Em teatro lotado, Fernanda Montenegro remonta a trajetória de Nelson Rodrigues

Fernando Garcel


Fernando Garcel com Roger Pereira

A maior atriz do Brasil lendo a autobiografia do maior dramaturgo do Brasil. Foi assim que foi aberta, nesta terça-feira (28), a 26ª edição do Festival de Teatro de Curitiba. Deixando claro que a obra de qualquer artista independe de sua posição ideológica, Fernanda Montenegro apresentou aos convidados que lotaram o Teatro Guaíra “Nelson Rodrigues Por Ele Mesmo”, destacando como um dos maiores escritores da história do país foi rejeitado por anos por uma elite intelectual que recusava-se a reconhecer sua genialidade.

Após a leitura da obra, um compilado de textos inéditos do escritor brasileiro apontado pela crítica como um dos maiores dramaturgos do país que remontam a sua história desde a infância até a fama, a dama do teatro brasileiro se emocionou ao explicar que aquela foi a primeira vez que o texto era lido para uma platéia tão grande. “Eu tenho a impressão que eu deixo um pouco dele [Nelson Rodrigues] com vocês”, declarou a atriz.

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Durante sua fala, Fernanda lembrou sobre as dificuldades que o teatro e a cultura em geral sofrem no país. “Por essa noite e por esse Festival, que está sendo feito com dificuldade, o teatro vai pelas catacumbas. A cultura desse país vai pelas catacumbas. A gente vai como pode e oferecendo o que se tem e sempre tem gente na platéia. Sempre alguém vem nos ver, pois somos de uma mesma humanidade”, disse Fernanda.

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Festa

Após a apresentação de Fernanda Montenegro, a mestre de cerimônia Guta Stresser, a eterna Bebel de “A Grande Família”, que participou da primeira edição do festival, deu início a festa do evento. Em menos de cinco minutos, o palco do Teatro Guaíra se transformou em uma balada. “Estar no palco do Guaírão, com essa plateia lotada, e as pessoas celebrando a arte que eu escolhi, e que me escolheu também, representa a minha felicidade”, declarou em entrevista. “Ela [Fernanda Montenegro] é a maior atriz desse país. Ter a honra e o privilégio de anunciar a leitura dela e ver uma atriz com 88 anos de idade como ela, com um domínio da sua arte, me faz muito otimista”, afirmou.

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Festival de Teatro de Curitiba

Ao todo, são cerca de 350 espetáculos em cartaz até o dia 9 de abril em mais de 70 espaços da cidade, para todas as idades, horários e bolsos. É um motivo e tanto para ninguém poder dizer que não tem dinheiro para ir ao teatro, já que algumas das peças são de graça.

A limitação de patrocínios, como a saída da Prefeitura de Curitiba, e a polêmica com a Lei Rouanet não impediram que o Festival continuasse grande e crescesse ainda mais em 2017. Pelo segundo ano consecutivo, a curadoria do evento é feita pelo ator e diretor Guilherme Weber e pelo diretor Marcio Abreu, que usaram a frase “Só me interessa o que não é meu” como mote desta edição. O manifesto antropofágico de Oswald de Andrade sugere o convívio entre as diferenças, o que explica também a longevidade do Festival. “Manter um evento deste porte por 26 anos é um ato de resistência que sobreviveu a diferentes governos e gestões municipais”, salienta Weber, um curitibano que tem o teatro correndo nas veias.

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