundial no uso de agrotóxicos. Por que esta afirmação é equivocada? Que tipos de dados ou estudos podem subsidiar isso?

CC: Quando comparamos simplesmente o valor total do mercado de agrotóxicos, o Brasil aparece em primeiro lugar no valor comercializado. No entanto, essa informação é irrelevante, se não compararmos os dados normalizados, ou seja, correlacionarmos o consumo por área ou por produção.

Em outras áreas do conhecimento, questões similares já foram solucionadas. Por exemplo, o número de crimes, acidentes e incidência de enfermidades são expressos por 1.000 ou 100.000 habitantes. Uma vez que o Brasil é um dos maiores produtores agrícolas do mundo, quando comparamos o consumo por área, o consumo do Brasil é inferior ao de muitos países desenvolvidos, como Japão, Coreia do Sul, Alemanha,
França, Itália e Reino Unido. O consumo brasileiro é compatível com muitos países importantes do ponto vista de produção agrícola mundial.
Isso em um ambiente de produção tropical que favorece substancialmente a ocorrência de pragas, plantas daninhas e doenças.

Há algum parâmetro para aferir se uso de defensivos agrícolas é indiscriminado no Brasil?

Quando fazemos uma análise ampla sobre o uso de agrotóxicos no Brasil, com as estatísticas e critérios adequados, os indicadores mostram um uso seguro de defensivos agrícolas no Brasil.

Uma das ferramentas já consolidadas e com grande aceitação por agências reguladoras e instituições de pesquisa no mundo todo é o EIQ (environmental impact quotient of pesticides – quociente de impacto ambiental), desenvolvido em 1992 por pesquisadores do New York State Integrated Pest Management (Kovach et al, 1992). O EIQ permite quantificar e estabelecer comparações quanto ao risco do consumo de defensivos agrícolas, levando em consideração uma série de fatores como a dose de ingrediente ativo aplicada, características físico-químicas e toxicológicos e dinâmica ambiental de cada composto. Essa ferramenta permite ainda avaliar o risco associado a diferentes componentes,
sendo eles o consumidor dos produtos agrícolas, o trabalhador envolvido na manipulação e aplicação e o ambiente.

Segundo um estudo que conduzimos, os valores de EIQ representando o risco para o consumidor, trabalhador e para o ambiente, vêm caindo no período de 2002 a 2015 e são compatíveis ou inferiores aos observados em muitos países desenvolvidos.
Nós entendemos que o uso do EIQ poderá representar um grande avanço para a avaliação dos riscos associado ao consumo de agrotóxicos e também permitirá informar melhor a população sobre os riscos reais.

Qual a relação que existe entre o fato de o Brasil ter um clima tropical e o uso de agroquímicos na produção?

O clima tropical potencializa a ocorrência de pragas, doenças e plantas daninhas, uma vez que as condições climáticas favoráveis ocorrem o ano todo. O clima tropical tem um aspecto positivo, pois nos permite fazer mais de uma safra por ano, mas aumenta a ocorrência dos problemas fitossanitários, exigindo maiores esforços no manejo. Apesar disso, como mencionado acima, muitos países importantes do ponto de vista de produção agrícola e com clima temperado fazem uso de maiores quantidades relativas de defensivos agrícolas quando comparados ao Brasil.

O Brasil é, hoje, é o maior exportador de soja e um dos maiores produtores de grãos do mundo. Essa produtividade seria possível sem os defensivos?

Na escala que produzimos não é possível, mas é possível trabalharmos continuamente pela redução dos riscos e pela legalidade do uso dos defensivos, o que vem sendo feito no Brasil. Se quisermos aprimorar a abordagem, podem ser estabelecidas metas para a redução dos riscos e as unidades de EIQ são um bom indicador, já utilizadas em outros países. Vale reforçar que quando comparamos os dados normalizados, por produção ou área, temos consumo e risco compatíveis com os de vários outros países desenvolvidos e de importância na produção de alimentos e em relação aos nossos concorrentes no mercado da soja.

Proporcionalmente, o Brasil usa menos agroquímicos que países desenvolvidos, como Japão, Alemanha e França. Que leitura podemos fazer desses dados?

Mesmo usando menos defensivos proporcionalmente, temos níveis elevados de produtividade e temos posição de destaque mundial na produção sustentável de alimentos fibras e bioenergia, o que mostra que temos feito a “lição de casa” quanto ao desenvolvimento de sistemas cada
vez mais sustentáveis de produção e manejo de pragas, plantas daninhas e doenças.

