Brexit - Reino Unido - União Europeia

Reino Unido deixa a União Europeia com ato pró-brexit em clima de Réveillon

O Brexit, enfim, aconteceu. Depois de três anos e meio do referendo votado pelos britânicos e três adiamentos de prazo, o Reino Unido iniciou sua separação da União Europeia (UE) nesta sexta-feira (31), após 47 anos como membro. É o primeiro dos 28 países a sair do bloco desde sua criação, em 1958.

Em Londres, a noite histórica foi comemorada pelos apoiadores do Brexit na praça do Parlamento. Eles começaram a encher o gramado entre o Palácio e a Abadia de Westminster no início da tarde e ali ficaram, mesmo com frio e garoa, até a hora tão esperada.

No momento que oficializou a saída, às 23h (horário local, 20h em Brasília e 0h em Bruxelas, onde fica a Comissão Europeia), a celebração ganhou ares de Réveillon.

Pela praça do Parlamento cheia de bandeiras do Reino Unido, as Union Jacks, circularam britânicos com placas com frases como “independence day” (dia da independência) e “our country again” (nosso país de novo), cartazes com ataques a emissoras de TV e de apoio a Boris e ao presidente dos EUA, Donald Trump.

Pouco depois das 21h, um palco montado na lateral da abadia conduziu o público. Empresários e políticos que ficaram famosos por defender o Brexit discursaram, como Tim Martin, dono de uma rede de pubs, e Michelle Dewberry, que venceu a versão inglesa do reality show “O Aprendiz”.

Às 22h, o primeiro-ministro Boris Johnson, ciente de que metade do país ainda se sente derrotada e com movimentos de independência ganhando força, foi à TV pregar a união. “Nosso trabalho como governo, o meu trabalho, é unir o país e nos levar adiante”, disse.

“É o início de uma nova era em que não aceitamos mais que suas escolhas de vida, as escolhas de vida da sua família, dependam de qual parte do país você cresceu”, afirmou. “Este é o momento em que começamos a nos unir e a subir de nível.”

Johnson prometeu ainda uma “nova era” de cooperação com a UE e disse esperar que a saída se torne um “sucesso impressionante”. “Isso não é o fim, mas um começo”, disse. “Nós desejamos que esse seja o começo de uma nova era de cooperação amigável entre a UE e uma Grã-Bretanha cheia de energia.”

No mesmo horário, uma projeção de luzes na fachada da residência oficial do primeiro-ministro, no número 10 da rua Downing, iniciou a contagem regressiva da última hora antes do Brexit.

Alvo de debate nas últimas semanas, o sino do Big Ben, o relógio que fica na torre do Parlamento, não badalou. A torre está em reforma e, para que o sino fosse reativado, o custo seria de 500 mil libras para os cofres públicos.

Alguns presentes, no entanto, levaram seus próprios sinos.

Organizado pelo grupo Leave Means Leave (sair significa sair), o evento teve como estrela Nigel Farage, político que defende a saída do Reino Unido da UE há quase 30 anos. Líder do Partido do Brexit, ele comandou a contagem regressiva.

Farage e outros 72 representantes britânicos deixaram nesta sexta seus cargos no Parlamento Europeu. Esse é um dos poucos efeitos imediatos do Brexit. Os eurodeputados do Reino Unido não participarão mais das decisões tomadas pela Casa, e o país encerrou sua atuação em todas as instituições e os compromissos da UE.

Nesta sexta, o Parlamento Europeu e outras instituições ligadas ao bloco, como o Conselho da UE, retiraram as bandeiras do Reino Unido de suas fachadas nas sedes em Bruxelas e em Estrasburgo (França). A bandeira da União Europeia, por sua vez, foi removida da embaixada britânica na UE em Bruxelas.

Já o livre comércio e a circulação de pessoas não serão alterados até pelo menos 31 de dezembro de 2020. Essa é a data para o fim do período de transição que começa agora e, durante o qual, Reino Unido e UE terão que negociar e definir os detalhes das regras que vão reger a nova relação.

Outro vencedor desta noite foi Johnson, que assumiu o cargo em julho de 2019 com a promessa de concretizar o Brexit. Líder do Partido Conservador, ele foi um dos políticos por trás da campanha do Vote Leave (vote pela saída) durante o referendo de junho de 2016.

O Brexit foi decidido ali: 52% dos britânicos votaram a favor da saída do país do bloco, enquanto 48% foram contra.
Uma divisão não só entre os eleitores (17,4 milhões x 16,1 milhões), mas também entre os países que formam o Reino Unido. Enquanto Inglaterra (53,4%) e País de Gales (52,5%) tiveram maioria pró-brexit, Escócia (62%) e Irlanda do Norte (55,8%) tiveram maioria contra.

O argumento dos eurocéticos é que a União Europeia impõe controle excessivo sobre os países, ameaçando suas escolhas e decisões.

“Esperamos muito tempo por este dia. Amo a Europa, mas detesto a União Europeia. Eles querem nos controlar, fazer nossas leis, pegar nosso dinheiro”, diz Julie, educadora que prefere não revelar o sobrenome e veio de Yorkshire (320 km de Londres) para a festa do brexit.

“Queremos fazer comércio com outros países, especialmente os da Commonwealth, não só um pequeno bloco de 28 países”, afirmou.

Para Julie, a pior parte da espera de mais de três anos foi ser considerada “racista” e “sem inteligência” por grupos antibrexit. “Fomos estereotipados de uma forma muito ruim, demonizados. É horrível.”

