Nem chuva, nem vaia e nem pedrada acabaram com a Gaymada em Curitiba

O 17º Campeonato Interdrag de Gaymada foi uma das atrações do primeiro dia de Festival de Teatro de Curitiba. A interven..

Francielly Azevedo - 29 de março de 2017, 19:03

O 17º Campeonato Interdrag de Gaymada foi uma das atrações do primeiro dia de Festival de Teatro de Curitiba. A intervenção urbana aconteceu na Boca Maldita, no Centro da Capital, na tarde desta quarta-feira (29). Nem a chuva ou pedradas da plateia conseguiram acabar com o brilho do espetáculo, que foi repleto de glitter e muita aula de identidade de gênero.

A apresentação do coletivo Toda Deseo faz parte da Mostra. Os mineiros de Belo Horizonte discutem questões sobre diversidade sexual no âmbito público, por meio da prática artística. De maneira leve e bem-humorada o grupo chama a atenção para temas como transfobia, homofobia, machismo e violência contra mulher. "A gente entendeu que a brincadeira é muito potente para discutir com leveza todas essas questões", explica o ator Daivid Maurity.

Durante o espetáculo, uma pedrada foi arremessada contra os atores. A DJ da companhia, Ju Abreu, fez um apelo: "Quem está aí em volta assistindo fica atento, tome cuidado. Porque a gente tá tomando também". A plateia que acompanhava a apresentação vaiou a atitude do agressor, que não foi identificado. Depois disso, a Gaymada seguiu normalmente, sem nenhum outro ato violento.

Ao fim, a mensagem que o coletivo quis deixar aos curitibanos foi uma só: o respeito as diferenças. "Consideramos justas todas as formas de ser, de estar e de amar", afirmou a DJ.

 

Brasil, um país transfóbico 

O ódio e o preconceito causam cada vez mais preocupação entre a população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais). Um levantamento da Rede Nacional de Pessoas Trans do Brasil (Rede Trans Brasil) aponta que, apenas neste ano, 25 travestis e transexuais já foram assassinados no país.

De acordo com o Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2016, foram 347 mortes. O número é o maior registrado desde o início da pesquisa, há 37 anos. "A Gaymada existe porque o Brasil é um país extremamente transfóbico e homofóbico. É o primeiro país do mundo em mortes de travestis e transexuais. E o Paraná contribui para isso", ressalta Daivid.

Os monitoramentos incluem apenas as estatísticas, ou seja, casos que foram denunciados. Por isso, para os atores da Toda Deseo, é importante conscientizar a população. "Em tempos difíceis como agora, em que o Congresso trabalha para benefício de poucos e que nossos irmãos e irmãs continuam a morrer, porque querem ser aquilo que querem ser, a gente vai continuar gritando que: transfóbicos, homofóbicos, lesbofóbicos, racistas e machistas não passarão", reforça a DJ.

 

Gaymada

Uma estrutura de campeonato esportivo foi montada na Praça Osório: com DJ, líderes de torcida, uma juíza e oito times de seis pessoas. As equipes foram formados de maneira espontânea, sem distinção de idade, etnia, tipo físico e, principalmente, identidade ou orientação sexual. O objetivo foi a diversão e integração das diferentes pessoas, a partir do tradicional jogo de queimada.

No intervalo entre as partidas o grupo de atores fez performances e direcionou o público a manifestos coletivos, tratando sempre da diversidade de gênero. A Toda Deseo já reuniu cerca de 15 mil pessoas em 17 edições da Gaymada.