O consumo de agrotóxicos por tonelada produzida no Brasil está bem abaixo do que em países desenvolvidos. O que isso indica?

Novamente, esse dado nos indica a eficiência da nossa agricultura, nossa produtividade vem aumentando todos os anos e o uso de defensivos sequer aumentou na mesma proporção. Isso é mais um indicativo que o uso de defensivos no Brasil é bastante racional, quando comparamos a outros países relevantes quanto a produção agrícola mundial.

Considerando que há essa visão predominante que o uso de agrotóxicos é exagerado no Brasil, qual a saída para este debate?

Isso é atribuído à falta de informações e mesmo à falta de estatísticas confiáveis. Muitas vezes as informações amplamente disseminadas não são construídas a partir do conhecimento técnico e científico disponível. Grande parte das avaliações e julgamentos são de cunho ideológico e genéricos. Quem quiser opinar sobre o assunto deve fazê-lo de modo objetivo e à luz da ciência e do conhecimento. Devemos continuar trabalhando para disponibilizar informações corretas e confiáveis, construídas a partir do conhecimento técnico e científico, sobre o uso de defensivos agrícolas e coloca-las a disposição da nossa sociedade.

Plantação de soja

Mercado de biodefensivos cresce mais de 70% no Brasil em um ano

Por Mapa

A produção de produtos biológicos para controle de pragas e doenças agrícolas cresceu mais de 70% no último ano no Brasil, movimentando R$ 464,5 milhões ante R$ 262,4 milhões em 2017. O resultado brasileiro é considerado o mais expressivo da história do setor e supera o percentual apresentado pelo mercado internacional.

Em termos globais, o setor apresentou crescimento de 17% no mesmo período. Os dados detalhados sobre o desempenho do ano passado da indústria nacional de biodefensivos foram apresentados nesta quinta-feira (21) pela Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio), considerando apenas as empresas associadas que representam 70%  do mercado nacional.

O crescimento do mercado brasileiro de defensivos biológicos segue tendência mundial de redução do uso de agroquímicos para combater pragas e doenças nas lavouras. Em um país com alto índice de insetos devido ao clima tropical, o desafio dos agricultores é reduzir a aplicação dos pesticidas, principal método de manejo de pragas do país atualmente, para também reduzir o custo da produção e os riscos associados para a saúde humana e os recursos naturais.

O que é

O controle biológico faz parte do chamado Manejo Integrado de Pragas (MIP) e permite o uso de organismos vivos ou obtidos por manipulação genética para combater pragas e doenças provocadas por lagartas comuns, mosca, nematoides (vermes microscópicos), cigarrinha das raízes, broca da cana, ácaros e fungos e outros agentes nocivos para a agricultura.

Os produtos biológicos podem ser utilizados em qualquer cultura, desde frutas e verduras, até grãos, cana de açúcar, entre outros. Existem dois tipos de biodefensivos: os macrobriológicos, que consistem no uso de macroorganismos, como insetos, ácaros e outros inimigos naturais das pragas; ou microbiológicos, que se baseiam em bactérias, fungos e vírus.

Segundo Rose Monerrat, diretora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, os produtos mais usados no mercado são os microrganismos. “A procura tem sido muito grande e está crescendo. Segue uma tendência mundial, porque as exigências do mercado europeu estão fazendo com que este mercado cresça cada vez mais”, comenta.

O professor titular de Entomologia e Acarologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), José Roberto Parra, lista uma série de vantagens para o uso de biodefensivos, principalmente o aspecto ecológico e social dos produtos.

Entre os benefícios apontados pelo engenheiro agrônomo está a ausência de resíduos químicos nas culturas, uma vez que o Brasil exporta muitas commodities e o mercado internacional tem colocado cada vez mais restrições aos agroquímicos.

“É indiscutível essa vantagem. Não tem problema de resíduos químicos e não há desequilíbrios biológicos. Quando você usa inseticidas, você mata esses agentes de controle biológico, que chamamos de inimigos naturais, então, o controle biológico não mata e não aumenta a resistência das pragas. E não tem problemas ambientais de contaminação do solo, da água, dos alimentos”, explica.

Fonte: Mapa

Resultados no campo

O manejo de controle biológico é realizado há mais de dez anos pela Fazenda Salgueiro da Serra, situada em Buritis, na região Noroeste de Minas Gerais. As primeiras experiências com produtos biológicos na fazenda do Grupo Agrosalgueiro, que atualmente planta soja, milho e feijão, começaram na década de 1990 e se intensificaram a partir de 2007.