“Agora poderemos fazer o que quisermos, quando quisermos, porque todas as leis e regulações serão feitas aqui em Londres, e não na Europa”, comemorava Kevin Russell, que veio de Milton Keynes (74 km da capital).

Pela manhã, o discurso da primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, foi na direção oposta do de Johnson. Líder do partido nacionalista escocês (SNP) e antibrexit, ela disse que o momento era de “tristeza tingida de raiva” e que a independência da Escócia “nunca esteve tão próxima”.

“O Brexit colocou a Escócia no caminho errado. Precisamos voltar para o caminho certo assim que possível”, afirmou.

Em Londres, onde 60% dos eleitores votaram pela permanência na UE, o prefeito Sadiq Khan declarou que a cidade vai “continuar recebendo ideias e talentos de todas as partes do mundo, independentemente da cor da pele, do passaporte e da bandeira nacional”.

Na tarde de sexta, ele abriu a prefeitura para oferecer “apoio jurídico e emocional” para cidadãos da UE que residem na capital.

Das mais de 3 milhões de pessoas da UE que vivem no Reino Unido, 1 milhão está na cidade. E todos os que estão no país há mais de cinco anos podem se inscrever, até junho de 2021, em um programa de permanência de longo prazo, chamado de “se ttlement scheme”.

Parte desses europeus do continente participou na quinta de mais uma rodada de protestos antibrexit, com vigílias e caminhadas para lamentar a “despedida”.

Mas a noite foi mesmo dos que se opõem à União Europeia. E não só britânicos. Uma dezena de franceses aproveitou a ocasião para divulgar o movimento “Frexit”.

“Hoje, com a União Europeia, a França não pode fazer nada por sua economia. Viemos aqui para mostrar que muitos franceses também querem sair do bloco”, diz Mattis Lebrun, estudante parisiense que mora em Bristol (170 km de Londres).

Brexit - Reino Unido - Parlamento Europeu - União Europeia

Parlamento Europeu aprova Acordo de Saída do Reino Unido da UE

O Parlamento Europeu aprovou hoje (29), em Bruxelas, o Acordo de Saída do Reino Unido da União Europeia (UE), a última formalidade que faltava para que o Brexit se concretize na próxima sexta-feira (31).

Em uma votação em que bastava uma maioria simples dos votos expressos, o Parlamento Europeu “carimbou” a saída do Reino Unido da UE com 621 votos a favor, 49 contra e 13 abstenções.

Três anos e meio depois de o Brexit ter sido aprovado em um referendo por 52% dos eleitores, em junho de 2016, o processo – marcado por sucessivas rejeições do Acordo de Saída pelo Parlamento britânico, que finalmente deu o seu aval após a clara vitória do conservador Boris Johnson nas eleições de dezembro passado – chega então ao fim, com a saída do Reino Unido do bloco europeu a concretizar-se na próxima sexta-feira, às 23h de Londres (mesma hora em Lisboa, 0h de 1º de fevereiro em Bruxelas).

No sábado, 1º de fevereiro, terá início o chamado “período de transição”, até 31 de dezembro de 2020, durante o qual as duas partes negociarão a relação futura, já que nesse dia o Reino Unido irá tornar-se um “país terceiro” para a UE, depois de protagonizar aquele que é o primeiro abandono da história da União Europeia, que passa a contar com 27 Estados-Membros.

bolsonaro boris johnson reino unido

Bolsonaro parabeniza Boris Johnson e deseja parceria mais ‘sólida’ com o Reino Unido

O presidente Jair Bolsonaro cumprimentou Boris Johnson, eleito ontem (12) como primeiro-ministro no Reino Unido. Além de parabenizar pela ‘grande vitória’, Bolsonaro disse estar disposto a trabalhar na construção de uma parceria mais sólida.

Cumprimento os britânicos e o Primeiro-Ministro do Reino Unido, Boris Johnson, pela grande vitória de ontem. Brasil e Reino Unido compartilham o apreço à auto-determinação e à soberania. Estamos dispostos a trabalhar no fortalecimento de nossas relações e na construção de uma parceira cada vez mais sólida e benéfica para nossos povos”, disse pelo Twitter.

PARTIDO DE JOHNSON TEM MAIORIA NO PARLAMENTO

Boris Johnson em 10 Downing Street, sede do governo britânico. (Reprodução / Twitter UK Prime Minister)

A vitória de Johnson foi tão grande que selou o maior triunfo do Partido Conservador desde 1987. A legenda tem agora 365 lugares – 48 a mais – no parlamento contra 203 – 59 a menos – do Partido Trabalhista.

“Agradeço a confiança que depositou em nós e em mim. Trabalharemos o tempo todo para retribuir sua confiança e cumprir suas prioridades com um parlamento que trabalha para você”, escreveu após seu primeiro discurso.

Johson é o líder do partido desde a renuncia de Theresa May, em junho deste ano. Ex-prefeito de Londres, ele disputou o cargo como parlamentar e deu ênfase ao slogan ‘vamos resolver o brexit’ (get brexit done).

O brexit (British exit, traduzido para ‘saída britânica’) é o movimento da saída do Reino Unido em relação à União Europeia, grupo formado por 28 países do continente. Além do livre comércio entre si, os países dão facilidades para a população trabalhar e morar em qualquer região.

Contudo, em 2016, os britânicos optaram pela saída em um plebiscito. 52% dos eleitores foram favoráveis à mudança, enquanto 48% se posicionaram a favor da manutenção.

Entretanto, o acordo de retirada, costurado por May, foi rejeitado pelo parlamento em três ocasiões. Agora, Johnson fala que o Reino Unido vai finalizar a saída da União Europeia até o dia 31 de janeiro de 2020.

