Curitiba rural preserva culinária polonesa

Eduardo Sganzerla

Restaurante Nova Polska, tradições dos imigrantes poloneses e hospitabilidade do meio rural.
(repolho azedo, funghi e costelinha de porco)

Nova Polska, Nova Polônia, faz parte da Curitiba rural, uma espécie de jóia rara para quem gosta de um fim de semana diferente, comida típica simples, mas saborosa, um almoço ao ar livre, lazer campestre, ar puro.

Este cenário pode parecer um pouco romântico nos dias de hoje, mas é ainda encontrado num raio de vinte a trinta quilômetros da Praça Tiradentes. Este é o caso do restaurante Nova Polska, de propriedade da família Antochevis, descendentes de polonês, que está renascendo nesta pós-pandemia.

Numa casa de madeira de 82 anos, toda restaurada e preservada com muito esmero, eles oferecem comida típica da terra natal de seus antepassados, como pieroguis (pasteis cozidos com vários recheios, doces e salgados); barcz (sopa de beterraba), kluski (nhoque polonês); golabki (charuto de repolho); klops (bolinho de carne com bacon). O carro-chefe é o bigos (repolho azedo, funghi e costelinha de porco), o verdadeiro prato nacional polonês (veja a receita).

“No lugar do tradicional bufê polonês, com a pandemia, passamos a servir à la carte, para a segurança dos clientes. Ampliamos a área de serviço ao ar livre, que pode atender mais de cem pessoas”, explica Luan Antochevis, o administrador do Nova Polska. Ele é neto dos poloneses proprietários da área de seis alqueires e que construíram a casa. Sua mãe, Célia Antochevis (1963-2013), foi quem teve a ideia de restaurá-la para montar o restaurante e criar o espaço de lazer.

Além de fazer ainda as tradicionais broa e a ricota polonesas, com a antiga receita dos avós, servem outros pratos como macarrão caseiro, alcatra, panceta de porco e sopa de cebola com bacon. A área de lazer tem opções tanto para adultos como para crianças. Tem muita atividade de fato para passar um boa tarde de sábado ou domingo num ambiente com bosques, lago e trilhas.

Nova Polska
Casa de 82 anos restaurada abriga o restaurante Nova Polska. Foto: Diego Singh
pierogui típico polones
Pierogui, um dos mais típicos pratos da culinária polonesa. Foto: Diego Singh.
golabki (charuto de repolho
Golabki (charuto de repolho). Foto: Diego Singh.

 

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O Nova Polska é um restaurante único na grande Curitiba

A propriedade fica na Colônia Dom Pedro II, na parte localizada no município de Campo Magro (veja o mapa de como chegar). O Nova Polska é o único restaurante típico polonês da grande Curitiba, que é um símbolo de preservação da cultura rural. A casa de madeira nem parece ter seus 82 anos.

A pintura em várias cores, como convém a um bom lar polonês, está muito bem cuidada. A reconstrução e restauração da casa (feita a partir de 2007) levou quatro anos para ser feita.

A artista plástica Nina Rosa foi convidada para participar da restauração do futuro Nova Polska. Num trabalho de paciência, raspou as cinco camadas de tinta da casa até chegar às cores e detalhes originais. A idealizadora do projeto, Célia Antochevis disse, na época, que o resultado era belo demais para não ser aberto à visitação pública, conta Luan.

Célia juntou essa ideia a um sonho antigo: fundar um restaurante que preservasse as receitas que aprendeu a fazer com a avó polonesa e a mãe. O Nova Polska ganhou vida e está aí até hoje.

detalhe do interior do Nova Polska
Detalhe do interior do Nova Polska. Foto: Diego Singh.
lambrequins
Os recortes pendentes dos lambrequins da casa restaurada. Foto: Diego Singh.

Áreas de lazer do Nova Polska

O nome do restaurante Nova Polska faz menção às origens da colônia polonesa. Fundada em 1876 pela terceira leva de imigrantes a chegar ao Paraná (e primeira a instalar-se fora de Curitiba), a colônia chamou-se Nova Polônia até o eclodir da Segunda Guerra Mundial, quando a perseguição aos imigrantes forçou a mudança de nome.