“Na época, o pedido dos sócios era para produzir mais, gastar menos e, se possível, usar menos agroquímicos. Responsável pela compra de insumos, planejamento técnico e experimento agrícola do grupo, a única forma que eu enxerguei para trabalhar esses objetivos foi o biológico e conceitos de agroecologia. Com ingredientes ativos, controle químico eu sei que não teria muita chance de reduzir custo, porque todo ano estávamos aumentando doses ou números de aplicações e com o biológico foi o contrário: nós reduzimos doses e número de aplicações”, conta Rogério Aoyagui, consultor técnico sobre biológicos e herdeiro acionista do grupo Agrosalgueiro.

O engenheiro agrônomo explica que, para reduzir doenças de solo, da planta e do sistema como um todo, o manejo biológico tem se tornado uma ferramenta fundamental. O que tem sido usado em maior escala na fazenda são os microorganismos probióticos. O grupo também utiliza inimigos naturais, agentes biológicos promotores de nitrogênio e compostagens líquidas à base de resíduos animais como fonte de nutrientes e biorremediador do solo. Manejo de sistemas e outras tecnologias já desenvolvidas também foram inseridos para contribuir com a melhoria do processo produtivo.

“Atualmente conseguimos reduzir e, em alguns casos, substituir agrotóxicos. E, obviamente, atingimos a meta inicial de redução de custo. Aumentou a produtividade e reduzimos a carga de químicos. Estávamos um pouco receosos, mas o resultado foi bem interessante. É difícil aceitar a mudança e a quebra de paradigmas de técnicos, consultores, proprietários e funcionários, esse foi um dos maiores desafios. Posso seguramente dizer que o manejo biológico é um caminho sem volta, uma ferramenta importantíssima para a revolução agrícola do mundo”, comenta Aoyagui.

Em relação à assistência técnica e contratos de parcerias com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o grupo tem tido suporte de manejos e acompanhamento do desenvolvimento de uma agricultura mais sustentável. Segundo Rogério, a parceria tem sido fundamental para implantar as inovações tecnológicas com mais segurança e com grande margem de sucesso.

“Na parceria com a Embrapa conseguimos ter critérios de avaliação sobre a qualidade das nossas lavouras e do produto final. O objetivo do grupo é ter uma produção cada vez mais sustentável e responsável, respeitando cada vez mais a natureza e garantindo produtos saudáveis para a sociedade”, relata Rogério.

“Nossa meta é reduzir no mínimo em 50% o uso de agroquímicos. Seria um grande sonho. Com a nossa credibilidade como empresa familiar e cuidadores da terra, temos a missão de gerar uma condição de harmonia, alegria e bem estar nos grupos que atuamos e na sociedade. Um dos nossos grandes incentivadores é a Embrapa, pelo suporte técnico”, comenta o proprietário Fernando Aoyagui.

A qualidade ambiental da área de produção da fazenda e a experiência de aplicar em campo tecnologias biológicas de controle de pragas têm atraído a atenção de pesquisadores de outras regiões do país. “O grupo está na vanguarda, fazendo o controle de forma segura e responsável”, elogiou Rose Monerrat.

Além da Fazenda Salgueiro, a Embrapa é parceria de diversos grupos de produção ou pesquisa sobre controle biológico em todas as regiões do país. A empresa tem produtos biológicos comercializados no mercado e há mais de 30 anos desenvolve tecnologias inofensivas à saúde humana e ao meio ambiente para controle de doenças.

“Temos mais de 200 projetos no portfólio e mais ou menos 100 pesquisadores envolvidos. Muitos produtos já foram desenvolvidos e estão sendo comercializados no mercado para atender essa área. Todas as unidades estão fazendo coisas novas, tem produto para controle de lagarta, de percevejo, de nematoide”, comentou Rose.

Plantio de culturas regionais

Nem todas as pragas e doenças que atingem as lavouras brasileiras podem ser controladas por produtos químicos. Em regiões com culturas, solos e clima diferentes, tem crescido a busca por pesquisas que desenvolvam biodefensivos eficazes no controle de doenças específicas de algumas localidades.

Entre as pesquisas em andamento está o trabalho da Embrapa da Amazônia Oriental. A unidade, situada em Belém (PA), analisa o uso de bactérias para promover o crescimento da planta e também para controlar a fusariose, doença que ataca o plantio da pimenta do reino.