Brasil - China - livre-comércio

Acordo de livre-comércio entre Brasil e China depende do Mercosul

Um acordo comercial entre Brasil e China, como proposto nesta quarta-feira (13) pelo ministro Paulo Guedes (Economia), dependerá do aval dos outros países que fazem parte do Mercosul, de acordo com especialistas em comércio exterior ouvidos pela reportagem.

O governo brasileiro também poderia optar por sair do bloco sul-americano para negociar diretamente com os chineses.

Nessa hipótese, no entanto, o Brasil perderia todos os avanços feitos em relação a outros blocos econômicos, ficando de fora, por exemplo, do acordo Mercosul-União Europeia.

“Desde 2000, o Mercosul só negocia em bloco. Todas as negociações comerciais hoje em curso são em bloco”, afirma o ex-secretário de comércio exterior Welber Barral, sócio da consultoria Barral M Jorge.

Barral diz que uma negociação com a China enfrentaria grande resistência por parte do setor industrial, mas seria benéfica para os setores produtores de commodities agropecuárias e minerais.

“O mercado chinês é muito grande, existem possibilidade, mas o Brasil tem dificuldades para exportar outros produtos que não sejam commodities e teria de aumentar sua competitividade.”

José Augusto de Castro, presidente da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil), afirma que o Brasil não tem condições de estabelecer uma relação comercial totalmente livre com um país como a China, que, por exemplo, não segue todas as regras internacionais de comércio.

“Seria suicídio industrial coletivo”, afirma.

Castro destaca ainda a desvantagem em se tentar uma negociação fora do âmbito do Mercosul.

“Você tem de fazer acordo com o bloco, não com um país individualmente, a não ser que esteja passando pela cabeça do Brasil sair do Mercosul. Mas aí tem de voltar a negociar outros acordos, como com a União Europeia”, afirma o presidente da AEB.

Roberto Dumas Damas, professor do Insper e especialista em China, também afirma que não seria bom para o Brasil abrir mão do acordo fechado com a União Europeia para negociar com a China, mas avalia como positiva a sinalização do ministro da economia de que está disposto a abrir o país para o comércio exterior e abandonar a política de proteção industrial que vigora há décadas.

O especialista afirma ser a favor de um acordo mais amplo do bloco com os chineses, mesmo que isso represente perdas para a indústria brasileira em um primeiro momento. Para ele, não dá mais para proteger o setor com tarifas, prejudicando todos os outros segmentos da economia.

Além disso, uma abertura poderia ser uma oportunidade para modernizar o parque fabril brasileiro, aumentar a competitividade do setor e elevar as exportações para outros países futuramente, diz o professor do Insper.

“Ficamos abraçados com Argentina e não fizermos nada. Agora é hora da mudança. Sou a favor de um acordo de livre comércio. Mas é claro que não vamos abrir tudo de uma vez.”

Alemanha - Mercosul - União Europeia - Agronegócio - Brasil

Alemanha diz que próximos 18 meses serão cruciais para acordo Mercosul-UE

Após a série de atritos diplomáticos entre o governo brasileiro a lideranças europeias, a Alemanha prega pragmatismo e diz que os próximos 18 meses serão cruciais para superar lobbies e ratificar o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, cuja primeira versão foi aprovada no fim de junho.

O acordo é resultado de vinte anos de negociações e considerado fundamental no processo de abertura comercial da economia brasileira. As comemorações, porém, acabaram ficando em segundo plano pela crise diplomática gerada após o recrudescimento dos incêndios na Amazônia.

“Estamos diante de oportunidade histórica de avançar significativamente em nosso relacionamento e os próximos dezoito meses serão decisivos”, disse à reportagem o vice-ministro de Economia e Energia da Alemanha, Thomas Bareiss.

Um exemplo dos obstáculos pôde ser visto nesta quinta (19), quando o Parlamento da Áustria aprovou moção que obriga o governo daquele país a vetar a participação no acordo, usando como justificativa a postura do governo Bolsonaro em relação à floresta.

“É claro que há muitas tendências contra o livre comércio e a favor do protecionismo e isso nos preocupa”, afirmou Bareiss, que esteve esta semana no país para encontrar empresários alemães com negócios no Brasil e participar da 16º Conferência de Segurança Internacional do Forte de Copacabana.

A visita ocorre um mês após Bolsonaro sugerir que a chanceler alemã Angela Merkel usasse dinheiro do fundo Amazônia para reflorestar a Alemanha. Ele também atacou o presidente francês, Emmanuel Macron e ofendeu sua esposa, Michele, ao comentar com risadas um post no Twitter que a chamava de feia.

“Concordo que nas últimas semanas houve troca de mensagens que realmente não contribuíram muito”, disse o vice-ministro alemão, para quem “a necessidade de marcar posições diante do eleitorado” contribuiu para inflamar os discursos.

“Mas acho que faria muito mais sentido olharmos para o que temos em comum, focarmos nos fatos e ver do ponto de vista pragmático como se pode agir para que as coisas caminhem na direção correta”, completou. Antes de entrar em vigor, o acordo precisa ser ratificado por todos os países envolvidos.

A Alemanha é apontada como uma das maiores beneficiadas pelo acordo, que reduzirá tarifas para a troca de bens e serviços entre os dois blocos comerciais. Já a França sofre com pressões internas de sua agroindústria, que teme perda de mercado para produtos do Mercosul.

Ele defende que o Mercosul não se beneficiará apenas com a abertura de mercados agrícolas, mas poderá aproveitar complementariedades com a indústria europeia e experimentará crescimento nos investimentos europeus.