O novo nome faz menção à célebre passagem pela comunidade da caravana de Dom Pedro II, último imperador brasileiro. As famílias dos pais de Célia (oito irmãos ao todo), os Antochevis e os Nalepa, estão na colônia desde a sua fundação. Quando o pai dela se casou, construiu a casa que hoje abriga o restaurante com a madeira das então abundantes araucárias da região dos campos curitibanos.

paisagem campestre
A paisagem campestre do Nova Polska e da propriedade dos Antochevis. Foto Luan Antochevis.
área de lazer
Área de lazer do Nova Polska. Foto: Luan Antochevis.
Área de lazer do Nova Polska. Foto: Luan Antochevis.
Passeio de bicicleta também é oferecido na chácara. Foto: Luan Antochevis.

D. Pedro II em Curitiba prestigiou os colonos poloneses

Vale aqui relembrar a histórica passagem de D.Pedro II por Curitiba, em 1880, pois tem tudo a ver com o presente. Provavelmente, ele passou em frente onde é hoje o Nova Polska. Foi um dos fatos mais marcantes da província do Paraná, no século 19.

O imperador fez questão de prestigiar a colônia polonesa. Esta célebre visita é comparável à vinda do papa João Paulo II à capital paranaense, em 1980, cem anos depois, que atraiu quase um milhão de pessoas. Praticamente, todos os moradores da Curitiba provincial foram às ruas saudar o casal real.

21 de maio de 1880. 14h30. Alto da Glória. Curitiba, Paraná. Uma ansiosa multidão fez alguns segundos de suspense no momento em que a carruagem de luxo parou, acompanhada de seu imenso cortejo: quando surgiram na portinhola o imperador dom Pedro II (1825-1891) e a imperatriz Teresa Cristina (1922-1889), os gritos de entusiasmo explodiram.

“Felizes os olhos que viram aquilo que eu vi. Tudo que era vivo saudava o imperador. Livres e escravos, brasileiros natos e imigrantes, há pouco chegados, proporcionavam entusiásticos vivas de acolhimento, ao mesmo tempo em que se acotovelavam para poder ver os inusitados hóspedes e contemplar suas amadas fisionomias e sentir sua benignidade.”

Esta primeira visão do relato emocionado da visita do imperador dom Pedro II a Curitiba (e à província do Paraná), por uma testemunha ocular, o imigrante polonês Francisco Wos, perdeu-se no tempo, mas é uma passagem preciosa para se entender os laços da imigração do passado e suas repercussões na história atual. Inédito do grande público por quase um século, o depoimento foi reproduzido, em 1964, na curitibana gazeta “Lud” (jornal da comunidade polonesa escrito na língua natal, que existia entre 1930 e 1939; fechado pela ditadura Vargas, teve outras edições posteriores, até ser extinto em 1984), trazendo à tona aquele momento único da vida dos primeiros imigrantes poloneses que haviam chegado ao Brasil. Mostrou também o cenário do final da monarquia, protagonizado pelo imperador.

O imperador provou a comida polonesa e gostou muito

 Dois dias depois da chegada de dom Pedro II à capital provincial (dia 23 de maio), continuando a programação da visita, o imperador e a imperatriz se dirigiram de carruagem, perto do meio-dia, à colônia de poloneses de Santa Cândida (hoje bairro com o mesmo nome). Francisco Wos recepcionou em sua própria casa o imperador e a imperatriz.

“Serviu à mesa broa de centeio bem preparada e assada, a saleira juntamente com banha da terra, a manteigueira repleta e fresca e queijo feito de leite gordo”, conta a gazeta “Lud”.

O imperador olhou para a mesa sorrindo e assentou-se, a fim de experimentar as dádivas da terra. Passou a manteiga num pedaço de pão, cobriu-a com um pedaço de queijo e, mastigando várias vezes, olhava para aqueles colonos que o contemplavam como se fosse o sol. Disse então:

  • “- Não imaginava que fosse tão bom. Tal pão e manteiga nem no Rio de Janeiro, e que queijo gostoso!
  • “Satisfeito, o colono Wos [narrou ele na terceira pessoa] curvou-se e perguntou se o imperador não gostaria de experimentar a sua cerveja caseira.
  • “- Traga – respondeu o imperador.
  • “Quando lhe encheram o copo, experimentou e elogiou-a, dizendo que não era má. Depois continuou comendo a broa de centeio com manteiga e queijo e finalmente pediu um cálice de parati.
  • “- Parati!? O que é isto!?
  • “Os colonos olharam-se entre si, não sabendo do que se tratava.