“Não tem nenhum agroquímico registrado para controle da fusariose, o que há são medidas preventivas, como evitar plantio perto das áreas de incidência alta, por exemplo”, disse Alessandra Keiko, pesquisadora responsável pelo estudo.
A agrônoma explica que a fusariose é uma doença de solo, causada por um fungo que ataca a raiz da planta, por isso é difícil de controlar. A doença ocorre em todos os lugares de plantio de pimenta do reino e é um problema típico de clima tropical.

A unidade também está desenvolvendo pesquisa, ainda em estágio inicial, sobre o uso de própolis para controlar a bacteriose na mandioca. A cultura também é afetada pela “podridão radicular”, problema que atinge a raiz e está muito relacionado à chuva, entre outros fatores.

Alessandra comenta que a demanda por controle biológico no Norte é grande, pois a região tem muitas culturas e doenças para s quais não existem agrotóxicos registrados para combatê-las. E a maioria é produzida pela agricultura familiar.

“Todas as doenças que ocorrem para o açaí, por exemplo, não têm químico registrado. Outros exemplos: o cupuaçu, as fruteiras nativas, a mandioca. O uso de controle alternativo com extrato de plantas, óleos essenciais, viria (no Norte) não como alternativa aos químicos, mas como forma de controle mesmo”, explica Alessandra.

Expansão

Enquanto o mercado convencional de defensivos agroquímicos tem apresentado sinais de estagnação, com resultado recente de queda global de 6% na produção (US$ 64 bilhões), o saldo mundial do controle biológico em 2018 foi 17% maior que o alcançado no período anterior, de US$ 3,8 bilhões.

No Brasil, em fevereiro do ano passado, o mercado de produtos biológicos nacional movimentou US$ 164,9 milhões, o que corresponde a quase R$ 528 milhões, segundo a consultoria Agribusiness Intelligence/Informa. O controle biológico representa 5% da produção geral de controle de pragas e a América Latina é a região que apontou crescimento mais acelerado nesta área.

Para 2020, a expectativa é que o setor de biológicos fature no mundo US$ 5 bilhões e que em 2025 chegue a US$ 11 bilhões, segundo outra consultoria, a Dunham Trimmer – International Bio Intelligence.

Fonte: Abim 2018

Performance destacada

O levantamento da consultoria internacional mostra que o Brasil é o quarto país com melhor performance na produção de produtos biológicos, respondendo por 7% da comercialização mundial. O setor é liderado por Estados Unidos (37%), Espanha (14%) e Itália (10%).

A ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Tereza Cristina, avalia que o mercado de biológicos ainda vai crescer muito no Brasil, pois estes produtos passaram a ser demandados por todos os produtores agrícolas e, não somente, pelos da agricultura orgânica.

“Os produtores brasileiros de uma forma geral, os produtores de cana, principalmente, produtores de grãos já vem procurando muitos produtos biológicos para utilizar no manejo fitossanitário das suas lavouras. Então, a tendência é crescer ainda mais e é importante que a gente aperfeiçoe o processo no Ministério da Agricultura para colocar esses produtos não tóxicos à disposição dos agricultores brasileiros”, comentou Tereza Cristina.

Registros

Outro fator que tende a favorecer o crescimento dos biológicos é o processo mais simplificado de registro dos produtos, que levam prazo menor para serem liberados. Até o dia 22 de fevereiro, o Mapa tinha 1.187 produtos químicos aguardando registro, sendo que a demanda mais antiga da fila é de 2009. Para registro de biológicos, a fila tinha 17 pedidos pendentes e outros seis para agricultura orgânica.

Apesar do prazo mais curto, o registro de um produto biológico segue praticamente o mesmo padrão de exigência dos agroquímicos. Para ser liberado para comercialização, o biodefensivo, como também é conhecido, deve atender requisitos de segurança da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

A ministra Tereza Cristina reforça que já existem procedimentos diferentes na legislação para registro de produtos para agricultura orgânica e biológicos e que várias empresas de não orgânicos estão interessadas em adotar o uso dos biodefensivos devido aos benefícios e à facilidade do processo.

“Esse procedimento é um pouco mais rápido do que o registro normal, mas ainda é possível melhorar o fluxo do processo para que a gente consiga ter um procedimento ainda mais rápido do que é hoje”, comentou a ministra.
Segundo o Mapa, o Brasil tem atualmente 256 produtos de baixa toxicidade registrados, entre microbiológicos, semioquímicos (feromônios) e produtos de agricultura orgânica, como os extratos vegetais. O registro de biológicos no Mapa se intensificou a partir de 2015. Só em 2018, foram registrados 52 produtos, a maior média desde 1991, quando foi liberado o primeiro controle biológico no país.