“Sei que o Brasil tem uma indústria metal-mecânica forte e de relevância. Outro ponto importante é a eficiência energética e geração de energia renovável. O Brasil está entre os líderes na produção de etanol e biomassa”, argumentou.

Na sua opinião, o desaquecimento da economia europeia não será empecilho à aprovação do acordo nos países do continente, caso os governos sejam convencidos de que a abertura de novos mercados pode representar “um propulsor” para o reaquecimento.

Bareiss minimizou acusações de interferência estrangeira na Amazônia -uma das críticas de Bolsonaro a Macron- embora acredite que os termos do acordo, que prevê comprometimento com o combate ao desmatamento e poluição, aumentarão os controles sobre a proteção à floresta.

“Sabemos que tanto na Alemanha quanto em toda a Europa a Amazônia é considerada o pulmão verde do mundo. Olhando para essa imagem fica óbvio porque as pessoas se interessam tanto na conservação da floresta”, comentou.

“Mas eu não sou partidário de forma alguma de que sejam emitidas recomendações e orientações sobre o que deve ser feito aqui no Brasil”, afirmou. “A floresta amazônica é brasileira, faz parte do território brasileiro. Não estamos mais na época do colonialismo, essa fase ficou para trás.”

Com uma metáfora futebolística, diz que a Alemanha costuma ser criticada pelo jogo “um tanto chato, entediante e pragmático demais”, características que poderiam se aplicar também à política local. “Tanto no Brasil como na França, política é questão muito emotiva e que desperta paixões.”

Rafael Greca - Mercosul - União Europeia - Fórum de Agricultura da América do Sul

Acordo Mercosul e UE gera potencial de US$ 133 bilhões ao Brasil

Assinado em julho deste ano, o acordo entre Mercosul (Mercado Comum do Sul) e União Europeia (UE) gera expectativa ao agronegócio brasileiro.

Com estimativa de gerar US$ 133 bilhões em receitas ao Brasil nos próximos dez anos, de acordo com dados do MDIC (Ministério da Economia, Indústria, Comércio Exterior e Serviços), as negociações ainda precisam ser aprovadas pelos 28 países do bloco europeu e os quatro do grupo sul-americano antes de serem ratificadas.

A consultora Emily Rees tem participado das negociações entre os grupos econômicos e avalia que o agronegócio brasileiro não é visto como sustentável pelo consumidor europeu.

“O Brasil é uma potência agrícola sustentável e isso precisa ser levado para essas gerações mais jovens. É preciso criar mecanismos para divulgar essas práticas e mudar essa visão da produção brasileira”, avaliou Rees.

Essa classe de 18 a 24 anos tem participado diretamente na renovação política no continente. Conhecida como “onda verde”, o movimento em prol das causas ambientais deve eleger 71 representantes para o Parlamento Europeu, número recorde para essas legendas e ocupar 9,45% das 751 cadeiras totais.

Por isso, o trabalho de relacionamento do Brasil com esse público que procura e está disposto a pagar mais por produtos que respeitem o bem-estar animal e o meio ambiente é importante para a melhora da imagem do setor no mercado europeu.

Paraná como referência

O agronegócio é parte importante da economia paranaense. Somente em 2018, US$ 14 bilhões de receitas foram geradas pelo setor, 70% do total do valor das exportações do estado no período.

Na visão do superintendente da Ocepar (Organização das Cooperativas do Paraná), Robson Maffioleti, o estado já possui uma boa base para atender a demanda europeia.

“A principal questão para esse mercado é a sanidade dentro dos rebanhos e lavouras. Algo que já recebe nosso constante investimento e procura por novas certificações para nossos produtos”, explica Maffioleti.

Recentemente o Paraná se aproximou de conseguir o status de zona livre de febre aftosa. O estado irá investir na construção de um Posto de Fiscalização de Transporte Agropecuário (PFTA) e na contratação de médicos veterinários e técnicos agrícolas. Com isso, a previsão da conquista dessa certificação é para 2021.

Maffioleti destaca que os setores de carnes, soja, milho e açúcar devem ser os mais beneficiados no agronegócio paranaense. Já o setor de lácteos deve ter que se adequar em algumas questões, principalmente com a redução das alíquotas para a importação de queijos europeus.

“O Mercosul nunca fez um acordo desse nível e por isso temos que continuar avançando em sanidade para manter essas parcerias. A União Europeia representa um mercado de 780 milhões de pessoas e 25% do PIB (Produto Interno Bruto) mundial”, finaliza o superintendente.

Giovani Ferreira - Mercosul - União Europeia - Fórum de Agricultura da América do Sul
Coordenador do Fórum, Giovani Ferreira em discurso na abertura do evento. Foto: Lucilia Guimarães/SMCS

Protecionismo pode ser obstáculo

Além da necessidade de aprovação pelos parlamentos europeu e sul-americano, outras variáveis devem ter participação na ratificação desse acordo. Uma delas é o desdobramento comercial entre China e Estados Unidos.

As potências mundiais têm aumentado as alíquotas de diversos produtos negociados entre os países, o que tem impactado no agronegócio de todo o mundo.

O Brasil, por exemplo, tem sido beneficiado no curto prazo. Na avaliação do especialista em comércio exterior da Legex Consultoria, Fabio Carneiro Cunha, os chineses buscaram suprir sua demanda com a produção brasileira.

“Quando a China deixa de comprar dos EUA surge um espaço para o Brasil, para as cooperativas paranaenses e para o estado do Paraná que tem, majoritariamente, na sua balança, um percentual significativo de exportações”, pontua Carneiro Cunha.