“Tirou-lhes da dúvida um certo dignatário que acompanhava a comitiva imperial, o qual lhes explicou que parati era a mesma coisa que aguardente de cana-de-açúcar. Foi então oferecido ao imperador um cálice de aguardente, que ele tomou, após ter comido broa com manteiga e queijo.

  • “- Vocês já estão muito bem instalados, meus caros colonos – disse-lhes o imperador, afastando-se da mesa. – Muitas pessoas da cidade, se experimentassem o vosso pão e manteiga, haveriam de invejar-vos.
  • “Em seguida, dirigindo-se ao anfitrião Wos, pediu que lhe mostrasse os produtos que colhiam da terra.

“Satisfeito, Wos conduziu o imperador para o celeiro. Este estava cheio de gavetas do centeio, encontrando-se também milho, feijão e outros produtos agrícolas. O imperador parou diante das gavelas de centeio, tirou com as mãos uma espiga de um feixe e esfregou-a com as palmas das mãos, debulhando belos e escuros grãos de centeio. Perguntou o imperador:

  • “- Como vocês os extraem das espigas? Possuem para isso alguma máquina?
  • “- Muito fácil, majestade – respondeu Wos.
  • “Fez sinal para os colonos e estes limparam num relance um lugar no celeiro. Jogaram quatro feixes no assoalho, pegando nos manguais [hastes do pé de centeio] e, com evoluções e batidas rítmicas, em poucos minutos, separaram uma boa quantidade de grãos das espigas. Quando terminaram, o anfitrião apresentou um punhado de centeio malhado ao imperador.
  • “- Maravilhoso! – disse o imperador.
  • “- Mas como vocês limpam o debulho?

“Diante disso, Wos tomou numa peneira, encheu-a de debulho e centeio, deslocando-se para um lugar onde havia corrente de ar. Levantando a peneira para o alto e para baixo, eram movimentos rápidos e alternados, fez com que o vento levasse a sujeira para fora da peneira, enquanto os grãos caíam novamente na mesma. Com tanta eficiência fez isto, que após alguns desses movimentos apresentou ao imperador na peneira os grãos limpos de debulho.

  • “- Perfeito – elogiou o imperador. – Vejo que vocês são industriosos e conseguem soluções para tudo.
  • “Depois, o imperador ainda observou algumas coisas, mas os homens que o assessoravam chamavam para a volta, argumentando que se aproximava uma tempestade.
  • “Despediu-se então o imperador dos colonos e retornou a Curitiba.”

Este testemunho de Francisco Wos entrou para a história do Brasil.

Bigos do Nova Polska (repolho azedo, funghi e costelinha de porco)

o bigos servido a la carte
O bigos do Nova Polska servido à la carte. Foto: Diego Singh.

Ingredientes (6 pessoas)

  • 100 gramas de bacon
  • 1 pacote de chucrute
  • 2 repolhos picados
  • 1 cebola picada
  • 1 kg de costelinha de porco fresca
  • 500 gramas de costelinha de porco defumada
  • 500 gramas de salsicha ou linguiça calabresa
  • 500 gramas de lombo de porco cortado em cubinhos
  • Sal e pimenta a gosto

Preparo

Cozinhar as carnes por cerca de uma hora ou até que fiquem macias. Retirá-las dos ossos, e em seguida adicionar o repolho picado e o chucrute. Em outra panela, dourar o bacon, a cebola e a salsicha.

Juntar tudo e cozinhar por mais 40 minutos.

Servir com batatas cozidas ou broa.

Célia Antochevis (1964-2014))
Célia Antochevis (1963-2013), a fundadora do Nova Polska. Foto: Diego Singh.

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