Histórico

A primeira ocorrência de controle biológico registrada no mundo é de 1888, quando os Estados Unidos importaram um inseto da Austrália para controlar uma praga do tipo cochonilha, que afeta lavouras de citros. No Brasil, a primeira tentativa de importação de um inimigo natural de pragas ocorreu em 1921.

Na época, o país importou dos Estados Unidos uma vespa para controlar uma praga que atingia o pessegueiro, mas a aplicação não foi bem-sucedida. Em seguida, ocorreram outras tentativas de controle de pragas de pastagens com insetos importados, principalmente a partir das décadas de 1950 e 1960, até o desenvolvimento do biocontrole nas lavouras de cana-de-açúcar.

“O caso que deu mais certo em larga escala foi em cana-de-açúcar e este sucesso se deveu à importação de um inimigo natural chamado Cotesia Flavipes, uma vespinha que foi importada de Trinidad e Tobago e começou a ser introduzida na época por usinas”, explica o professor José Roberto Parra.

O especialista relata que a experiência com a vespa Cotesia ganhou força principalmente em Piracicaba, interior de São Paulo. Na região, o controle biológico é utilizado em 3,5 milhões de hectares de lavouras de cana-de-açúcar.
Segundo o professor Parra, a entrada da chamada Helicoverpa Armígera nas produções de algodão da Bahia entre 2011 e 2013 foi outro momento de marco do uso de controle biológico no país. Os produtores começaram a usar um tipo de vírus e uma vespa que parasita os ovos da praga, até que saísse um agrotóxico capaz de controlá-la.

“A Helicoverpa criou uma cultura de controle biológico, porque ela só era controlada biologicamente, não tinha produto (químico) registrado. Então, o pessoal teve que usar biológico”, conta o professor.

Desconhecimento e pouca disponibilidade

Quase metade dos produtores brasileiros ainda desconhecem os produtos biológicos para controle de pragas e doenças nas lavouras e 39% já utilizam este tipo de manejo, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio). Entre os agricultores que já adotam biodefensivos, 76% apontam que consideram o controle biológico eficiente e 60% destacam a segurança da aplicação dos produtos biológicos.

Praticamente todos os produtores que utilizam afirmaram à pesquisa, feita em parceria com a empresa Agribusiness Consulting, que a decisão pelo controle biológico foi motivada pela importância da pós-venda, segurança, proteção do meio ambiente e aumento da produtividade, além de ser um complemento aos produtos químicos. Para 96%, a tendência é de crescimento do mercado nos próximos cinco anos.

Fonte: ABCBio

Alta demanda e baixa oferta

Apesar do forte crescimento apresentado no último balanço do setor, a produção de biológicos ainda responde por apenas 2% do faturamento total do mercado de controle de pragas.

Pesquisa da ABCBio mostra ainda que os produtos biológicos são utilizados em cerca de 10 milhões de hectares no Brasil. A área total plantada no país é de 77,4 milhões de hectares.

A associação identificou também que a taxa de adoção desse tipo de manejo de pragas não chega a 20% do total de propriedades. Em algumas regiões e culturas, como a soja, não chega a 5%.

Problema cultural

Para o Professor titular de Entomologia e Acarologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), José Roberto Parra, o grande problema no país é a existência de “uma cultura de controle químico” do agricultor, que ainda está muito ligado à tradição de combater pragas com agrotóxicos e submetido à pressão das indústrias de defensivos químicos.

“O problema do Brasil, basicamente, é cultural. O indivíduo fala assim ‘eu vou continuar aplicando inseticida, porque o meu pai aplicava inseticida, meu avô aplicava, etc’. E, logicamente, como é de se esperar, há pressão de quem produz inseticida. Lógico, isso existe. Então, você tem que mudar essa cultura para que a gente utilize menos produtos químicos”, recomenda.

Parra ressalta que o processo de mudança não é rápido e depende da disponibilidade e qualidade do inimigo natural das pragas. Técnicos que atuam no setor destacam que a biodiversidade brasileira abriga muitas espécies que podem ser utilizadas no desenvolvimento de biodefensivos.

Contudo, de acordo com o Mapa, das 1.137 pragas e doenças registradas no país, apenas 86 contam com solução biológica, o que representa 8% dos alvos que mais afetam as lavouras brasileiras.