Mas o especialista alerta que a médio e longo prazo o Brasil precisa de parcerias mais consolidadas, principalmente pelo fortalecimento de instituições que regulamentem o mercado como a OMC (Organização Mundial do Comércio).

Atualmente China e EUA estão criando dificuldades para a OMC realizar esse controle, o que pode prejudicar o futuro de acordos bilaterais, como o do Mercosul e a União Europeia, por exemplo.

Para o diretor da Divisão de Agricultura e Commodities da OMC, Edwini Kessie, os outros países devem trabalhar para buscar defender os interesses multilaterais e combater qualquer tentativa de protecionismo dentro do mercado e destaca o trabalho do Brasil dentro dessa questão.

“O Brasil, mais uma vez, é um ator de peso, que trabalha sem descanso para o fortalecimento multilateral. Além disso, os padrões de sustentabilidade do agronegócio brasileiro são vistos de forma positiva por consumidores de outros países”, discorre Kessie.

Curitiba como palco de discussões

Rees, Kessie e Carneiro Cunha foram alguns dos nomes que participaram do 7º Fórum de Agricultura da América do Sul. O evento foi realizado entre os dias 5 e 6 de setembro em Curitiba, no Museu Oscar Niemeyer, e recebeu especialistas de diversos países, além do Prefeito de Curitiba, Rafael Greca, e do vice-governador do Paraná, Darci Piana.

O objetivo do encontro foi discutir as políticas internacionais dentro do agronegócio com foco no continente sul-americano, principal celeiro agropecuário do mundo.

Bolsonaro volta a contradizer dados do INPE neste sábado (24)

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) afirmou neste sábado (24) que os incêndios na região amazônica não acontecem na floresta e estão restritos a pontos de desmatamento. A declaração contraria dados oficiais do governo, que mostram que o fogo já atingiu áreas protegidas.

“Agora, a floresta não está pegando fogo como o pessoal está dizendo. O fogo é onde o pessoal desmata”, disse o presidente ao deixar o Palácio da Alvorada.

Vestindo uma camisa de clube de futebol, Bolsonaro parou para cumprimentar apoiadores na porta de casa e fez uma breve declaração à imprensa. Ele foi ao Palácio do Jaburu, a poucos metros do Alvorada, para almoçar com o vice-presidente, general Hamilton Mourão.

“A média das queimadas está abaixo dos últimos anos e está indo para a normalidade esta questão”, afirmou.
A declaração confronta dados divulgados recentemente pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), elaborados a partir de imagens de satélite.

De acordo com o órgão, com 72.843 focos de incêndio do início de janeiro até segunda-feira (19), o Brasil já registra um aumento de 83% em relação ao mesmo período do ano passado.

Descontrolado, o fogo também avança sobre áreas protegidas. Somente nesta semana, houve 68 ocorrências dentro de terras indígenas e unidades de conservação estaduais e federal.

Entre as áreas protegidas mais afetadas neste ano está o Parque Nacional de Ilha Grande (PR). Somente até a última quinta-feira (19), o fogo destruiu 32,5 mil hectares, o equivalente a 206 Parques Ibirapuera, segundo nota do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).

Em Mato Grosso, o Parque Nacional Chapada dos Guimarães (MT), que perdeu 12% de sua vegetação, e a Terra Indígena Parque do Araguaia (TO), localizada na ilha do Bananal, com 1.127 focos registrados desde o ano passado.
Já a Nasa, que divulgou imagens dos incêndios, disse que apenas com o passar do tempo será possível analisar se as queimadas são recordes.

Bolsonaro modificou o discurso que vinha fazendo ao longo da semana sobre a autoria do fogo. Ele antes falava em queimadas criminosas e chegou a lançar suspeitas de autoria das ONGs sem apontar dados.
Agora, falou que alguns incêndios podem ser espontâneos.

“É lamentável o que acontece. Alguns incêndios são espontâneos, outros parecem criminosos. Geralmente começam na beira da pista, bituca de cigarro”, disse.

Um dos apoiadores então interrompeu a fala do presidente e disse que o agronegócio tem como prática a realização de queimadas entre as safras. Ele endossou o comentário.

“O pessoal mesmo faz essa queimada. É quase uma tradição. Não é apenas educar, não é fácil, lá são 20 milhões de habitantes. Depende em parte do incentivo do estado nesse sentido”, afirmou.

Bolsonaro disse não ter planos de viajar para a região

“Tive na Amazônia há poucas semanas, se quiser eu retorno para lá”, disse. Questionado se não estuda ir para ver o trabalho das Forças Armadas, afirmou que isso dependeria do que estiver acontecendo lá.

O decreto de GLO (Garantia da Lei e da Ordem), assinado na sexta (23) por Bolsonaro, entrou em vigor neste sábado (24), autorizando o início do trabalho das Forças Armadas.

“Agora é conter os focos de incêndio, está chovendo. Você pega uma faixa lá no Noroeste e Sudeste tem chuvas, acabamos de ver aqui num site adequado essa questão de chuva. Agradeço a Deus ai”, afirmou.

Questionado sobre se o governo demorou para agir, o presidente não respondeu, apenas disse que a Amazônia é maior que a Europa.

Bolsonaro comentou ainda a conversa que teve na sexta com o presidente americano, Donald Trump. Ele disse ter conversado neste sábado com o chileno Sebastián Piñera e com líderes da Espanha e do Equador.

