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Alemanha diz que próximos 18 meses serão cruciais para acordo Mercosul-UE

Após a série de atritos diplomáticos entre o governo brasileiro a lideranças europeias, a Alemanha prega pragmatismo e diz que os próximos 18 meses serão cruciais para superar lobbies e ratificar o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, cuja primeira versão foi aprovada no fim de junho.

O acordo é resultado de vinte anos de negociações e considerado fundamental no processo de abertura comercial da economia brasileira. As comemorações, porém, acabaram ficando em segundo plano pela crise diplomática gerada após o recrudescimento dos incêndios na Amazônia.

“Estamos diante de oportunidade histórica de avançar significativamente em nosso relacionamento e os próximos dezoito meses serão decisivos”, disse à reportagem o vice-ministro de Economia e Energia da Alemanha, Thomas Bareiss.

Um exemplo dos obstáculos pôde ser visto nesta quinta (19), quando o Parlamento da Áustria aprovou moção que obriga o governo daquele país a vetar a participação no acordo, usando como justificativa a postura do governo Bolsonaro em relação à floresta.

“É claro que há muitas tendências contra o livre comércio e a favor do protecionismo e isso nos preocupa”, afirmou Bareiss, que esteve esta semana no país para encontrar empresários alemães com negócios no Brasil e participar da 16º Conferência de Segurança Internacional do Forte de Copacabana.

A visita ocorre um mês após Bolsonaro sugerir que a chanceler alemã Angela Merkel usasse dinheiro do fundo Amazônia para reflorestar a Alemanha. Ele também atacou o presidente francês, Emmanuel Macron e ofendeu sua esposa, Michele, ao comentar com risadas um post no Twitter que a chamava de feia.

“Concordo que nas últimas semanas houve troca de mensagens que realmente não contribuíram muito”, disse o vice-ministro alemão, para quem “a necessidade de marcar posições diante do eleitorado” contribuiu para inflamar os discursos.

“Mas acho que faria muito mais sentido olharmos para o que temos em comum, focarmos nos fatos e ver do ponto de vista pragmático como se pode agir para que as coisas caminhem na direção correta”, completou. Antes de entrar em vigor, o acordo precisa ser ratificado por todos os países envolvidos.

A Alemanha é apontada como uma das maiores beneficiadas pelo acordo, que reduzirá tarifas para a troca de bens e serviços entre os dois blocos comerciais. Já a França sofre com pressões internas de sua agroindústria, que teme perda de mercado para produtos do Mercosul.

Ele defende que o Mercosul não se beneficiará apenas com a abertura de mercados agrícolas, mas poderá aproveitar complementariedades com a indústria europeia e experimentará crescimento nos investimentos europeus.

“Sei que o Brasil tem uma indústria metal-mecânica forte e de relevância. Outro ponto importante é a eficiência energética e geração de energia renovável. O Brasil está entre os líderes na produção de etanol e biomassa”, argumentou.

Na sua opinião, o desaquecimento da economia europeia não será empecilho à aprovação do acordo nos países do continente, caso os governos sejam convencidos de que a abertura de novos mercados pode representar “um propulsor” para o reaquecimento.

Bareiss minimizou acusações de interferência estrangeira na Amazônia -uma das críticas de Bolsonaro a Macron- embora acredite que os termos do acordo, que prevê comprometimento com o combate ao desmatamento e poluição, aumentarão os controles sobre a proteção à floresta.

“Sabemos que tanto na Alemanha quanto em toda a Europa a Amazônia é considerada o pulmão verde do mundo. Olhando para essa imagem fica óbvio porque as pessoas se interessam tanto na conservação da floresta”, comentou.

“Mas eu não sou partidário de forma alguma de que sejam emitidas recomendações e orientações sobre o que deve ser feito aqui no Brasil”, afirmou. “A floresta amazônica é brasileira, faz parte do território brasileiro. Não estamos mais na época do colonialismo, essa fase ficou para trás.”

Com uma metáfora futebolística, diz que a Alemanha costuma ser criticada pelo jogo “um tanto chato, entediante e pragmático demais”, características que poderiam se aplicar também à política local. “Tanto no Brasil como na França, política é questão muito emotiva e que desperta paixões.”

Bolsonaro

Bolsonaro diz que Macron e Merkel não têm autoridade para discutir questão ambiental

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quinta-feira (4) que nem o presidente francês, Emmanuel Macron, nem a chanceler alemã, Angela Merkel, têm autoridade para discutir políticas de meio ambiente para o Brasil.

Em café da manhã com a bancada ruralista, disse que os presidentes brasileiros anteriores a ele criaram uma imagem negativa do país no exterior e que tem tentado alterar a maneira como o Brasil se posiciona diante do mundo.

“Eles não têm autoridade para vir discutir essa questão conosco. Mudou a maneira do Brasil se portar perante o mundo”, disse. “Com a conivência de chefes de Estado, foi feito com que o Brasil tivesse um péssimo conceito de meio ambiente lá fora.”

O desmatamento na Amazônia no mês de junho foi cerca de 57% maior do que no mesmo mês do ano passado, segundo dados do Deter, sistema de alertas de desmatamento do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Os dados do mês passado, por enquanto, só vão até o dia 28 -o que ainda pode causar alterações no crescimento da taxa de desmate. No mês de junho, foram desmatados cerca de 769 km², segundo o Deter. Em 2018, o valor era de aproximadamente 488 km².

Bolsonaro disse ainda que, ao procurá-lo durante o encontro do G20, Macron e Merkel acreditavam estar tratando com governos anteriores e que políticas de demarcação de terras indígenas e ampliação de áreas ambientais dificultavam o progresso da economia brasileira.

“Esses dois em especial [Macron e Merkel] achavam que estavam tratando com governos anteriores, que, após reuniões como essa, vinham para cá, demarcavam dezenas de áreas indígenas e quilombolas, ampliavam área de proteção. Ou seja, dificultavam cada vez mais nosso progresso aqui no Brasil”, disse.

O presidente também afirmou que deu um “rotundo não” ao presidente francês, que o teria procurado, junto ao líder indígena brasileiro Raoni Metuktire, para que o Brasil anunciasse medidas ambientais durante a reunião no Japão.

“Não reconheço o Raoni como autoridade, uma autoridade aqui no Brasil. Ele é um cidadão, como outro qualquer que nós devemos respeito e consideração. Mas ele não é autoridade”, disse.

Antes do início da cúpula do G20, que reúne as 20 maiores economias do mundo, Bolsonaro foi criticado por Macron e Merkel, que expressaram preocupação sobre o desmatamento na Amazônia e o risco de o Brasil deixar o Acordo de Paris.

O presidente francês chegou a dizer que não assinaria nenhum pacto com o Brasil caso o país deixasse o acordo que trata do combate a mudanças climáticas.

Depois de vaivéns na agenda dos mandatários, Bolsonaro se encontrou tanto com o líder francês quanto com a chanceler alemã, a quem o presidente brasileiro teria falado sobre a existência de uma “psicose ambientalista” contra o país.

O presidente se queixou de que os europeus sempre trataram o Brasil de “forma colonialista” em gestões anteriores, querendo ditar regras.

No encontro no Palácio do Planalto, Bolsonaro afirmou ainda que o governo brasileiro é da bancada ruralista. Ele ressaltou que a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, foi escolhida pela frente parlamentar e que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é “casado” com ela.