“A disponibilidade do insumo biológico é fundamental, assim como que seja de qualidade. Não adianta nada falar que temos controle biológico, se não oferecermos opção”, ressalta Parra.

Outro problema é saber a amostragem exata de insetos e pragas na lavoura para determinar a hora certa de liberar e aplicar o controle biológico. O professor avalia que o país ainda está incipiente nesta área e deve desenvolver tecnologias modernas de sensoriamento remoto, por exemplo, para atacar as doenças no local correto e com a quantidade ideal de biodefensivo.

Capacitação

Mesmo os produtores que decidem utilizar o controle biológico esbarram nas dificuldades técnicas e de falta de conhecimento e capacitação sobre a aplicação dos novos produtos.

“Essa área de controle biológico está crescendo muito nos últimos anos. Vários agricultores estão utilizando. E o grande desafio é você ter o pessoal capacitado para trabalhar na área, empresas de qualidade produzindo bons produtos e cursos de formação na área, que existem poucos”, afirma Rose Monnerat, pesquisadora da Embrapa.

O engenheiro agrônomo Rogério Aoyagui, que trabalha como consultor de manejo biológico na região Centro-Oeste do Brasil, relata que há poucas pessoas preparadas tecnicamente para fazer o controle. O deficit de qualificação resulta em má aplicação e ineficiência no uso do produto. Aoyagui ressalta que, para ser preventivo e sustentável, o manejo biológico deve ser planejado e executado como um sistema produtivo e não como ação curativa ou para fins específicos e paliativos.

“Tem produtos que o pessoal não sabe o que de fato é ou não sabe recomendar a campo. Eles aplicam para uma coisa, mas o produto tem serventia para outra. O que ainda é pior é comparar a recomendação de manejo biológico com a recomendação de manejo convencional. Outros produtores estão associando o biológico com ingrediente ativo, sintético e isso é um pouco problemático, porque o resultado é bem diferente, se tratado só com biológico ou se tratado com biológico e fungicida, embora algumas empresas defendem não haver interferência.”, explica Aoyagui.

A questão da logística e armazenamento dos organismos utilizados para combater as doenças também tem sido um dos principais fatores apontados por especialistas e produtores para baixa adesão aos produtos biológicos. O chamado “tempo ou vida de prateleira”, que determina a duração que o produto pode ficar armazenado, é um dos critérios para a acessibilidade do produto no mercado.

“O microrganismo é mais utilizado, porque a forma de aplicação é igual ao inseticida e tem um componente a mais que é muito importante: quando você compra um fungo, você pode armazená-lo. A gente chama isso de “tempo de prateleira”, então, você pode armazená-lo e utilizá-lo daqui a alguns meses. O macro você tem que utilizar imediatamente”, explica Parra.

Rose Monerrat, que dirige a Embrapa Recursos Genéticos, avalia que as dificuldades de transporte e de armazenamento dos produtos biológicos ainda afeta muito o custo. “Tem produto que tem de ficar em baixa temperatura e isso é um grande problema para o controle biológico. Produtos à base de vírus são os mais afetados, mas depende muito do tipo de formulação. Há aqueles à base de bactéria, por exemplo, que têm vida de prateleira mais longa, mas outros têm um tempo menor.”

Outros desafios

O Brasil tem outra peculiaridade que dificulta a rápida disseminação dos produtos biológicos. Além do número elevado de pragas devido ao clima tropical, o país planta em grandes áreas, enquanto que na Europa o uso de biodefensivos se fortaleceu mais rapidamente, porque as áreas agricultáveis são menores.

A diferença teve impacto no desenvolvimento das empresas produtoras de controle biológico. No continente europeu as empresas de biológicos surgiram há aproximadamente 50 anos, e no Brasil as fábricas foram impulsionadas já nos anos 2000.

“O grande problema é o nosso tipo de agricultura, ou seja, agricultura de grandes áreas. Por exemplo, há produtor que tem área de 100 mil hectares com soja na Bahia ou em Goiás, isso é uma área imensa. Então, você não pode transferir o que se faz na Europa para o Brasil. O Brasil tem uma condição diferente”, comenta Parra.

O especialista destaca que o Brasil atingiu a liderança na agricultura tropical nos últimos 40 anos e tem condições de vencer com excelência o desafio de desenvolver um modelo de controle biológico específico para região tropical. “Esses desafios vão sendo transpostos à medida em que a gente vai melhorando os estudos, oferecendo mais opções e transferindo a tecnologia”, sugere o professor.