O presidente não soube explicar como os EUA podem ajudar o Brasil no combate às queimadas, como foi anunciado por Trump. Ele citou a experiência do país norte americano tem experiência devido às queimadas da Califórnia.
Bolsonaro disse estar sendo “extremamente educado” com o presidente francês, Emmanuel Macron, que o chamou de mentiroso sobre o compromisso do governo brasileiro com políticas de meio ambiente.

“Depois de tudo que ele falou a meu respeito, você acha que vou ligar para ele, pô?”, afirmou.
Questionado se ele conversaria com Macron, caso a iniciativa parta do presidente francês, respondeu de forma afirmativa. “Se bem eu estou sendo educado. Se ele ligar, eu atendo. Estou sendo extremamente educado com ele depois de ele me chamar de mentiroso”, afirmou.

Brasil e França vivem uma crise diplomática após Macron ter ido às redes sociais para criticar a política ambiental do governo Bolsonaro. Ele levou a questão das queimadas na Amazônia à reunião de cúpula do G7, realizado neste sábado no balneário francês de Biarritz. O Brasil não participa do fórum.

O presidente diz ter conversado com o chanceler Ernesto Araújo sobre a possibilidade de convocar o embaixador do Brasil na França, Luiz Fernando Serra, para voltar ao país.

No meio diplomático, esse gesto seria visto como um agravamento nas relações entre os dois países.
Irritado, Bolsonaro não quis explicar a liberação de recursos financeiros no combate às queimadas. Primeiro disse que o governo ia destinar R$ 40 milhões.

Confrontado sobre anúncio feito na manhã deste sábado pelo Ministério da Defesa, de descontingenciamento de R$ 28 milhões do Orçamento, disse não tem como saber de tudo.

“Não sei, não vou falar mais nesse nível com vocês. Não posso ter todos os números na minha cabeça, impossível. Ontem se falou em R$ 38 milhões na reunião”.

Segundo o ministro da Defesa, ficou acertado o descontingenciamento de cerca de R$ 28 milhões – que já estavam no orçamento do ministério para este ano, mas acabaram sendo bloqueados- para a realização da GLO na Amazônia.

“Está combinado com Paulo Guedes [ministro da Economia], mas estou numa fase que só acredito quando abrir o cofre e ver”, disse o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, em entrevista coletiva neste sábado.

O ministro observou, porém, que esse montante dura pouco. Como comparação, a GLO realizada na comunidade da Maré, no Rio de Janeiro, custava cerca de R$ 1 milhão por dia.

queimadas incêndio amazônia paraná brasil 2019

Amazônia: UE pode barrar o comércio de carne bovina, soja, etanol e café

A decisão do presidente francês, Emmanuel Macron, de não ratificar o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul por causa da inação do governo brasileiro diante dos incêndios na Amazônia deve ser apenas a primeira etapa de uma retaliação global.

Segundo o cientista político Samuel Leré, é preciso considerar sanções comerciais imediatas contra mercadorias brasileiras, como carne bovina, soja e café.

Responsável pelo setor de ambiente e globalização da Fundação Nicolas Hulot, referência na França, ele diz que Jair Bolsonaro erra ao sustentar que as queimadas na floresta são uma questão estritamente brasileira e ao rechaçar comentários de líderes estrangeiros.

“Quando ela queima, como agora, é a humanidade inteira que é ameaçada. Se amanhã a Amazônia deixar de existir, o resultado será o equivalente ao de dez anos de emissões, no mundo todo, de gases que causam o efeito estufa.”

Para Leré, “é tão criminoso desrespeitar fronteiras internacionais [como fez a Rússia ao invadir a Crimeia, ação pela qual hoje sofre sanções] quanto destruir a floresta amazônica e não cumprir compromissos ambientais”.

PERGUNTA – Como vê este fogo cruzado entre Jair Bolsonaro e Emmanuel Macron sobre os incêndios na Amazônia?

SAMUEL LERÉ – É algo que se impunha, que era necessário. Fazia meses que pedíamos sanções ao Brasil por causa da política do governo Bolsonaro para a floresta amazônica. Quando ela queima, como agora, é a humanidade inteira que é ameaçada. Se amanhã a Amazônia deixar de existir, o resultado será o equivalente ao de dez anos de emissões, no mundo todo, de gases que causam o efeito estufa. Não teremos mais qualquer chance de ficar abaixo dos 2º C [teto fixado no Acordo de Paris para a elevação da temperatura média na Terra nos próximos anos], atingiremos facilmente 3º C ou 4º C.

P. – Bolsonaro tem razão ao apontar uma “mentalidade colonialista” por trás da sugestão de Macron de que as queimadas amazônicas sejam discutidas na cúpula do G7, neste fim de semana?

SL – Não concordo. Não se trata de uma questão brasileira. Ela tem impacto no mundo inteiro. O que propomos são sanções, a suspensão das importações de mercadorias brasileiras provenientes do desmatamento da floresta. Cabe à França e à União Europeia decidir sobre isso. Assim, o Brasil não teria mais interesse em desmatar a Amazônia, porque não haveria mais mercado aqui para sua soja e para sua carne bovina.

P. – Então seria preciso, na sua opinião, ir além do que Macron anunciou, ou seja, não apenas brecar a tramitação do acordo comercial?
SL – Sim. Saudamos a suspensão do acordo por representar uma primeira etapa. Consideramos que, no pacto, não havia garantias ambientais suficientes. A realidade provou que o Brasil de Bolsonaro não pretende respeitar os compromissos assumidos, dentre os quais constava o de levar a zero seu ‘desmatamento líquido’ [diferença entre áreas desflorestadas e replantadas]. Por isso, o país deve ser sancionado enquanto o governo não mudar sua política para a Amazônia.

P. – Quais seriam as etapas seguintes?
SL – Sanções progressivas, visando alguns artigos específicos, como a carne bovina, a soja, o etanol e o café. O que esperamos é que o Brasil consiga conter esses incêndios e, em um segundo momento, acabe de vez com o desmatamento.É algo que a União Europeia faz, por exemplo, com a Rússia, que decidiu invadir a Crimeia [em 2014] -e, por isso, sofre sanções comerciais desde então. É tão criminoso desrespeitar fronteiras internacionais quanto destruir a floresta amazônica e não cumprir compromissos ambientais.

P. – Haveria outra via de negociação e pressão?
SL – A outra via seria uma mudança de política de Jair Bolsonaro, depois que ficou claro que ele pretende construir novas usinas hidrelétricas na região da Amazônia. Está evidente que seu objetivo não é o de proteger a floresta. Sendo assim, não há discussão ou ação diplomática possível. É preciso passar à sanção.

P. – E isso surtirá efeito?
SL- Sanções atacariam um dos sustentáculos de Bolsonaro, que é o agronegócio. Se amanhã esse setor não tiver mais mercado para sua produção, fará pressão sobre o presidente.

França acordo União Europeia Mercosul UE-Mercosul Fotomontagem USP Imagens

França diz que não está preparada para ratificar acordo UE-Mercosul

A França não está preparada no momento para ratificar o acordo comercial assinado na sexta-feira (28) entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, após 20 anos de negociações, afirmou nesta terça-feira (2) a porta-voz do governo francês, Sibeth Ndiaye.

“Vamos observar com atenção e, com base nestes detalhes, vamos decidir”, declarou em uma entrevista ao canal de notícias BFM.

Como fez durante as negociações do acordo comercial entre UE e Canadá, a França solicitará garantias aos países do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai), completou a porta-voz.
“Não posso dizer que hoje vamos ratificar o Mercosul […] A França, no momento, não está pronta para ratificar”, disse Ndiaye.

O acordo anunciado na sexta-feira por UE e Mercosul é o maior já assinado pelo bloco europeu.

A França é um dos países mais reticentes ao acordo porque teme os efeitos para seu influente setor agrícola, que pode ser afetado pela grande entrada de produtos sul-americanos no mercado.

Os fazendeiros franceses, muito dependentes dos subsídios europeus e organizados em propriedades familiares que geram uma renda pequena (€ 10 mil a € 12 mil de média em 2018, segundo a Federação Nacional de Carne Bovina), afirmam que não conseguirão competir com o que chamam de fábricas de carne sul-americanas.

Eles ressaltam as diferenças nas práticas dos dois continentes, que não favorecem os europeus: enquanto na UE as normas ambientais são cada vez mais rígidas, na América do Sul são utilizados antibióticos, hormônios do crescimento e soja geneticamente modificada.

Também nesta terça-feira, o ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Yves Le Drian, disse ao Parlamento que ainda não se sabe se o acordo atendeu às exigências da França.

“Os limites que traçamos para o acordo são claros.” Ele disse que ainda é preciso ver se Paris dará apoio, quando examinar os detalhes do acordo.

Na segunda-feira (1º), Pascal Canfin, eurodeputado da plataforma Renaissance [Renascimento] de Emmanuel Macron, disse em um programa de rádio que o voto dos franceses a favor do acordo comercial não está garantido.

“Até agora eu não vi o acordo, ninguém viu, exceto a Comissão Europeia”, disse Canfin.

Portanto, “nada é garantido em termos de ratificação no Parlamento Europeu, e no que diz respeito aos 23 membros da lista do Renascimento, vamos analisar, mas o nosso voto a favor não está garantido”, acrescentou.

O deputado destacou o impacto do acordo sobre o setor agrícola e disse que ainda não viu o mecanismo de salvaguarda previsto para interromper as importações se o acordo desestabilizar os setores europeus, especialmente os franceses”.

mercosul união europeia acordo como funciona

Mercosul e UE: Entenda como vai funcionar maior acordo entre blocos do mundo

Os países do Mercosul e UE (União Europeia) formarão uma das maiores áreas de livre comércio do planeta a partir do acordo anunciado ontem (28), em Bruxelas. Juntos, os dois blocos representam cerca de 25% da economia mundial e um mercado de 780 milhões de pessoas. Quando se considera o número de países envolvidos e a extensão territorial, o acordo só perde para o Tratado Continental Africano de Livre Comércio, que envolve 44 países da África e foi assinado em março deste ano. Mesmo assim, União Europeia e Mercosul fecharam o maior acordo entre blocos econômicos da história, o que deve impulsionar fortemente o comércio entre os dois continentes.

O acordo de livre comércio eliminará as tarifas de importação para mais de 90% dos produtos comercializados entre os dois blocos. Para os produtos que não terão as tarifas eliminadas, serão aplicadas cotas preferenciais de importação com tarifas reduzidas. O processo de eliminação de tarifas varia de acordo com cada produto e deve levar até 15 anos contados a partir da entrada em vigor da parceria inter-continental.

De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o acordo entre Mercosul e UE reduz, por exemplo, de 17% para zero as tarifas de importação de produtos brasileiros como calçados e aumenta a competitividade de bens industriais em setores como têxtil, químicos, autopeças, madeireiro e aeronáutico. Um estudo da confederação aponta que dos 1.101 produtos que o Brasil tem condições de exportar para a União Europeia, 68% enfrentam tarifas de importação. Com a abertura do mercado europeu para produtos agropecuários brasileiros, que são altamente competitivos, mais investimentos devem ser aplicados na própria indústria nacional, já que dados do setor mostram que o agronegócio consome R$ 300 milhões em bens industrializados no Brasil para cada R$ 1 bilhão exportado.

Para os países do Mercosul, bloco formado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai (e Venezuela, que está suspensa), o acordo prevê um período de mais de uma década de redução de tarifas para produtos mais sensíveis à competitividade da indústria europeia. No caso europeu, a maior parte do imposto de importação será zerada tão logo o tratado entre em vigor.

“Esse acordo dá nova vida para o Mercosul, que nunca tinha feito uma negociação com grandes países, mas apenas com nações de economia pequena, como Egito e Palestina. Agora, de fato, demonstra-se valor do Mercosul”, afirma Ammar Abdelaziz, consultor da BMJ Consultoria.

Na opinião do embaixador José Botafogo Gonçalves, vice-presidente do Centro Brasileiro Relações Internacionais (Cebri) e ex-ministro da Indústria e Comércio do governo Fernando Henrique Cardoso, além das vantagens comerciais do acordo, há uma perspectiva de melhor coordenação regulatória entre os países do Mercosul. “Esse acordo aumenta a responsabilidade da união aduaneira, que é o Mercosul, na coordenação de suas políticas macroeconômicas, de maior convergência nas políticas de comércio. Argentina, Paraguai e Uruguai têm que se dar conta que o destino deles é comum”, afirma.

Comércio e investimentos

Estimativas do Ministério da Economia indicam que o acordo representará um aumento do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos no país) brasileiro de US$ 87,5 bilhões em 15 anos, podendo alcançar até US$ 125 bilhões se for considerada a redução das barreiras não tarifárias e o incremento esperado na produtividade. O aumento de investimentos no Brasil, no mesmo período, será da ordem de US$ 113 bilhões. Com relação ao comércio bilateral, as exportações brasileiras para a União Europeia apresentarão quase US$ 100 bilhões de ganhos até 2035.

“Com a ampliação da pauta de comércio, tanto importações e exportações, você favorece as trocas comerciais com quem você fez acordo, você cria comércio com essa parte e desvia comércio com outra parte. Vejo como uma estratégia de geopolítica importante, ficamos menos dependentes, por exemplo, da exportação de commodities para países como a China. Se a China trava o mercado, você não tem para quem exportar. Agora, esse cenário fica mais favorável”, prevê  a economista Danielle Sandi, professora do Departamento de Administração da Universidade de Brasília (UnB).

Multilateralismo: Mercosul e UE

O acesso privilegiado ao mercado europeu é considerada uma das negociações mais complexas de se costurar e, por isso, o anúncio desse acordo cria um ambiente positivo para que o Mercosul possa consolidar outras negociações.

“É um acordo com um dos blocos mais difíceis em questões de exigências sanitárias ou fitossanitárias, por isso creio que via facilitar negociações com outros países e blocos, como os que estão andamento com o Canadá e os países do norte da Europa”, afirma Ammar Abdelaziz.

O acordo entre Mercosul e UE também legitima o livre comércio e o multilateralismo, que têm estado sob constante ataque por causa da guerra comercial entre China e Estados Unidos e adoção de medidas protecionistas por diversos país. “O acordo pode mostrar um fôlego nessa questão do multilateralismo. O comércio é o principal motor disso, mas isso pode ser possível em outras áreas das relações internacionais também sejam estimuladas”, aponta Danielle Sandi.

Para o embaixador José Botafogo Gonçalves, há uma crise do multilateralismo, por isso o acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul tem um peso geopolítico fundamental no momento. “Quando se fala de multilateralismo comercial, que é o objetivo da OMC [Organização Mundial do Comércio], nós temos que reconhecer que há uma crise. O mundo não está preparado nem sei se vai voltar ao momento anterior à essa crise. Enquanto isso não ocorre, você tem que ir para o regionalismo, então o acordo entre Mercosul e UE preenche um vácuo deixado pelo multilateralismo”, avalia.

Ratificação

Mesmo após 20 anos de negociação, ainda falta um longo caminho para que o acordo entre Mercosul e UE, de fato, entre em vigor. Isso porque o tratado precisa ser ratificado e internalizado por cada um dos Estados integrantes de ambos os blocos econômicos. Na prática, significa que terá o acordo terá que ser aprovado pelos parlamentos e governos nacionais dos 31 países envolvidos, uma tramitação que levará anos e poderá enfrentar resistências.

“Tem uma tendência de haver resistência nos Parlamentos de países europeus, especialmente de partidos nacionalistas e também os ambientalistas”, diz Ammar Abdelaziz, da BMJ Consultoria. Segundo ele, não dá para estipular um prazo para a finalização dessa ratificação por parte dos europeus. No caso brasileiro, o acordo agora será analisado pelos ministérios envolvidos e depois será enviado para o Congresso Nacional, onde tramitará por comissões e terá de aprovado tanto pela Câmara dos Deputados quanto pelo Senado. “Em média, o Brasil leva em torno de três a quatro ano para ratificar acordos internacionais, não vai ser menos que isso”.

É só no médio prazo que os efeitos mais concretos do acordo de livre comércio poderão ser sentidos pela população em geral, como eventuais queda no preço de produtos importados e, principalmente, aumento de investimentos e crescimento da economia. “A perspectiva desse acordo para o cidadão comum é que a expansão do comércio se reflita na expansão do PIB, e a partir do crescimento da economia haja mais geração de emprego e renda e aumento da arrecadação para o governo”, explica Danielle Sandi, da UnB.